segunda-feira, 3 de março de 2008

Ao som da canção da desesperança

Tempo de dores. Tempo de recolher e prantear jovens corpos. Uma mórbida assiduidade que leva à indiferença. A comoção diante de um corpo sem vida estirado na rua perdeu a força. A indignação de outrora é hoje apenas uma virada de pescoço e um ligeiro comentário. E a rua é liberada.

O perplexo foi trocado por um mísero levantar de sobrancelhas. E a vida segue. A morte de ontem, o sepultamento de hoje e o esquecimento de amanhã. Este é o real trajeto. Porque outro mártir está sendo preparado e a repetição faz a mente considerar normal o sangue imolado.
Porque as drogas avançam, poderosas, sem obediência aos limites. Elas entram em todas as casas sem escolher fachadas, em todas as famílias sem escolher perfis. Elas atravessam fronteiras, fincam bandeira, alastram possessões.

E os meninos e meninas são usados sem piedade, instrumentos dos disseminadores do vício. Meninos e meninas, frágeis e providenciais soldados involuntários na linha de frente de uma guerra geral e sem final.
Aumenta a fileira de cruzes. Corpos velados para tantos choros. Féretros que partem ao som da canção da desesperança. Vidas tomadas de meninos e meninas, tiradas de diferentes endereços, mas que tornam os sofrimentos comuns pela similaridade das histórias, fazem envelhecer precocemente e abrem eternas feridas. Lares dilacerados nas batalhas perdidas. Lágrimas secas de pais que na aridez da vida já não têm mais onde buscar explicações. Sobra-lhes a ponta da revolta.
Tempo de dores. Os depósitos humanos superlotados. Ninguém mais quer saber das notícias iguais sobre esses meninos e meninas que a cada dia vão sendo enjaulados para refinar o aprendizado. E a inocência vai rapidamente dobrando a esquina de suas vidas. Pobres meninos e meninas, habitantes do vale dos esquecidos.
Num mundo de difícil retorno, eles têm tantas tristes e loucas histórias para contar. Até quando terão tempo de contá-las? Sem lugar para os sonhos e desdenhando do presente, até quando viverão? O futuro é uma palavra que não existe.
Enquanto isso, os mercadores do mal ampliam seus territórios. Os predadores da infância, homens de sorriso sem alma, estão em todos os lugares, buscando os pequenos para deles tirarem a vida. Então vêm outros meninos e meninas para a sucessão de vítimas.
E os dias seguem dentro de uma absurda normalidade que a freqüente imolação causa tão somente uma sobrancelha alta, uma virada de pescoço e uma notícia lida como outras. E eles, os mensageiros da morte, sorriem satisfeitos. Tempo de dores.

(Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 2 de março de 2008)

Um comentário:

Soll disse...

bem interessante o seu blog! gostei! parabéns! abçs soll