quinta-feira, 19 de março de 2009

A HISTÓRIA DA FOLHA DO NORTE DO PARANÁ ESTÁ CONTADA AQUI, EM 68 CAPÍTULOS

Capa do primeiro livro online de Maringá-PR: "O Jornal do Bispo - A História da Folha do Norte do Paraná"

quarta-feira, 18 de março de 2009

Livro: "O jornal do Bispo" - AGRADECIMENTOS E BIBLIOGRAFIA

Entrevistados
Adriano Valente
Antonio Augusto de Assis
Dom Jaime Luiz Coelho
Elpídio Serra
Frank Silva
Gumerciando Carniel
Henri Jean Viana (Francês)
João Paulino Vieira Filho
Joaquim Dutra
Joel Cardoso
Jorge Fregadolli
José Antonio Moscardi
José Aparecido Borges
Messias Mendes
Moraci Jacques
Tatá Cabral
Osvaldo Lima
Reginaldo Benedito Dias
Verdelírio Barbosa
Walter Poppi
Wilson Serra

Profissionais que fizeram fotos para o livro
Henri Júnior
José Roberto Furlan
Nelson Jaca Pupin
Tabajara Marques

Transcrição da gravação dos entrevistados, pesquisa e consultoria
Simone Labegalini (TV Clipping)

Fotos e reproduções cedidas
Ademir Kimura (www.maringa.com)
Gumercindo Carniel
José Aparecido Borges
Kenji Ueta
Laércio Nickel Ferreira Lopes (reprodução de fotos do Museu Diocesano)
Osvaldo Lima
Walter Poppi
Jornal do Povo
O Diário do Norte do Paraná
RPC – Rede Paranaense de Televisão
Revista Conexão

Pesquisa de jornais, fotos e documentos
Arquidiocese de Maringá (Museu Diocesano)
Câmara do Município de Maringá
2º Cartório de Registro de Imóveis, Títulos e Documentos
Junta Comercial do Paraná
Prefeitura do Município de Maringá

Apoio na pesquisa
Ercílio Santinoni
Hélio Baiardi Oliveira
João Amaro Faria

Autorização para utilização do artigo
de Aramis Millarch e charge (capítulo 53)
Francisco Millarch
Tablóide Digiatal

Apoio na atualização de textos e pesquisa
Guilherme Tadeu de Paula

Revisão de texto
Sara Cristina Barreto Maia

Transferência do ZIP (compactador de arquivos) para CD
Marcleibert Natali "Pitico" (MPS Informática)

Arte da capa, consultoria e layout do blog
Marcelo Carvalho (Factory)
Leonardo Viana (Factory)

Orientadores
Cibele Abdo (Cesumar)
Gilson Aguiar (Cesumar)

Divulgação do livro online na imprensa
Andye Iore
(O Diário do Norte do Paraná)
Ângelo Rigon
(http://www.blogdorigon.blogspot.com/)
DJ Carlos J. Silva
(http://www.radarmaringaemdestaque.blogspot.com/ )
Danyani Rafaella
(Jornal do Povo)
Deny Leandro
(http://www.maringamais.com.br/)
Edson Lima
(Coluna Dia-a-Dia – O Diário do Norte do Paraná)
(www.odiaariomaringa.com.br/edsonlima )
Edivaldo Magro
(Hoje Maringá)
Elci Nakamura
(Rádio CBN Maringá)
Jary Mércio
(O Diário do Norte do Paraná)
Leonardo Filho
(http://www.blogdoleonardofilho.blogspot.com/ )
Luiz Fabretti
(Paraná Notícias - TV Maringá - Band)
Marcelo Bulgarelli
(RIC – TV Record,
(http://www.bardobulga.blogspot.com/)
Messias Mendes
(http://www.messias-mendes.blogspot.com/)
Michelle Thomaz
(RIC – TV Record)
Milton Ravagnani
(O Diário do Norte do Paraná)
Ronaldo Nezo
(Rádio CBN Maringá)
(http://www.blogdoronaldo.wordpress.com/)
Samuel Ferreira
(Jornal Hoje Maringá)
Tatá Cabral
(Jornal do Povo)
Tarcila França
(Jornal Hoje Maringá)


BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Arthur. Maringá: ontem, hoje e amanhã. Maringá:[s.n.], 1979.

DIÁRIO OFICIAL. Curitiba, 15 mai. 1962, p. 11-12.

DIAS, Reginaldo Benedito; TONELLA, Celene. A experiência do Legislativo Municipal em Maringá: 1947/1998. Maringá: Câmara Municipal de Maringá, 1999.

DIAS, Reginaldo Benedito; GONÇALVES, José Henrique Rollo (Org.). Maringá e o Norte do Paraná: estudos de história regional. Maringá: EDUEM, 2001.

DIAS, Reginaldo Benedito. Os trabalhadores e a esquerda na resistência à ditadura militar: a greve geral de outubro de 1968 em Maringá. In: ______. _______. Maringá: EDUEM, 2001.

PRIORI, Ângelo. Lutas sociais e conflito político: alguns temas da história de Maringá( o II Congresso de Trabalhadores Rurais e a formação da frente agrária paranaense. In: DIAS, Reginaldo Benedito; GONÇALVES, José Henrique Rollo ( Org.). Maringá e o Norte do Paraná: estudos de história regional. Maringá: EDUEM, 2001.

RABAÇA, Carlos Alberto; BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de comunicação. São Paulo: Ática, 1987.

Livro: “O Jornal do Bispo” Capítulo 68 (Último) – COM A PROTEÇÃO DA CATEDRAL, NO CORAÇÃO DOS MARINGAENSES E NA HISTÓRIA

São mais de cem degraus, escadarias em forma de caracol. Um concreto opressor. O ambiente é de penumbra até chegar ao quarto piso. Ali está localizado o Museu Diocesano, inaugurado em 2000.

As visitas são raras. Muitos fiéis sequer sabem da sua existência. O acesso é difícil e a direção da Catedral parece não fazer muita questão de expor as relíquias diocesanas.

O vigia dá plantão no térreo, no portão de entrada para a escadaria, mas a autorização para subir só é obtida na secretaria. Além da chave na porta do museu, foi colocado um alarme. Não há grandes atrativos no local, que bem poderia levar o nome do 1º arcebispo de Maringá.

Dom Jaime deixou o comando da Arquidiocese de Maringá em 1997, mas ainda está muito presente. Vestimentas sacerdotais, livros, anéis e moedas estão devidamente protegidos por grandes vitrines.

As condecorações e fotos, muitas fotos do bispo, em vários momentos de sua vida em Maringá, tomam conta das paredes. O primeiro exemplar da Folha do Norte do Paraná está fixado num cavalete.

No estreito Museu Diocesano, e também curvo, pois a Catedral tem o formato de cone, dom Jaime conta só um pouco da sua história que é a própria história da Diocese e agora Arquidiocese de Maringá. Boa parte dos títulos, homenagens e comendas, inscritos em belos pergaminhos, está na Residência Episcopal, na Zona 5, onde mora o arcebispo.

Também no quarto piso da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória, quase ao lado do museu, foi reservada uma área para que fossem colocados documentos complementares da Igreja, álbuns de fotografias de dom Jaime, de eventos e atividades da Arquidiocese e exemplares da Folha do Norte do Paraná.

O silêncio é quase total. Enormes vidros abrem passagem para a claridade. Encanta o visual composto pelo verde misturado ao concreto. É até possível desligar-se para se concentrar nas décadas de 1960 e 1970.

Ali repousa uma história de 17 anos que ainda não foi contada em sua totalidade e certamente nunca será. Era preciso buscar detalhes para amarrar a história e recolher fragmentos para elaborar a síntese. Tentei elaborá-la. Escolher o fio condutor que chegasse ao objetivo para não se perder no emaranhado de situações não determinantes foi o desafio.

No armário de madeira de cinco metros de comprimento por dois de altura encontra-se, disposta em 80 volumes, encadernada em azul e em ordem cronológica, grande parte das edições do jornal do bispo. Abri as páginas para conhecer mais profundamente essa história e contá-la com o máximo de fidelidade e respeito a todos que dela fizeram parte.

Era necessário unir este bruto material ao relato dos personagens responsáveis pelas obras diárias de 1962 a 1979. Uma parte respaldando a outra. Foi o que busquei nesta pesquisa.

Nas páginas amarelas e que vão se partindo pelo tempo é quase possível conhecer o sentimento de uma cidade, de um povo, de uma época. Este trabalho me fez enxergar uma outra Maringá, diferente daquela dos meus tempos de criança, adolescência e juventude.

Nomes de autoridades, empreendedores e profissionais da imprensa que até então eram simplesmente nomes, adquiriram contornos, relevância. Excetuando alguns personagens que, por força de suas obras e cargos, marcaram sua passagem, os demais eu os tirei da superficialidade, destinando-lhes um espaço bem maior de reconhecimento.

Conheci o papel de cada um no contexto de uma época e passei a ter um respeito maior por suas ações. Eles foram agentes ativos, atuando no poder público, no empreendedorismo e na imprensa, contribuindo para o desenvolvimento de Maringá.

Página virada. A Folha do Norte ficou para trás, cumpriu sua missão e hoje é peça de museu. Mas não ficará somente arquivada porque ela ainda vive no coração dos maringaenses que tiveram o privilégio de folhear suas páginas. E vai continuar vivendo porque, em qualquer tempo, quando se falar da história da imprensa do Paraná, o Jornal do Bispo será sempre lembrado.

terça-feira, 17 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 67 – QUEM PARIU MATEUS QUE O EMBALE

Só depois de 20 anos é que foi virada a última página da Folha do Norte do Paraná. O jornal foi fechado em 1979, mas dom Jaime só conseguiu dar baixa na sociedade em 1999. A demora, segundo o arcebispo, ocorreu por falta de documentos. Em 2001, o nome "Folha do Norte do Paraná" estava à disposição de quem quisesse utilizar, afirmava dom Jaime.

“Ainda queriam que eu ficasse com o nome Folha do Norte. Nós tínhamos propriedade do título, mas não interessa guardar este nome. Se alguém quiser abrir, pode. Nós encerramos a sociedade inteiramente.”

Para encerrar a sociedade, dom Jaime usou novamente do seu poder de influência e liderança. Os acionistas que, em sua maioria, entraram no negócio mais como uma forma de atender o então bispo, nada tiveram de retorno. O negócio mudou de mãos e os acionistas se tornaram colaboradores.

Da Diocese para Dutra, de Dutra para Fregadolli e de Fregadolli de volta para a Diocese. A grande Folha do Norte do Paraná havia se tornado um trambolho nas mãos de dom Jaime. Conforme o dito popular, “quem pariu Mateus que o embale”. E lá foi o responsável cuidar do espólio, pedir aos acionistas que passassem as ações para a Diocese.

“A finalidade foi a construção do Seminário. E a maioria, quase a totalidade dos acionistas, todos eles não tinham interesse também em dinheiro, que nem havia dinheiro para dar para eles. A única coisa que sobrou foi uma máquina impressora que eu vendi na ocasião não sei se por 500 cruzeiros. E foi colocado o dinheiro numa caderneta e aquilo foi rendendo, rendendo e quando, agora, terminou, aí conseguimos ter a maioria das ações, conseguimos os documentos necessários que era pedido em Curitiba. Sobraram, se não me engano, ultimamente, menos de R$ 10 mil. Foi dado ao Seminário. Uma colaboração desses acionistas que compraram as ações, que tinham em vista ajudar o Seminário.”


(Nota do autor: este depoimento de dom Jaime é de 2001. Hoje, o título “Folha do Norte do Paraná” está registrado no Instituto Nacional de Propeiedade Industrial em nome do jornalista Ângelo Rigon, desde 11 de novembro de 2008, com o número de propriedade 901301930)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 66 – A LIDERANÇA PERDIDA, O OCASO E O NOME NA HISTÓRIA

Na década de 1960 e no início dos anos 1970, a Folha tinha poucos concorrentes. O Jornal de Maringá se limitava a uma circulação doméstica e os jornais da Capital não tinham grande penetração na região.

A Folha do Paraná, então Folha de Londrina, era quem fazia esta concorrência, mas o espaço destinado a Maringá e às cidades da região era bastante restrito. Nos anos 1970, os jornais curitibanos começaram a intensificar o trabalho no interior.

Frise-se também o fato de publicações começarem a surgir nas demais cidades. É necessário acrescentar ainda que a televisão engatinhava. A Rede Globo instalou sua afiliada em Maringá em 1975, justamente no período em que a Folha começou a agonizar.

A televisão passou a ser a primeira mídia. Os donos de jornais tiveram que se enquadrar num espaço mais reduzido. Para isto, tiveram que se modernizar, oferecer mais atrações.

A Folha do Norte se manteve no artesanato. Com a disseminação dos órgãos de comunicação, criou-se inúmeras alternativas para a população, que passou a ver o jornal do bispo como mais um.

É importante sempre destacar que a Folha do Norte contribuiu para o progresso da cidade. A propaganda diária de Maringá em suas páginas, sobre os mais variados colaborou, certamente, no desenvolvimento da Cidade Canção. Pode não ter sido um fator determinante, mas a grande maioria das pessoas envolvidas com o jornal faz este registro.

Em linhas gerais, a Folha do Norte do Paraná pode ser definida como um jornal que nasceu para ser grande, mas não se modernizou. Foi criada para defender e propagar os dogmas da Igreja.

Com Dutra, ela se tornou empresarial, mas continuou atrelada ao poder. Na década de 1970 foi engolida pela modernidade. Contudo, diante de tanta representatividade, qualquer pesquisa, estudo ou análise que se faça sobre a imprensa de Maringá e a regional, é preciso incluir, necessariamente, a Folha do Norte do Paraná.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 65 - MARINGÁ AVANÇOU, A FOLHA DO NORTE FICOU

Para uma compreensão mais ampla do que representou a Folha do Norte do Paraná para o jornalismo maringaense e da região e para a própria cidade é necessário se situar no início da década de 1960.

Maringá era uma cidade em franco desenvolvimento. Empresas dos mais variados segmentos começaram a ser instaladas, fator que atraía profissionais de toda ordem para a cidade.

A fundação da Folha fez parte deste processo. A proposta era a de um jornal moderno, que criaria um divisor de águas na imprensa da cidade: antes e depois da Folha.

Conjectura-se que se a idealização do projeto Folha do Norte tivesse sido de um grupo empresarial, Maringá teria hoje um jornal com representatividade similar a uma publicação nacional.

Ocorre que os objetivos iniciais não estavam centrados em faturamento. Dom Jaime tinha como meta lançar um jornal que fosse porta voz da Igreja. Através da Folha, o bispo tinha intenção de integrar as paróquias das cidades da região e fortalecer a fé cristã contra o comunismo.

A venda das ações, que deu o respaldo para que o projeto fosse colocado em prática, se revelou inviável em menos de dois anos de funcionamento do jornal. Por incapacidade administrativa dos padres, que não estavam afeitos às nuances de uma empresa jornalística, a Folha por pouco não sucumbiu. Isto só não aconteceu porque entra na história Joaquim Dutra com seu espírito empreendedor.

Não há como contestar esta afirmativa porque foi a partir de Dutra que a Folha conseguiu se firmar e só passou a entrar em decadência após sua saída no final de 1973. Depois do período Dutra, em que pese todo o esforço dos diretores que o substituíram, a Folha foi diminuindo seu poder de fogo até se apagar em 1979.

Por mais de 10 anos, a Folha foi líder em Maringá e região. A chegada de O Diário coincidiu, ou talvez não tenha sido coincidência, com início do enfraquecimento da Folha.

À medida que O Diário se firmava, a Folha ia perdendo terreno. Ela ficou no tempo, não se modernizou. O tiro de misericórdia foi disparado por dom Jaime, que ganhou na Justiça o direito de ficar com o jornal para poder fechá-lo.

A liderança da Folha não pode ser explicada pelo fato de ela possuir uma linha editorial que fosse ao encontro dos interesses dos leitores. Salvo raras exceções, era uma linha “chapa-branca”, tutelada por dom Jaime. Se dependesse de um espírito vanguardista pra sobreviver, o jornal não teria sequer entrado na década de 1970. Como aconteceu com tantos que não cerraram fileiras com o governo militar.

Também não é possível creditar unicamente à equipe de redação esta liderança. Apesar do alto nível de grande parte destes profissionais, o engessamento na produção de reportagens os impedia de mostrar toda a sua capacidade. Em muitas oportunidades, o trabalho não diferia muito do que era realizado em publicações de menor porte de Maringá e região.

Antonio Augusto de Assis afirma que a Folha do Norte tinha um diferencial. Ele reforça que a Folha do Norte era popular pelo trabalho realizado pela Diocese, mas acrescenta um dado fundamental para explicar essa popularidade: o “maringaísmo”, que era exercitado nos editoriais.

Os editoriais da Folha, que, ao lado dos memoráveis artigos de dom Jaime, deixavam bem nítidas as principais razões de existir do jornal: a defesa da ética cristã e a luta pelos interesses da região de Maringá, aquela paixão que a gente chamava de "maringaísmo". Foi um lindo sonho, que enquanto durou foi muito útil a Maringá e a toda esta região. Agora é história. Que bom que recordada com saudade.

Portanto, para compreender esta liderança é preciso levar muito em conta o fato de que o jornal tinha uma grande penetração em Maringá e região porque seus propagadores eram os padres das paróquias e havia o empenho em divulgar a Cidade Canção.

Esta estrutura da Diocese permaneceu inalterada mesmo depois da saída dos padres da redação. Os diretores seguintes liam a cartilha do bispo e eram maringaenses empenhados no desenvolvimento de sua cidade. Um outro aspecto, tão importante quanto os citados, era a pouca concorrência que Folha enfrentava.

sábado, 14 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 64 - O QUE REPRESENTOU A FOLHA DO NORTE NA VISÃO DE QUEM ESTEVE INTIMAMENTE LIGADO AO JORNAL

Adriano Valente:
“A Folha do Norte foi uma iniciativa que teve uma grande repercussão em Maringá. E essa repercussão se deve à época em que os jornais tinham grande dificuldade de se expandir e de se manter, de maneira que a Folha veio para preencher esse vácuo. Não foi uma coisa imediata porque jornal é uma indústria complexa. Depois que a Folha começou a se desenvolver, começou a ter uma influência fundamental para a região e em benefício do desenvolvimento de Maringá.”

Dom Jaime:
“Ela foi bem acolhida no começo. Era um jornal muito sério. E por ser um jornal sério nós tivemos de fechá-lo. A gente queria implantar o bem no norte do Paraná. Nada de partido político, essas coisas, nada disso.”

José Antonio Moscardi:
“A Folha do Norte dava sua contribuição sendo um jornal sem uma linha editorial definida, era um jornal que fazia um jornalismo bem amador, não tinha uma definição editorial. Era eclética, mas ajudou no seguinte sentido: era o que tinha no momento até 74, quando surgiu O Diário, mas até aí era quem norteava os rumos da comunidade junto com as rádios. Era uma referência. A Folha chegou? A Folha falou isso? Muito mais no âmbito da divulgação simplista do que como formadora de opinião.”

Tatá Cabral:
“Ela revolucionou. A gente só conhecia a Tribuna de Maringá e O Jornal de Maringá. A Folha veio com um sistema de impressão moderno, uma equipe muito boa. Ela foi fundamental. Foi a maior revolução até chegar O Diário porque a Folha se transformou no O Diário. Até chegar O Diário, foi a melhor coisa que tivemos na imprensa maringaense.”

Joaquim Dutra:
“A Folha do Norte eu gravo com admiração porque foi um jornal sério. Naquele tempo em Maringá tinha diversos jornais, mas a maioria era de picaretas. A Folha do Norte sempre foi um jornal muito sério, muito responsável.”

Elpídio Serra:
“Se você pegava na época a Última Hora, o logotipo, as cores e a distribuição de diagramação e pegava a Folha do Norte era a mesma cor, um azulzinho turquesa. Qual a idéia? Não vou dizer que veio do dom Jaime, mas de quem estava junto com dom Jaime: era colocar nas bancas os dois jornais lado a lado. Quem estava para comprar a Última Hora, por engano, talvez comprasse a Folha do Norte. E ela circulava em Maringá, Londrina, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, circulava no Brasil inteiro.”

Messias Mendes:
“A Folha do Norte era mais ou menos o que é O Diário hoje para Maringá. Era bem vendida e tinha muitos assinantes. Era uma empresa sólida, bem administrada, bem pé no chão. Depois do segundo arrendamento parece que ela enfraqueceu um pouco. O jornalismo da época era uma coisa mais gente. E o poder de influência também. Hoje, a televisão tem um poder de influência muito forte, mas é aquela imprensa volátil. Hoje a televisão faz uma matéria que influencia e tal. Naquela época, não, uma matéria que causava um tipo de influência na comunidade, ela ia longe. A discussão ia longe. A comunidade tomava partido. Então, o jornal tinha um peso.”

Wilson Serra:
“A Folha foi um grande avanço tecnológico. Ela contribuiu para a consolidação de Maringá como pólo regional. Enquanto O Jornal restringia sua circulação apenas a Maringá, a Folha abriu a circulação regional, em quase todo o norte e noroeste do Estado, levando para quase uma centena de cidades as notícias de Maringá. Tinha correspondentes e bases de circulação em várias cidades.”

João Paulino:
“Foi um investimento feito pela Mitra Diocesana, com dom Jaime à frente. Esse jornal nasceu grande, promissor. Foi um veículo importante para Maringá e região pela influência da Diocese e isso centralizou em Maringá este grande núcleo que está aqui. Foi um dos alicerces da imprensa com o trabalho do dom Jaime, a quem nós devemos elogiar e agradecer pelos feitos. Ele também foi pioneiro na televisão com Samuel Silveira e Joaquim Dutra.”

Verdelírio Barbosa:
“Era um senhor jornal, um jornal de respeito, de peso, circulava praticamente em toda a região. Mas não vejo a influência da Folha no desenvolvimento de Maringá. Até porque foi um jornal que circulou pouco tempo. Ele teve peso na comunicação. A verdade é que o desenvolvimento de Maringá a gente deve para o nosso povo.”

Moracy Jacques:
“Apesar de ser pequena, a Folha do Norte era um bom jornal. Atraiu muita gente da região. Foi o órgão oficial de 30 a 40 municípios, então esse pessoal vinha todo para Maringá.”

Jorge Fregadolli:
“A Folha do Norte abriu esta cidade, foi a mãe desta cidade. Realmente projetou esta cidade, deu uma expansão muito grande. Eu acredito que em 80% cento do crescimento de Maringá a Folha do Norte tem participação porque ela divulgava tudo o que era coisa boa, levava o nome de Maringá para todos os quadrantes.”

Antonio Augusto de Assis:
“Foi um marco no jornalismo aqui e creio que também uma grande escola de jornalismo. O primeiro grande jornal de importância em Maringá foi O Jornal de Maringá. E, logo em seguida, a Folha do Norte.”

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 63 – FOLHA DO NORTE: ÍCONE PARA PROPAGAR MARINGÁ

Não há vozes discordantes quando se fala na importância da Folha do Norte do Paraná para a cidade. Algumas declarações são até exageradas, outras tendem a diminuir esta importância do jornal para o crescimento da cidade, mas destacam o grande significado para a imprensa regional.
O certo é que o jornal do bispo foi, na maior parte da sua existência, principalmente no comando de Joaquim Dutra, o mais representativo da cidade e da região. Se a Folha não foi a força motriz do desenvolvimento de Maringá, foi o ícone para propagá-la de 1962 até meados da década de 70.

Por ser um pólo regional, Maringá sempre esteve posicionada entre as cidades paranaenses na vanguarda dos acontecimentos políticos, ainda que seus homens públicos não tenham, na maioria das vezes, acompanhado esta liderança e evolução.

Mesmo com uma posição unilateral, intransigente em defesa do governo do Estado, salvo Moysés Lupion, e com vistas grossas à maior parte das administrações municipais, a Folha deu sua contribuição à cidade e à região.

Mesmo omissa nas discussões de relevância social, a Folha não foi apenas porta-voz da Igreja, ela atraiu para Maringá empreendedores e trabalhadores de toda ordem, visitantes e compradores. Em função de sua penetração, a Folha foi uma das responsáveis pela manutenção de Maringá na liderança da região.

O jornal trabalhou na divulgação do comércio da cidade, das opções de entretenimento, do Grêmio Esportivo Maringá e do Grêmio de Esportes Maringá, da Universidade Estadual de Maringá e de tantas outras entidades públicas e privadas. Os homens diretamente ligados à Folha reconhecem esta força.
No Museu Diocesano, o primeiro exemplar da Folha ocupa lugar de destaque
(Foto: José Roberto Furlan)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 62 – POR QUE A FOLHA DO NORTE FECHOU?

Por que a Folha fechou? Porque não se modernizou, porque surgiu O Diário, porque dom Jaime já não tinha interesse em mantê-la, porque a disseminação de outros órgãos de comunicação a deixou enfraquecida, porque a última administração não conseguiu torná-la auto-sustentável ou por tudo isto, por este conjunto de fatores.

Nos depoimentos, é possível encontrar as explicações. Cada um dos que tiveram relação com a Folha do Norte tem análises próprias, mas, em sua maioria, convergentes. As razões do jornal ter encerrado as atividades estão interligadas.

Dom Jaime avalia que o fechamento ocorreu devido à seriedade do jornal, negando que tenha desistido porque já não era tão importante para a Diocese ter uma publicação como no início dos anos 1960:

“O que comprometeu a Folha foi a linha da Folha. Nem pra lá, nem pra cá, nem no centro. Nada de bandalheira pra cá, nem de bandalheira pra lá. A gente queria um jornal sério. O que comprometeu a Folha do Norte foi a sua seriedade. Não é que viesse um outro jornal para combater, não. Nós nunca quisemos combater ninguém, imprensa, nada disso.”

Para Antonio Augusto de Assis, a Folha parou no tempo e, mesmo que se modernizasse, não haveria espaço para ela e para O Diário. Assis acrescenta ainda o desinteresse de dom Jaime:

“Fechou porque ela defasou. O equipamento dela era antigo e ficou economicamente inviável. Ninguém tinha dinheiro para pôr máquinas novas lá. A cidade também não comportava dois jornais modernos. Já tinha O Diário com equipamento novo. E a Folha com aquele museu lá, não dava. Ela foi moderna quando se instalou, mas em poucos anos ficou superada pelos novos equipamentos. E o bispo não tinha mais interesse em investir ali e os arrendatários não tinham recursos para investir também.”

O substituto de Frank Silva na Folha do Norte, Joel Cardoso, chegou a Maringá no início dos anos 1970, vindo de São José dos Campos. Na Folha ele iniciou sua carreira na imprensa da cidade. Começou trabalhando como “foca”, atuou como repórter policial, editoria local e finalmente assumiu a vaga de colunista social. Para Joel, a Folha sucumbiu diante da competitividade com outros jornais:

“Na década de 60 e início da década de 70 o domínio editorial era da Folha. Um jornal forte, que tinha como principal trunfo o fato de ter como diretor-presidente o bispo dom Jaime Luiz Coelho. Por vários fatores, inclusive por uma tentativa frustrada vendendo ações para a busca de recursos de modernização, o jornal acabou sendo terceirizado para a Editora Gráfica 10 de Maio. Na seqüência, outros jornais apareceram em Maringá e região com recursos modernos e a competitividade parece ter sido fatal para a continuidade da Folha do Norte do Paraná.”

José Antonio Moscardi culpa o desinteresse da Igreja, leia-se dom Jaime, e os conflitos entre a Diocese e direção da Folha:

“Eu acho que a Folha fechou justamente por causa da presença majoritária dela. A Igreja não tinha interesse em investir pesado na Folha do Norte para a compra de equipamentos, mesmo porque era tudo obsoleto, como linotipo, calandra. Para reverter este quadro, tinha que repensar tecnicamente 100 por cento. Jogar tudo fora e fazer o que O Diário fez. E a Igreja não tinha esse tipo de interesse. O Jorge Fregadolli, que era o gestor máximo da Folha, não tinha interesse em fazer grandes investimentos porque não estava investindo no que era dele. Por que faria isso, né? Então, ele foi levando até onde achava que dava, depois houve conflito político, uma coisa bem paroquial. Os conflitos entre a Igreja e a gestão da Folha é que determinaram o fechamento dela.”

Messias Mendes não vê relação entre o surgimento do O Diário e o fechamento da Folha:

“A Folha não se modernizou. Eu sei que depois que o Dutra e o Assis deixaram a Folha, ela caiu nas mãos do Jorge Fregadolli e ele não tinha assim tanta estrutura. A Folha se enfraqueceu. Para ela acompanhar a evolução do mercado e para ser o que é O Diário hoje, teria que ser modernizada com off-set, informatizada. Isso exigia investimentos muito grandes. Agora, porque não se aproveitou a estrutura da Folha do Norte para se fazer o que foi feito no O Diário aí é um problema que eu não sei. Não sei se a Mitra estava por trás disso, se não houve nenhum interesse em evoluir, parar por ali mesmo. Eu sei que para a época, a Folha do Norte teve um peso tão grande, às vezes maior que tem O Diário hoje.”

Wilson Serra analisa a questão desde o início da fundação. Para ele, foi dado “um passo maior do que a perna”:

“O jornal sempre teve problemas de gestão administrativa. Ele nasceu com o oneroso objetivo de concorrer com o Última Hora. Para concorrer com um dos principais jornais do País era preciso muito investimento. Foi um passo maior do que a perna e o jornal fechou temporariamente. Foi reaberto por Dutra e pelo Assis. Foi, certamente, a melhor, quem sabe a única, época empresarial do jornal e, portanto, a mais sólida, e mais estável. Entretanto, e também não sei quais os motivos, Dutra abandonou a sociedade para abrir um novo jornal. Sem a visão empresarial de Dutra – Assis era um jornalista e poeta, sem sequer um novo investimento tecnológico desde a sua fundação, a Folha foi cedendo espaço para O Diário, já impresso em off-set. Acabou fechando.”

A concorrência de um contraponto editorial e a falta de um perfil empresarial definido foram, para Reginaldo Benedito Dias, as possíveis causas do fechamento:

“Não posso assegurar, mas especular algumas hipóteses. A primeira é que talvez a linha editorial de O Diario tenha se mostrado mais atraente em um mercado que não permitia muitos concorrentes. Então esse era um aspecto, o contraponto editorial. Outro aspecto que merece ser investigado é que, pelo que consta, a Folha do Norte não tinha o perfil empresarial muito profissionalizado. Então, talvez Maringá precisasse de um jornal com um perfil empresarial mais definido.”

Verdelírio Barbosa é incisivo ao negar que a abertura do O Diário implicou no fechamento da Folha:

“Não, não. A Folha vinha mal há muito tempo, tanto é que quando assumiu lá, o Joaquim Dutra, com o Assis, esse pessoal, a Folha já estava até desativada, então não teve influência nenhuma, não. A Folha já estava com os dias contados.”

Moracy Jacques pensa totalmente o contrário de Verdelírio:

“Foi uma transformação, porque eu considero hoje O Diário, a Folha do Norte que cresceu.”

Ao explicar as razões do fechamento, Joaquim Dutra ressalta que os objetivos de dom Jaime nunca foram comerciais:

“Não podemos pensar em jornal daquela época como hoje. Antes era tudo muito caro. Dom Jaime tinha a Folha como um veículo de comunicação social, o sonho dele não era comercial, queria um veículo que representasse a Igreja, que divulgasse a Igreja. A Folha não fechou comigo. Depois que saí, não sei os rumos que a Folha tomou. Quero frisar que eu e dom Jaime sempre nos demos bem. Ele é uma pessoa que prezo muito.”

Além da Folha não ter se modernizado, Elpídio Serra atenta para um outro fato que, em primeira instância, balançou as estruturas do jornal do bispo:

“Quando o Joaquim Dutra e o grupo da Rede Paranaense de Rádio montaram O Diário o que eles fizeram? Pegaram 100 por cento da equipe da Folha do Norte. Na época, o jornal tinha um fusca que distribuía o jornal, que fazia reportagem, que levava o vendedor de publicidade, que transportava o diretor. Era um fusca para todas as funções."
Walter Poppi acompanha a opinião de Elpídio:

“O Joaquim Dutra saiu e fundou O Diário. Aí ficou o Assis e o Fregadolli e começou a desavença com dom Jaime. Ficou aquele atrito uns quatro ou cinco anos. O Diário começou com off-set e a Folha ficou com aquela rotativa lá e quando dava defeito não tinha mais técnico. O pessoal já estava todo modernizado. O fator mecânico também influenciou. Funcionários começaram a sair. Foi uma crise.”

Pelo que se pode depreender, os mais variados fatores determinaram o fechamento. O que fica latente, sobretudo, é a constatação de que o jornal precisava ser empresa para crescer ou se manter, mas dom Jaime quis continuar a abrigá-lo em sua paróquia. Quando já não era mais possível lutar contra os ventos da modernidade, quando percebeu que o jornal fugia de seu controle e que a missão estava praticamente cumprida, o criador matou sua cria.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 61 – ETERNO INCONFORMISMO

De todos os homens que fizeram parte da história da Folha, Jorge Fregadolli é o único que não aceita passivamente o fato do jornal ter sido fechado. Ele continua, mesmo depois de três décadas, inconformado.

Aos 72 anos, Fregadolli continua na ativa, é proprietário da revista Tradição, publicação que faz jus ao nome, pois está há mais de trinta anos na praça, e é responsável pela Vitrine, no O Diário do Norte do Paraná, coluna que escreve desde os tempos da Folha do Norte.

Para Fregadolli, falar do jornal em que foi um dos diretores de 1973 a 1979, o faz despertar iras e paixões. Um típico caso de amor não resolvido que o tempo jamais vai apagar da sua mente.

O veterano publicitário está entre os que mais se empolgam ao falar do assunto e, ao contrário, da maioria, entende que o Diário só cresceu porque a Folha parou:

“A Folha do Norte sempre teve uma linha de conduta muito limpa. Ela não se preocupava com os adversários. Ela fazia seu caminho. Nós tínhamos uma meta de ir pra frente. Um concorrente pra nós fazia a gente acordar mais cedo. A idéia era colocar a Folha sempre na frente. Ela tinha uma divulgação muito grande, uma preferência muito grande. A Folha tinha uma linha de conduta muita boa. Ela não se importava, não vivia de críticas, vivia de expansão, noticiar coisas boas, o progresso. Chegamos a circular em 200 municípios do Paraná. Naquele tempo, chegamos a ter uma tiragem de 8 mil exemplares. Um número expressivo para a época enquanto a Folha de Londrina não chegava a 5 mil. O Jornal de Maringá nunca chegou a ameaçar a Folha do Norte porque O Jornal sempre foi limitado. Ele era aquele jornal tradicional, não cresceu muito, decaiu, até que chegou um dia que também parou, entrou em decadência, como a Folha do Norte parou em 79. Em 79, a Folha estava disparada na frente. Quando parou é que O Diário começou a suspirar, foi aí que O Diário começou a crescer porque até então era o segundo jornal.”

Ao contrário do que afirmam os jornalistas que editaram as últimas edições da Folha, Fregadolli diz que o fechamento ocorreu por decisão de dom Jaime e não por inadimplência. Ele não analisa as fases do jornal: com a Diocese, com Dutra e a entrada de seu grupo.

Fregadolli analisa que a Folha nasceu forte e morreu forte. Sem meias palavras, afirma que era o maior jornal do interior do Paraná e que, de tão bem feito, era melhor do que os de Curitiba.

Enquanto pôde, Fregadolli lutou para continuar. Entrou na Justiça para ficar com o nome e perdeu. Talvez para dar vazão ao seu perene inconformismo, ele coloca doses cavalares de importância à Folha para o desenvolvimento de Maringá:

“A Folha do Norte abriu esta cidade, foi a mãe desta cidade. Realmente projetou esta cidade, deu uma expansão muito grande.”

O coração de Jorge Fregadolli fala mais alto. E quem poderá culpá-lo por este amor pelo jornal que continua tão latente e mal resolvido mesmo transcorridos trinta anos do seu fechamento?
Jorge Fregadolli, que entrou na Justiça para ficar com a Folha e perdeu: “A Folha do Norte abriu esta cidade, foi a mãe desta cidade”
(Foto: Tabajara Marques)

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 60 – A ÚLTIMA EDIÇÃO

Na edição do dia 10 de junho de 1979, a de número 4.723, a Folha do Norte circulou pela última vez. Na manchete, “Hoje é dia de Clássico do Café”.

No rodapé da capa, um comunicado da direção, que não expressava a verdade em sua totalidade: “Ao público em geral – Por motivo de força maior deixamos de circular nossas edições temporariamente. Agradecemos penhoradamente a compreensão de todos. A direção.”

Fregadolli tinha sob seu comando cerca de trinta funcionários, que foram devidamente pagos, segundo ele. O ex-diretor da Folha conta que houve uma grande compreensão por parte dos empresários que anunciavam no jornal e várias contas foram recebidas após o fechamento. Depois de 17 anos, sucumbiu o jornal que queria competir com o Última Hora.
A última edição da Folha do Norte, em 10 de junho de 1979. Depois de 17 anos, chegava ao fim o jornal do bispo
(Reprodução)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 59 – LUZ PARA SEMPRE APAGADA NO DIA 9 DE JUNHO DE 1979

Fregadolli não aceitou passivamente a decisão do bispo e entrou com uma ação na Justiça. A ação foi contestada por dom Jaime que contra-atacou: entrou com uma ação de despejo contra a Editora 10 de Maio Ltda.

No período em que corriam as ações, Fregadolli deixou de pagar o aluguel do imóvel, fator determinante para que os sócios da Folha do Norte viessem a ganhar a causa.

Fregadolli entrou com mandado de segurança e conseguiu mais um fôlego que durou quatro meses. Neste período, constava no expediente que a Folha estava em liquidação e, a palavra “liquidante”, entre parênteses, após o nome do diretor-presidente-fundador.

Em 9 de junho de 1979, num sábado, a redação trabalhou pela última vez. O fim já era esperado. Tinha data marcada. Walter Poppi, o chefe de redação, foi quem apagou a luz e fechou a porta da redação.

Trabalharam com ele na tarde daquele sábado, o seu irmão Valdemir Poppi, o Popinho, Renato Diniz Dominici, Manoel Cabral e Edmilson Wantuil.

Depois que as matérias foram revisadas e enviadas para as oficinas, Poppi e os demais repórteres limparam as gavetas e saíram para não mais voltar.

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 58 – A LIQUIDAÇÃO DA FOLHA DO NORTE

Dom Jaime decidiu, no final de 1977, rescindir o contrato de arrendamento da Folha do Norte do Paraná S/A com a Editora 10 de Maio Ltda, de propriedade de Jorge Fregadolli.

A editora era a responsável pela publicação do jornal, ocupando o prédio da Duque de Caxias e utilizando os equipamentos. O objetivo de dom Jaime não era procurar um outro arrendatário. O que ele queria mesmo era encerrar as atividades da Folha.

Para tanto, foi realizada uma assembléia geral dos acionistas no dia 24 de novembro em que foi proposta a liquidação da empresa Folha do Norte do Paraná S/A e, por conseqüência, a dissolução da diretoria. A proposta foi aceita por unanimidade.

A FAP (Frente Agrária Paranaense) já não era uma bandeira de luta, os comunistas não representavam tanto perigo e a Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória estava concluída.

Na leitura da proposta da diretoria, dom Jaime fez um histórico do jornal explicando os motivos que o teriam levado a arrendá-lo a Dutra e posteriormente a Fregadolli. A cópia da ata da assembléia geral, a oitava desde o início da sociedade, que decidiu pela liquidação, está arquivada na Junta Comercial do Paraná.

No final da folha 5, o bispo ratifica os motivos que o levaram a propor o fim do arrendamento e a liquidação:

“Os resultados deste arrendamento não corresponderam às nossas expectativas. Por um lado, a máquina impressora e todo o parque gráfico tornaram-se obsoletos, pois já foram adquiridos de segunda mão. Os bens móveis e utensílios diversos sofreram a natural depreciação ou desgastaram-se ao longo destes 15 anos de uso. Perdemos a estrutura administrativa e nos distanciamos de nosso objetivo como jornal regional. Por outro lado, não conseguimos o equilíbrio econômico financeiro necessário para o reinício direto de nossas atividades. E, esta, é hoje desaconselhável, porquanto qualquer estudo nesse sentido demandaria tempo razoável e investimentos vultuosos, incompatíveis com a atual conjuntura nacional de plena contenção do crédito, com o mercado investidor regional que padece severíssima crise, e, principalmente, com a nossa situação, que requer solução imediata, a fim de não entrarmos em nova fase de prejuízos. Diante desta flagrante instabilidade, e tendo em vista que a continuidade do arrendamento implicará a prazo curtíssimo no desgaste final dos bens móveis, com total e evidente prejuízo dos senhores acionistas, somos de parecer que a sociedade seja dissolvida, procedendo-se a venda dos bens móveis ainda existentes, e após o pagamento de todas as custas de liquidação e pagamento dos credores, se proceda o rateio do saldo entre os senhores acionistas, na proporção das ações que possuírem. Esta é a proposta que a diretoria submete à aprovação da assembléia geral extraordinária dos senhores acionistas.”
Folha do Norte em liquidação. Expediente em 1978: diretor Jorge Fregadolli, editor-chefe Valdemir Poppi, e Joel Cardoso, que consta como assessor
(Reprodução)
Joel Cardoso: substituto de Frank Silva na coluna social da Folha do Norte
(Foto: Arquivo Revista Conexão)

terça-feira, 10 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 57 - ABRAÇO EM TODOS OS PODERES

Para uma maior compreensão do posicionamento da Folha do Norte ao longo de sua história é preciso voltar no tempo, folheando suas páginas desde sua fundação.

A Igreja estava em guerra declarada contra o comunismo e não via com bons olhos a presença de João Goulart na presidência, mas na Folha do Norte não havia críticas ao chefe da nação. Atacava-se o comunismo genericamente.

Buscava-se citações de governadores alinhados aos militares e também do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, para transmitir a mensagem anti-marxista. Nos artigos de dom Jaime, também se verifica esta preocupação: críticas gerais e não específicas.

Nas primeiras edições, o assunto predominante foi o plebiscito, realizado no País em 1962, para decidir entre o presidencialismo e o parlamentarismo. Os militares queriam diminuir o poder de João Goulart temendo o avanço comunista.

Jânio Quadros, que havia renunciado no ano anterior, mostrara-se bastante simpático ao marxismo chegando a condecorar o líder revolucionário Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, para a revolta geral dos quartéis.

O vice Goulart assumiu sem as bênçãos dos militares, que encontraram no parlamentarismo a forma de dividir as decisões. O presidencialismo venceu, mas os verde-olivas continuaram fustigando o governo Goulart até que em 31 de março aconteceu a chamada “Revolução”.

Em amplas reportagens enviadas pela Transpres, a Folha deu destaque ao plebiscito ao mesmo tempo em que combatia o comunismo.

Quando Ney Braga assumiu o Governo do Paraná, em 1962, a Folha tornou-se quase um órgão oficial do Palácio Iguaçu. Além do próprio espírito direitista do jornal, é preciso relembrar da grande amizade entre dom Jaime e Ney Braga.

Moysés Lupion, o governador anterior, era, para dom Jaime, a personificação do mal. Com Ney, tudo mudou. Ficou, então, na alça de mira, somente o prefeito João Paulino. A Prefeitura e o prefeito eram o alvo para que a redação desse vazão às críticas. Mas, com aquela contundência ocasional.

Com Paulo Pimentel no governo do Estado, a Folha manteve o perfil institucional, apesar de atritos de dom Jaime com o governador.

1964: Luiz Moreira de Carvalho, eleito prefeito de Maringá para a gestão 1965-1968, comemora a vitória com carreata

(Reprodução foto - site www.maringa.com)






Com o governador Paulo Pimentel, algumas rusgas, mas sem grandes conseqüências
(Reprodução)
Edição de 14 de março de 1979: mais um militar no poder
(Reprodução)

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 56 - UNIÕES E ATRITOS AO LONGO DOS ANOS

Nas administrações de Luiz de Carvalho e Adriano Valente à frente da Prefeitura de Maringá, os repórteres ficaram engessados para tecer críticas ou quaisquer comentários desairosos. Carvalho e Valente tinham laços de amizade com o bispo e foram grandes colaboradores na construção da Catedral Nossa Senhora da Glória, o que João Paulino não havia sido.

Em 1973, quando a Catedral já havia sido inaugurada, Silvio Barros assumiu a prefeitura e, depois de muito tempo, os repórteres puderam exercitar a lavra ofensiva, que há muito tempo estava represada. Não durou muito. Joaquim

Dutra havia deixado a Folha e o grupo que assumiu precisava de outros recursos além dos comerciais. Neste período, percebe-se críticas esporádicas e amplas reportagens relacionadas à administração municipal.

Silvio e dom Jaime se atritaram inúmeras vezes. Se dependesse do bispo, as críticas à administração municipal seriam maiores, mas o jornal não estava nas mãos da Diocese.

O prefeito ameaçava cobrar na Justiça os impostos dos imóveis da Igreja quando era atacado na Folha, deixando dom Jaime possesso. Neste período entra em cena com mais vigor a figura do colunista político, que não tinha vínculo empregatício com o jornal e, na maioria das vezes, podia escrever o que quisesse.

O colunista servia aos interesses do jornal quando era necessário fazer pressão para obtenção de vantagens. Algo comum hoje em dia não apenas em Maringá.

Na volta de João Paulino à prefeitura, em 1977, os tempos eram outros, o jornal estava preocupado em se manter e não havia espaço para jornalistas panfletários, para os que defendiam uma causa ou uma posição.
Havia as tais colunas assinadas, mas o espírito da redação coadunava com o departamento comercial. Por isso, enquanto João Paulino esteve no poder, a Folha, se não foi uma parceira da administração municipal, adotou uma postura quase indiferente.

Com os militares na presidência, a linha continuava inalterada: sem críticas e com grandes espaços para os releases do Planalto.

Também sem alterações com os que sucederam Pimentel no Palácio Iguaçu: Haroldo Leon Peres, Parigot de Souza, Emílio Gomes, Jaime Canet e Ney Braga, de volta, nomeado por Figueiredo.

Verifica-se em relação à Câmara Municipal um acompanhamento discreto. A divulgação de projetos perde espaço para questões político-administrativas envolvendo vereadores e prefeito, eleições da Mesa Executiva e uma ou outra contenda entre os edis.

O Legislativo maringaense foi utilizado várias vezes para que a Folha pudesse colocar João Paulino em situação desconfortável. Se a relação de JP com a Folha foi conflituosa, principalmente na primeira gestão, ela não foi diferente com a Câmara Municipal.

Existem contradições nas afirmações dos dirigentes do jornal e dos repórteres quando o assunto é repasse de dinheiro por parte do poder público para divulgação. Dom Jaime nega. Joaquim Dutra diz que em alguns casos a Folha recebia por anúncios institucionais. A maior parte dos repórteres confirma.

Trata-se de um assunto nebuloso. É possível afirmar que nas mãos da Diocese a Folha não recebia do poder público porque ela era auto-sustentável. Já com os arrendatários, principalmente na fase final, nota-se um volume maior de matérias informando sobre os trabalhos que estavam sendo realizados na administração municipal.

A Folha não diferiu em nada da maioria dos jornais de hoje, que sobrevivem graças ao atrelamento ao poder, sacrificando a informação. “Você é pago para fazer matérias, não para vê-las publicadas” ou “Se você quer independência, monte um jornal para você”. Estas frases, até hoje ouvidas em redações, raramente eram dirigidas aos repórteres da Folha. Eles já sabiam de antemão o que deveria ser feito.
Dom Jaime fazia restrições aos militares depois de 1964, mas a Folha não deixava transparecer
(Reprodução)Edição de 1974: buracos são manchete
(Reprodução)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 55 – O MOÇO QUE AJUDAVA FERVER O CALDEIRÃO

Funcionário da TCCC (Transporte Coletivo Cidade Canção) e ator de teatro amador, José Antonio Moscardi era leitor assíduo da Folha de S. Paulo, o que lhe despertou o gosto pela escrita. Por volta de 1975, ele elaborou um texto e mostrou a Pedro Chagas Neto, então editor de O Diário. Pedro gostou e disse que ele levava jeito.

Foi o sinal verde para Moscardi entrar na carreira de repórter. Sua primeira chance, no entanto, não surgiu no O Diário, mas sim na Folha do Norte. Entrou no dia 1º de agosto de 1976 e saiu no dia 1º de agosto de 1978.

Nesses dois anos, escreveu de tudo. Começou redigindo textos comerciais. Depois, Fregadolli o colocou para fazer matérias policiais.

Até Moscardi se tornar um repórter da área política, fez várias matérias do dia a dia da polícia. Encerrado o aprendizado, Moscardi passou a fazer uma coluna política chamada Caldeirão.

“Era muita polêmica na época, muita polêmica. Era uma coisa que fervia mesmo e Jorge Fregadolli tinha um cuidado para não melindrar prefeito, nem vereador, diretores de autarquia. Era assinada por mim. A coluna deu muitos problemas. Eu e o Walter Poppi éramos os redatores. Eu cobria a Câmara de Vereadores, a antiga, que ficava na avenida Tiradentes.”

Além de sofrer censura quase diária de Fregadolli, Moscardi tinha que conviver com Silvio Iwata, cuja função era diretor de setor, um nome de fachada para poder acompanhar o trabalho da redação .

“O cargo de Silvio Iwata era muito curioso: chamava-se diretor de setor. Quer dizer, é uma faca sem lâmina que perdeu o cabo. O que é diretor de setor? É qualquer coisa aí. O Assis era o diretor de redação e o Fregadolli era o comercial. Eu não sei se o Iwata tinha esse papel de censor, mas ele era o fiel da balança, ele era o elo entre o clero e a direção da empresa. Eles se entendiam harmoniosamente.”

Em 1978, Moscardi foi para O Jornal de Maringá convidado por Verdelírio Barbosa. A coluna Caldeirão já havia sido extinta. Neste período, a situação na Folha era dramática. Logo começaria a disputa entre dom Jaime e a Editora 10 de Maio. Além de Assis, que também fazia uma coluna diária, a redação contava com Walter Poppi, Renato Diniz Dominici, que tinha o apelido de Chumbinho, os fotógrafos Jorge Tazima e João Mantovan, e os colunistas Jorge Fregadolli, com sua Vitrine, e Joel Cardoso, que assumira o social no lugar de Frank Silva.

A Folha do Norte teve para Moscardi um significado similar a de outros órgãos de comunicação em que trabalhou, entre eles a revista Pois É, da década de 80. Instado a comentar sobre algum fato realmente representativo na sua passagem de dois anos na Folha, Moscardi num grande esforço, se lembra de um furo de reportagem dado pela Folha.

Um furo não apenas nos jornais do Estado, mas também nos de circulação nacional, que teve a participação decisiva dos contatos de dom Jaime com o Vaticano.

“Quando o papa morreu em 1978, morreram dois papas naquele ano e nós tivemos três papas. Aí a Folha deu um furo naquela época. Então o jornal esgotou nas bancas naquele dia, na morte do papa. Nós conseguimos segurar o jornal até às 22 horas e fazer a notícia.”

O papa Paulo VI faleceu em 06/08/78. Seu sucessor foi João Paulo I, que faleceu em 28/09/78. João Paulo II assumiu em 16/10/78, ficando no comando da Igreja Católica até 02/04/05, data da sua morte.

Se a Folha não marcou tanto a vida profissional de Moscardi, pois lá ficou apenas dois anos, na pessoal ela foi decisiva. Foi na Folha que ele conheceu Shirlei, que trabalhava como secretária. Lá começaram a namorar e pouco tempo depois se casaram. Moscardi e Shirlei têm três filhos. Aos 54 anos, ele é dono de gráfica em Maringá.


Moscardi: emprego e casamento na Folha

(Foto: José Roberto Furlan)

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 54 - SANGUE NO ALTO, ORAÇÃO EMBAIXO

A Folha bateu forte em matérias policiais no período comandado pela Diocese. O jornal abria colunas com textos e fotos sobre assassinatos e acidentes. Bateu tão forte, que justamente no primeiro dia de 1963 saiu com esta manchete: “Monstro humano violentou e matou menina de oito anos”. Na dobra de baixo uma mensagem de dom Jaime intitulado “Deus vos abençoe.”

Há uma explicação coerente para o fato de a Folha abrir maior espaço para o setor policial no tempo em que era comandado pela Diocese para, gradativamente, ir diminuindo o destaque: em virtude do aumento da criminalidade na cidade. De tão comuns, as ocorrências com os ladrões de galinha, arraias miúdas do banditismo, perderam o espaço na capa e foram jogadas nas páginas internas. Hoje, não merecem nem rodapé nos jornais.

No início da década de 1960, Maringá tinha poucas ocorrências policiais. Por isso, quando acontecia um crime ou até mesmo um roubo, era justificável a máxima cobertura e o espaço correspondente nas páginas. Com o passar dos anos, o aumento da população e o inevitável crescimento da violência, as notícias policiais já não geravam tanto interesse, excetuando, logicamente, casos de grande comoção, que até hoje estão na memória do maringaense.

Naquele início da Folha havia uma salutar rivalidade com O Jornal nesta área. Um dos episódios de maior repercussão na crônica policial maringaense foi acompanhado por Messias Mendes: a morte do menino Clodimar Pedrosa Lô, de 16 anos, assassinado por dois policiais civis em 1967.

O acontecimento teve desdobramentos. O pai de Clodimar, Sebastião Pedrosa Lô, veio do Ceará e matou Atílio Fabri, o dono do hotel onde o garoto trabalhava. Fabri morreu na calçada, em frente ao seu estabelecimento, na avenida Brasil, quase na esquina com a avenida São Paulo.

Messias chegou ao local quando o corpo ainda estava estendido e colaborou na cobertura da reportagem e depois no julgamento de Sebastião Pedrosa Lô, que foi absolvido. O Caso Lô, como ficou conhecido, rendeu grandes reportagens na Folha e no O Jornal, que se rivalizavam no objetivo de informar sobre todos os detalhes.

Nos anos 1970, a Folha já não se preocupava em levar furos no setor policial. Quem comandava esta área na cidade, espirrando diariamente sangue na página, era O Jornal.

Pelo fato da Folha não dar grande importância ao noticiário policial, a chefia de redação colocava iniciantes no setor, os chamados “focas”. Quase todos os repórteres que trabalharam na Folha do Norte têm no seu histórico, matérias de polícia.

Justamente no dia 1º de Janeiro de 1963, uma manchete de arrepiar. Depois, a Folha parou de “espirrar” sangue
(Reprodução)

sábado, 7 de março de 2009

Capítulo 53 - OS JORNAIS DO INTERIOR DO PARANÁ EM 1975

BRAVA IMPRENSA DO INTERIOR

ARTIGO DE ARAMIS MILLARCH*
ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 21 DE NOVEMBRO DE 1975

Como está a imprensa paranaense ? Não a curitibana, mas a brava imprensa interiorana, que enfrenta dificuldades ainda maiores do que a dos jornais diários, das capitais.

Para ter dados exatos, o jornalista Luiz Fernando Queiroz, assessor de comunicação do Banco Regional de Desenvolvimento Econômico, viajou por todo o Estado, conversando com os homens que, nas mais diversas condições, fazem jornais diários, semanais e até quinzenais em suas comunidades, muitas vezes acumulando a direção, redação, diagramação, coleta de anúncios e, não raro, mesmo a impressão.

Do que pesquisou, Queiroz, tem material para um ensaio - mas, de momento ele apenas usa as informações de forma prática, dentro dos objetivos de comunicação do BRDE.

Foram pesquisados 55 jornais no Interior, 12 diários, um trissemanal, 35 semanais, cinco bissemanais e 2 quinzenais. Quarenta são publicados tipograficamente e quinze em off-set. Quarenta tem telefone e 15 não tem.

Afora Curitiba, as cidades que tem jornais diários são Cascavel ("Fronteira do Iguaçu"), Londrina ("Folha de Londrina" e "Panorama"), Maringá ("Folha do Norte do Paraná", "O Diário do Norte do Paraná" e "Jornal"), Paranaguá ("Diário do Comércio e "O Imperial"), Paranavaí ("Diário do Noroeste"), Ponta Grossa ("Diário dos Campos" e "Jornal da Manhã" e Umuarama (A Tribuna do Povo).

Há vários jornais que são impressos nas mesmas oficinas: "Rondon Comunicação" (Marechal Candido Rondon), "Mensageiro" (Medianeira) e "Pioneiro" (Palotina), são impressos na oficina de "A Voz do Oeste" de Toledo. "A Voz de Rolândia" é impresso na mesma oficina que faz o "Cambé Notícias" em Cambé.

Os dois semanários de Rio Negro são impressos na mesma oficina: "Tribuna da Fronteira" e "O Noticiário da Fronteira", na cidade catarinense de Mafra- "Jornal do Iapó" e "O Bravo" são impressos na mesma gráfica (Kugler) em Castro, enquanto "O Regional de Mandaguaçu" e "O Regional de Nova Esperança" tem a mesma editora.

Há também vários casos de nomes semelhantes: "O Imparcial", existe em Paranaguá e em Engenheiro Beltrão; "O Liberal", em Campo Largo e Jacarezinho; "Pioneiro" em Jacarezinho e Palotina. Já "O Regional" existe em Assis Chateaubriand, Nova Esperança, e Mandaguaçu.

De uma forma geral, todos os jornais do Interior enfrentam dificuldades mas nem por isso seus bravos editores desanimam. Ao contrário, muitos têm planos de tornar os semanários em diários e os quinzenários em semanários. "O Diário do Noroeste" de Paranavaí, apesar do nome, não está saindo diariamente, mas só três vezes por semana. É que suas oficinas incendiaram-se e há dificuldades operacionais.
*O curitibano Aramis Millarch (12/07/43-13/07/92) é um dos mais importantes jornalistas paranaenses, tendo escrito mais de 50 mil artigos entre 1957 e 1992; especializado em cinema e música, recebeu o prêmio Esso de Jornalismo. Acesse o site http://www.millarch.org/ (Tablóide Digital) e leia os artigos de Aramis MIllarch.
Charge: Tablóide Digital

sexta-feira, 6 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 52 - A FOLHA VAI PERDENDO O FÔLEGO, SAI ELPÍDIO SERRA, MAS FREGADOLLI AINDA ACREDITA

Nas edições seguintes, em julho de 1974, a Folha continuou a competir com O Diário. Mesmo com a crise financeira, havia uma motivação especial para “furar” o novo jornal da cidade. E em várias oportunidades isto aconteceu. Uma delas foi por pura sorte.

Elpídio havia assistido a uma reunião do prefeito Silvio Barros com o seu secretariado. Reunião de rotina que não chamou a atenção de ninguém da imprensa. Só Elpídio estava no Paço Municipal naquele dia.

O encontro seguia dentro da normalidade até que, surpreendentemente, Barros espinafrou seus secretários. O prefeito passou-lhes uma homérica descompostura. No dia seguinte, estava lá na Folha do Norte, em letras garrafais: “Silvio Barros: acima de mim, ninguém; abaixo, todos.”

Chega o mês de agosto e a Folha foi perdendo o fôlego. Em 1975, as dificuldades aumentaram, não apenas para a Folha, mas para O Jornal e o próprio O Diário. Joaquim Dutra e o grupo da Rádio Cultura adquiriram a TV Cultura.

Foi um período complicado para os jornais de Maringá. O Diário ficou em segundo plano para Dutra até que houve as transações que colocaram Frank Silva como um dos sócios.

Na Folha, o faturamento na venda de anúncios caiu drasticamente. Como conseqüência, a folha de pagamento começou a atrasar. Nesta época, houve uma grande rotatividade de profissionais.

Elpídio deixou o jornal naquele ano. Foi abrir o Jornal da Cocamar. Para ele, a Folha do Norte estava no fim e não adiantava lutar contra a maré. Jorge Fregadolli ainda acreditava. Ainda hoje, ele é o único a dizer que o jornal não estava em crise, que o crescimento do O Diário se deve ao fechamento da Folha.

Para Fregadolli, com a estrutura que a Folha possuía, seria possível ainda continuar liderando por muitos anos. Ele faz pé firme contra os que afirmam que o jornal do bispo começou a agonizar depois do surgimento do O Diário. Fregadolli contesta todos os fatos descritos pelos que estiveram diretamente ligados ao jornal depois da saída de Dutra.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 51 – PURPUR VERSUS RIVELINO, FOLHA DO NORTE VERSUS O DIÁRIO

A edição diária era feita a toque de caixa, mas as que iam sendo guardadas mereciam todo o esmero dos redatores. No dia 29, um sábado, O Diário veio com a manchete “Brasil e Argentina, arte contra garra".

O time do Brasil disputava a Copa do Mundo da Alemanha e no domingo jogaria com a Argentina. A Folha não circulou naquele sábado. Deixou para domingo o material que havia sido arquivado.

O grande assunto naqueles meses em Maringá era a sucessão do reitor na UEM (Universidade Estadual de Maringá). Não havia eleição para o cargo. Quem nomeava era o governador. José Carlos Cal Garcia queria continuar no cargo, mas várias lideranças, de dentro e de fora da universidade, se empenhavam pela sua saída. Assis estivera dias antes no Palácio do Iguaçu e ficara sabendo que Rodolfo Purpur era o nome mais forte para assumir.

Rubens Ávila, o editor do O Diário, amigo de Purpur, sabia da notícia, mas temia colocar uma manchete daquelas. E se o governador, Emílio Gomes, na época, voltasse atrás? Como ficaria o jornal recém inaugurado?

Prudentemente, Ávila se preocupou em dar notícias da Seleção Brasileira. A manchete atrevida foi dada pela Folha: “Purpur: o reitor”. Assis, sempre tão ponderado, desta vez, com o apoio da redação, fugiu de suas características. Diante da situação, Antonio Augusto de Assis arriscou.

“A Folha precisava naquele dia de uma manchete que marcasse, né? Não era para pôr. O próprio Purpur pediu para não dar a notícia para não atrapalhar. Eu disse para o Elpídio: -Vamos esquecer este bom-mocismo nosso e vamos dar esta manchete. Por sorte nossa confirmaram o nome de Rodolfo Purpur. O Rubens Ávila não acreditava que a gente fosse ousado de pôr a notícia antes da hora. Ele levou o furo porque foi cavalheiro com o Purpur. Ele empenhou a palavra dele que não ia dar e não deu. E nós não quisemos saber disso.”

Elpídio comenta o fato com grande satisfação. Para ele, era uma prova de que a Folha não estava morta e tinha condições de brigar.

“A polêmica naquela época não era a questão do Rivelino, era a questão da universidade. A edição da Folha esgotou e nós circulamos com edição extra na parte da tarde. Resultado: no primeiro dia o Joaquim Dutra brigou com o Rubens Ávila. E nós continuamos.”

Na capa daquela edição de domingo, além da manchete de Purpur, com direito a foto do futuro reitor, havia informações sobre o jogo do Brasil com a Argentina, uma chamada para a entrevista do juiz da Vara de Menores, Francisco de Paula Xavier Neto, inaugurando uma sessão no jornal que se chamava Mesa Redonda.

E uma reportagem especial sobre o Cemitério Municipal, onde familiares enterravam seus entes queridos com dinheiro e jóias. E, para não variar, um longo artigo de dom Jaime na primeira coluna, com um título, que, pelas ironias da vida ou não, quem sabe uma fina ironia do bispo, associava a Igreja Católica à Folha do Norte: “A Igreja não morre”.
A edição da Folha do Norte anunciando Rodolfo Purpur como reitor da UEM
(Reprodução)
A primeira edição de O Diário: destaque para o Brasil na Copa de 74
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Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 50 - JÁ QUE NÃO QUISERAM ESGOTAR TODO SANGUE, QUE ESTE RESTO SEJA O SUFICIENTE PARA MOSTRAR FORÇA

Com o surgimento do O Diário, a redação da Folha quis ser o que O Jornal vinha sendo: o segundo que incomoda. Mesmo com a modernidade do concorrente, queria continuar na preferência do mairngaense. Para alcançar esse objetivo era preciso publicar as melhores matérias. Obrigatoriamente, era preciso mudar.

Os fatores contrários à Folha eram vários, além do O Diário. Ter melhores matérias significava mexer com as estruturas. Na década de 1970, dom Jaime já não conjugava o verbo desafiar com tanta desenvoltura. A sua Diocese já estava estruturada e Maringá e região experimentavam um franco desenvolvimento.

Já havia uma disseminação de órgãos de imprensa. A Folha de Londrina passou a ter boa penetração em Maringá e região, seguida do Estado do Paraná e Gazeta do Povo. E a televisão chegou com força suficiente para ganhar, logo de cara, a preferência da população.

A partir de agora, a Folha passa a ser mais um jornal. Vai perder o jogo dentro de casa. Havia a conscientização de que a partir daquele momento o primo pobre seria a Folha do Norte do Paraná.

Faltando dez dias para o lançamento do O Diário, Assis, Elpídio e Poppi se reuniram na redação para elaborar um plano de modo a informar à cidade e ao concorrente que a Folha não estava morta.

Já que não quiseram esgotar todo sangue, que este resto seja o suficiente para mostrar força, pensaram. De 15 a 28 de junho de 1974 qualquer leitor, por menos observador que fosse, diria que a Folha estava dando os últimos suspiros.

Colunas social e esportiva já não estavam sendo publicadas. Nestes dias só havia a “tesoura press”, jargão que consiste em tirar textos completos de outras publicações. Notícias velhas ou requentadas eram comuns.

A nova direção da Folha queria passar a todos, principalmente ao O Diário, que estava agonizando. E conseguiu. Numa jogada de mestre da redação, foi adotada a seguinte estratégia: fazer um jornal até o dia 28 sem qualquer preocupação e no dia 29, no lançamento do O Diário, mostrar a cara da nova Folha do Norte do Paraná.

O plano era o de fazer pelo menos 20 edições naqueles dias, armazená-las e soltá-las a partir do dia 29. Edições com reportagens de peso, nova diagramação e novo design.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 49 – A DESOLAÇÃO SE INSTALA NA FOLHA DO NORTE

Joaquim Dutra começou formar a equipe do O Diário seis meses antes de lançar a primeira edição. Boa parte dos profissionais pertencia à Folha.

Os funcionários eram contratados com um salário bem superior ao que ganhavam. Frank Silva, Nelson Jaca Pupim, Ismael Serra e o chefe das oficinas, Gumercindo Carniel, estavam acertados meses antes de começarem a trabalhar, mas Dutra pediu sigilo e ninguém disse nada.

Assis e Wilson Serra também foram convidados, mas recusaram. Elpídio Serra lembra que a Folha perdeu quase todo o time da redação.

“Ficou na redação o Assis, só um redator, eu e o Poppi. Não convidaram a gente também talvez para não esgotar o último sangue. O meu irmão Serrinha foi convidado e nem em casa comentou nada. O Ismael foi. Nós ficamos sem gente para a oficina, sem gente para distribuir e entregar jornal, sem cobrador, repórter, revisor.”

A debandada aconteceu no início de junho de 1974. O Diário seria lançado no dia 29 daquele mês, tendo Rubens Ávila, falecido na década de 1990, como chefe de redação. Escritórios, redação e parque gráfico funcionariam num prédio da avenida Tuiuti, que já não existe mais. No local, foi construída a Rodoviária. Depois da Tuiuti, O Diário foi para a avenida Mauá, nº 1988, onde está até hoje.

Para um jornal que liderava a preferência na cidade e na região, o golpe foi duro. Dom Jaime não tinha a intenção de tomar à frente, não pensava em trocar os equipamentos agora superados. A Diocese queria o dinheiro do arrendamento para continuar dando seqüência às obras do Seminário Diocesano e mais nada.

Fregadolli tinha vontade, mas não condições de modernizar o parque gráfico. Além do mais, o jornal não era dele. Assis, o outro sócio, não era do ramo comercial. Negócios não eram com ele. O que ele sempre quis foi escrever, tanto que em 1977 deixou tudo nas mãos de Fregadolli.

Dutra queria fazer do O Diário o número 1. Sabia que sua saída acarretaria prejuízos à Folha. Se colocasse um concorrente, então, o jornal do bispo agonizaria, pois sabia que para dom Jaime o jornal já não era tão importante e, portanto, não o modernizaria.

O sentimento na redação da Folha nos meados de 1974 era de desolação. Na cidade, os comentários eram de que a Folha pouco agüentaria. O Diário vinha com impressora off-set, uma impressão de alta resolução, remetendo para o tempo das cavernas a rotativa do jornal do bispo. As oficinas, que eram o orgulho da Folha, local em que os visitantes faziam parada obrigatória, com direito a fotos, passaram a ser o símbolo do obsoleto.

Naquele início de junho, os jornalistas da Folha conjeturavam sobre o que fazer para, pelo menos, incomodar o novo jornal da cidade. Maringá completa 27 anos. Logo depois, começaria a debandada de funcionários da Folha para o novo jornal da cidade
(Reprodução)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 48 – A FOLHA DO NORTE NA ERA PÓS-DUTRA

Após a saída de Joaquim Dutra, em 1973, constava no expediente, além de Editora Folha do Norte do Paraná S/A, a Editora Gráfica 10 de Maio Ltda e os nomes de Silvio Iwata e A. A. de Assis na gerência geral, Jorge Fregadolli na gerência comercial, Ivanbergue K. Pereira como gerente de publicidade e Elpídio Serra como redator-chefe.

E, como não poderia faltar, logo abaixo da razão social, dom Jaime Luiz Coelho com a pomposa, mas verdadeira função de diretor-fundador-presidente. Iwata era o homem de confiança do bispo no jornal.

Fregadolli já trabalhava na Folha, sabia tudo do jornal, desde a linha editorial até os setores comercial e administrativo. Havia sido um dos melhores vendedores, mas tinha com o bispo um relacionamento cerimonioso.

Bem diferente de Silvio Iwata, que entrava na casa de dom Jaime pela porta da cozinha e quantas vezes quisesse. Até hoje a amizade entre dom Jaime e o imobiliarista e cursilhista é grande. Iwata tem pelo arcebispo grande respeito e admiração.

Dom Jaime não tinha intenções de encerrar o contrato com Joaquim Dutra. O jornal ia bem e raramente o arrendatário o deixava em maus lençóis por publicações ofensivas a pessoas ou instituições.

Até por índole, afinada com o diretor-fundador-presidente, Dutra sabia até onde poderia ir e respeitava a linha imposta pela Diocese. Mas a saída, se não abrupta, mas com alguma surpresa, tinha levado o bispo a se preocupar sobre o destino do jornal.

Já era fato consumado que a Diocese não iria mais administrar a Folha. Os dissabores e prejuízos já haviam sido grandes. Por isso, Dom Jaime apostou num grupo já conhecido, fazendo questão de colocar seu fiel escudeiro Iwata na direção.

Com o novo grupo, a Folha não teve grandes alterações na sua linha editorial. Manteve a estrutura deixada por Dutra, mas os tempos eram outros. Mesmo sob a ditadura de Geisel, a imprensa já não estava tão sufocada.

Os grandes jornais já começavam a dar os primeiros sinais de liberdade e, naturalmente, havia reflexos no resto do País. Na redação da Folha, os repórteres queriam bem mais do que as coberturas diárias da polícia, do esporte, da prefeitura e da Câmara de Vereadores.

Além da própria censura imposta no País, havia a auto-censura da Folha. Dom Jaime continuava com mão de ferro, quando se visualizava polêmica. Os jornalistas que trabalharam na Folha no período pós-Dutra confirmam esta manutenção da censura inaugurada junto com o jornal em 1962.

O Jornal de Maringá, relegado a segundo plano com o surgimento da Folha, adotara uma postura política. Mais para a política partidária do que ideológica. Mas, não deixava de ter uma opinião.

Na Folha, excluindo os artigos de dom Jaime ou um ou outro surto na década de 1960, reinava um espírito de aceitação. O País estava sob o regime militar e o jornal da Igreja não podia polemizar com ninguém. Era esta a ordem subliminar e fim de papo.

Fazia-se um ótimo trabalho em diversas editorias, criticava-se a administração municipal, mas não havia uma abrangência nestas críticas. Os fatos isolados predominavam com matérias sensacionalistas quando um político fazia uma declaração contra um adversário. Não havia uma análise mais aprofundada.

Contudo, a Folha seguia com prestígio. O jornal havia se incorporado à vida do maringaense e do leitor da região. As mudanças na diretoria e eventuais alterações na linha do jornal não incomodavam. O jornal do bispo era a prata da casa, sujeito a críticas, mas o carinho e a estima eram bem maiores.

A Folha acompanhava a transição da Maringá que pôs o pé no progresso no início dos anos de 1960 e nunca mais parou. Maringá não tinha concorrentes, se consolidando como pólo da região. A Folha do Norte logo teria.

A Folha do Norte na década de 1970: sem a ingerência da Diocese, mas dom Jaime continuava a dar as cartas
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O Campeonato Maringaense de Peladas movimentava o esporte da cidade; era uma competição de futebol suíço promovida pela Folha do Norte e Prefeitura, que envolvia clubes, empresas e estabelecimentos de ensino
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quarta-feira, 4 de março de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 47 - A NUCA DO PREFEITO

Na posse de Silvio Barros como prefeito de Maringá, em fevereiro de 1973, não se sabe se com a aquiescência de Joaquim Dutra, foi tramada na redação da Folha do Norte uma forma de desprestigiar o prefeito eleito.

O objetivo era divulgar a posse, mas fazer de tudo para que Silvio aparecesse o mínimo possível. Dois repórteres, um deles Ismael Serra, simularam um abraço, que certamente deveria acontecer entre Adriano Valente, que estava deixando o cargo, e o novo prefeito.

Moracy Jacques, o fotógrafo, fez a foto. Revelada, analisaram que Moracy deveria se posicionar sempre em frente de Adriano. Assim foi feito. No Paço Municipal, na hora do abraço, lá estava o fotógrafo da Folha captando o sorriso de Adriano e a nuca de Silvio.

O plano seguinte era prestigiar em primeiro lugar a posse dos vereadores. No dia seguinte, o leitor da Folha foi surpreendido com a manchete: “Assume a Nova Câmara”.E, na dobra de baixo, o abraço sorridente de Adriano a um senhor, que, pelas circunstâncias, só poderia ser Silvio Barros.

Pela primeira e única vez na história da imprensa de Maringá – e vai saber se não é nacional esse fato -, o poder Legislativo municipal teve mais destaque na capa de um jornal do que o Executivo em reportagens sobre posse de eleitos.

A foto em que não aparece o rosto do eleito. Apenas Adriano, que deixava o cargo. Na manchete, a posse na Câmara Municipal
(Reprodução)
Silvio Barros, prefeito de Maringá de 1973 a 1976, e dom Jaime
(Reprodução - foto Museu Diocesano)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 46 - MUITAS NOTÍCIAS, POUCAS OPINIÕES

Os tempos eram outros em 1973. O País vivia sob o regime militar, mas as turbulências políticas não encontravam ecos tão ressonantes em Maringá como há dez anos. A cara da Folha do Norte na década anterior era anticomunista e todo o espírito contrário à ideologia marxista impregnava suas páginas.

Já nos anos 1970, as maiores preocupações eram com a política local. Dom Jaime havia arrendado o jornal para Joaquim Dutra, mas sua onipresença podia ser sentida. Os artigos católicos, escritos pelo bispo e pelos padres da Diocese continuavam a ocupar grandes espaços.

O comunismo já não era tão execrado porque o perigo estava praticamente afastado. A ditadura estava se encarregando de suprimir todos os focos e o próprio dom Jaime havia deixado de apoiar o golpe militar. Ele não escrevia sobre isso, mas, em muitas oportunidades transformava o púlpito em tribuna para criticar os governantes, para clamar por justiça social.

Suas querelas eram principalmente com o governo do Estado. Dom Jaime reivindicava recursos para Maringá e região. O governo do Estado recolhia os impostos e nada retornava em termos de melhorias. Os tempos da Frente Agrária Paranaense haviam ficado para trás, assim como seus embates com as Ligas Camponesas de Francisco Julião.

A Folha do Norte era um jornal quase meramente noticioso. Não tomava partido em questões relevantes. Algumas rusgas com a Prefeitura e a Câmara Municipal existiam, mas sem que isso se revelasse uma tendência.

Esta opinião não é compartilhada por grande parte dos que lá trabalharam, mas num comparativo com O Jornal de Maringá, todos concordam que a defesa de uma posição, ou de um nome, não era das maiores na história do jornal, excetuando o ímpeto de dom Jaime, no início, no combate ao comunismo.

Com João Paulino, as relações tinham sido difíceis, mas com Luiz Moreira de Carvalho e Adriano Valente, imperava a pasmaceira. Os dois últimos prefeitos tinham sido parceiros de dom Jaime na construção da Catedral.

Carvalho e Valente, através do prestígio do cargo, tinham colaborado sobremaneira para construir o gigante monumento. Portanto, em 1973, a Folha caminhava sem grandes sobressaltos. Ninguém imaginava, no entanto, que no ano seguinte o jornal viria a sofrer um duro golpe.

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 45 - FOLHA DO NORTE INAUGURA “A BUNDA”

No começo dos anos 1970, Walter Poppi fez um artigo para a página cultural de domingo, em que falava sobre as brincadeiras de criança. Lá pelas tantas do texto, Poppi ousou colocar a seguinte frase: “A gente pulava com a bunda na água, batia a bunda na água e saía pulando.”

Falar “bunda” naquela época era pornografia, escrever a palavra um insulto, e escrever no jornal do bispo, além de pornografia e insulto, era demissão na certa. A coluna foi entregue para Elpídio. O chefe das oficinas Gumercindo Carniel avisou Poppi que o artigo não iria sair.

O repórter pegou o texto e o levou ao linotipista. E na edição de domingo, saiu não apenas uma bunda, mas duas. Estava lançado o primeiro palavrão no jornal do bispo. Elpídio, incontinente, pediu a cabeça de Poppi. Já Assis, adotou o estilo Pilatos, lavou as mãos e deixou tudo com dom Jaime. Se o bispo ficasse quieto, Poppi continuaria.

Naquela semana, dom Jaime visitou o jornal. Corajoso, o repórter foi perguntar o que ele tinha achado do artigo. Para a surpresa geral, o bispo até elogiou: - Li, gostei muito. Está muito boa esta página. - Tem uma pornografia aí, o senhor não vai falar nada? - Não, mas se tem é o sentido da palavra. O sentido da palavra não tem nada demais. Está no contexto.”

Esta e outras histórias estão no contexto, estão no universo de um jornal que veio para não ficar, para permanecer só por duas décadas. mas que deixou marcas e revelou o espírito dos seus personagens.

terça-feira, 3 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 44 - MINI-CHICO E DANGER

O advogado Walter Poppi é um emérito contador de histórias. Se o assunto é Folha do Norte, então, ele tem um baú abarrotado. Sobre Mini-Chico e Danger, Poppi conta episódios sobre o início de carreira dos dois.

Francisco de Oliveira, prêmio Esso de Jornalismo, que já na década de 1980 escrevia sobre corrupção no governo Federal, sempre foi um apaixonado por agricultura. No início da década de 1970 era foca na redação da Folha do Norte.

Conhecido por Mini-Chico, culpa da estatura, ele cismou de fazer uma reportagem sobre um tema específico da agricultura. Elpídio Serra, que antes de ir trabalhar na Cocamar dizia que ninguém se interessava em ler matéria sobre agricultura, desancou o jovem e promissor repórter: “Ninguém lê esta porcaria”, afirmou raivoso.

Solidário com Mini-Chico, Poppi o autorizou a fazer a matéria. Matéria pronta, lá foi o repórter entregá-la ao editor-chefe. Já mostrando seu pendor detalhista, o foca disparou no título: “A crise da beterraba”.

Elpídio subiu pelas paredes, esbravejou e se recusou a publicar. Mas Poppi novamente interveio, ponderou, falou tanto da importância da raiz, seus nutrientes e os benefícios para a saúde que a matéria acabou saindo. Mini-Chico se tornou um especialista em agricultura, tendo seu nome reconhecido nacionalmente.

Na redação da Folha do Norte em que Mini-Chico trabalhou, um outro personagem marcou seu nome, ou melhor, seu apelido na história da imprensa maringaense.

Em 1972, o fotógrafo Aparecido Antonio, novato na profissão, foi escalado para fazer uma foto da fachada de uma das grandes empresas atacadistas de Maringá na época. A Dias Martins, localizada na avenida Paraná, que estava anunciando no caderno comemorativo do Jubileu de Prata de Maringá.

Preparado para fazer a foto surge um motorista nervoso querendo estacionar no local em que ele estava. Do bate-boca para as vias de fato foi um instante. Na volta para a redação, todos olharam com respeito para o até então pacato Aparecido Antonio.

O diretor Fregadolli olhou para o moço, dizendo para o pessoal da redação que ele era um perigo. Então, o diretor de publicidade Ivanbergue K. Pereira tascou-lhe o apelido: “Se ele é um perigo, então ele é Danger.” Pronto, estava feita a troca.

A partir daquele dia, nunca mais ele foi chamado pelo nome de batismo. Só pela tradução em inglês de “perigo”.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 43 - O CÉU E A TERRA PASSARÃO

Durante toda a existência da Folha, salvo raras exceções, dom Jaime publicou artigos aos domingos. E na capa. Ele abordava qualquer assunto, como faz até hoje no espaço que lhe é concedido no O Diário do Norte do Paraná, também aos domingos. Naquela época, dom Jaime tinha o costume de colocar um salmo logo após o título do artigo.

A história a seguir foi contada por Walter Poppi, que trabalhou na Folha do Norte de 1970 até 1979, no último ano do jornal. No início dos anos 1970, o bispo enviou ao jornal um artigo para publicação com a correspondente citação bíblica. O deste dia era “O céu e a terra passarão, mas Tu não passarás.” Da redação para o linotipista, daí para a impressão e o jornal ganhou as ruas.

Por um erro monumental do linotipista ou capricho do destino, o leitor da Folha do Norte daquele domingo teve uma surpresa daquelas e não teve como não cair na gargalhada ao ler o texto abaixo do título: “O cú e a terra passarão, mas Tu não passarás.” Ocorreu que a letra “e” não entrou na linotipo e o acento agudo foi parar no “u”. A gozação foi geral. Todos ficaram imaginando qual seria a reação do bispo.

Esta é considerada a maior gafe da história da Folha. Dom Jaime ficou bastante chateado nos dias seguintes, para dizer o mínimo, mas não promoveu nenhuma retaliação. Ninguém foi despedido. Todo o pessoal do jornal se esforçou e foi convincente nas explicações. Ele acabou entendendo. Segundo Poppi, o bispo levou na esportiva. Afinal, religioso que é, sabe que errar é humano.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 42 - OS CENSORES E O DESENCANTO DE DOM JAIME COM A REVOLUÇÃO DE 64

Os jornalistas sofriam censuras das mais diversas na Folha do Norte. Começava pelo próprio Assis, depois era dom Jaime. E, para completar, a Polícia Federal. O agente Guilherme dava plantão semanal na Folha. No fim, depois de tantas visitas, acabou ficando amigo do pessoal da redação.

A ação da Polícia Federal era tão intensa que até matérias policiais eram censuradas. Num daqueles anos de mordaça uma edição deixou de circular porque foi publicada uma reportagem de um indigente que havia matado um outro indigente. Os policiais não concordaram com a maneira com que o repórter Antonio Calegari havia descrito o assassinato.

Toda Sexta-feira Santa uma grande procissão tomava conta das ruas próximas à praça da igreja onde hoje é a Catedral. Dom Jaime na frente e dezenas de padres das paróquias na seqüência. No final da década de 1960, o bispo estava desencantado com os rumos da Revolução, como era chamado o Golpe Militar de 31 de março de 1964.

Nesta época, ele subia em um caminhão transformado em palanque e descarregava toda a sua ira na ditadura militar, nos adversários políticos e em quem mais quisesse. Estes discursos eram acompanhados por agentes da Polícia Federal, mas o bispo nunca foi molestado.

Quem sofria era Assis, que chegava a mandar algum de seus repórteres para gravar o pronunciamento. No sábado de manhã, ao ouvir as palavras contundentes de dom Jaime, o editor se desesperava. “Meu Deus do céu!!” “Calma, Assis, isto é só uma gravação”, diziam. Evidentemente, estes discursos nunca foram publicados.

Homem na lua em 1969: artigo de dom Jaime sobre o assunto
(Reprodução)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 41 - ASSIS PRESO PELA POLÍCIA DO EXÉRCITO: DOM JAIME APELA PARA PAULO PIMENTEL

São histórias dentro de uma história. São fragmentos que ajudam compor e compreender um período de quase duas décadas. Personagens ricos em fatos importantes, curiosos ou do cotidiano.

A Folha do Norte deu espaço para que centenas de pessoas pudessem, com brilho ou modestamente, se inscrever na história de Maringá.

Histórias como a que Assis entrou inadvertidamente, no final dos anos 1960, quando um amigo de Niterói veio-lhe visitar na Folha do Norte. Assis deu-lhe seu cartão de visitas e ainda arranjou-lhe alguns trocados.

Poucos dias depois, o diretor de redação da Folha foi detido, levado para Apucarana e depois para a Polícia do Exército, em Curitiba. Ocorre que o amigo de Niterói era um subversivo e quando preso, em Cascavel, tinha entre seus documentos o cartão de Assis.

Muita gente interferiu para tirar o jornalista da enrascada. Dom Jaime apelou até para o governador Paulo Pimentel. Quem conhece o pacato Assis sabe que jamais ele poderia ser suspeito de subversão.

Livro: "O Jornal do Bispo" - Cápítulo 40 - DOM JAIME, JOÃO PAULINO E FRANCISCO JULIÃO

Faz muito tempo, mas dom Jaime não esquece detalhes de fatos marcantes da vida política maringaense, fatos já relatados por historiadores da cidade, ocorridos antes da fundação da Folha do Norte.

Para explicar o porquê da marcação cerrada que o jornal fazia sobre o então prefeito João Paulino, o arcebispo busca uma história de 1961. Uma história que também mostra seu ânimo em alta no combate ao comunismo e a seus lídres:

“Justamente quando veio o Francisco Julião, naquele confronto ali na praça da Catedral, não tinha a Catedral nova ainda, tinha só o hotel do lado, o Bandeirantes Hotel. E nós tivemos então, lá na frente do palanque, o nosso comício. Pouco adiante havia o comício na praça Napoleão, do Francisco Julião, onde estava o João Paulino, o Haroldo Leon Peres, Túlio Vargas, estava daquele lado lá. Eles vieram pedir se o Francisco Julião podia falar comigo. De jeito nenhum! Ele não apareça aqui que será apedrejado. E quando acabou o comício deles, eles vieram, então houve um choque. O João Paulino, com o doutor Sebastião Pimentel levaram e esconderam o Julião. Aí, a nossa turma lá, estava todo mundo revoltado, foram ao Grande Hotel, quebraram vidros. Depois soubemos que eles esconderam Julião na casa do doutor Pimentel. Mas queriam pegá-lo. Mas porque o doutor João Paulino fez aquilo, porque ele não fez, isso é ele que sabe. Mas, houve esse confronto.”


Luta ferrenha contra o comunismo
(Reprodução)
Apoio irrestrito ao golpe militar de 31 de março de 1964
(Reprodução)No rodapé da capa, a Folha do Norte informa sobre o encontro de dom Jaime com o presidente Médici
(Reprodução)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 39 – "A GENTE ADORAVA FAZER AQUILO"

Um dos responsáveis pelo noticiário local da Folha do Norte, de 1970 a 1971, era o francês Henri Jean Viana, nascido em Paris, em 1947, e que havia chegado com a família em Maringá em meados da década de 1950.

O óbvio apelido de Francês foi colocado pelos seus colegas de rádio em 1964, quando entrou na Rádio Atalaia como auxiliar de escritório, cargo em que permaneceu pouco tempo. Passou a técnico de som e depois a noticiarista.

Da Atalaia, Francês foi para O Jornal de Maringá. Em 1968, A. A. de Assis o chamou para trabalhar na Folha do Norte. Recusou porque o salário era o mesmo que ganhava no O Jornal.

“E eu disse: - Mas, quanto?” Ele falou: - 200. Eu disse: - Não, 200 eu ganho aqui no O Jornal. Aí, ele disse: - Mas aqui você vai trabalhar na Folha do Norte! Aí, eu falei: - Mas isso não me satisfaz, entendeu? Naquela época, jornalismo era um negócio mais boêmio, uma coisa bem mais desprendida de qualquer organização. Não existia essa preocupação de hoje. Pelo menos que eu visse, não. A cidade era pequena, a Folha era um jornal pioneiro, tinha que ter moral.”

Francês acabou aceitando o convite dois anos depois. Comparando o trabalho que realizava há 40 anos com o de hoje, ele vê muita diferença.

“Era muito desorganizado. Não tinha pauteiro, não tinha diagramador, quem diagramava era o próprio repórter. Não tinha revisor. O revisor só comparava o que estava escrito na lauda com o que estava escrito lá.”

Seus companheiros de redação, na época, eram o clã dos Serra, como ele chama os irmãos Elpídio e Ismael, que se revezavam na chefia do setor, e Wilson, A. A. de Assis, Frank Silva, Walter Poppi e Valdir Pinheiro.

Francês não gosta de recordar aquele tempo. Não porque algo tenha lhe marcado de forma triste ou alguma contrariedade. Ele é um homem prático, que prima pela racionalidade, entendendo que o importante é o que está acontecendo.

No intervalo entre a Folha do Norte e O Diário, trabalhou na TV Tibagi, afiliada do SBT. Intimamente ligado à política da cidade, escreveu por 14 anos a coluna DNP, na página 2 de O Diário. Para Francês, o jornalista perdeu a criatividade com o passar dos anos.

“Hoje em dia está mais engessado, com faculdade. Naquele tempo eu via muita gente escrever sobre textos abstratos. Chegava no Dia do Jornalista, o sujeito escrevia um texto sobre o que ele achava do jornalista, dava a opinião dele. O jornal tinha orelhas, lugar em que vão dois textos. Eu me lembro até hoje de um texto que o Rubens Ávila, escreveu sobre o domingo: - Hoje é dia de colocar um tênis folgado, um calção, dar uma volta na cidade... Então, falta esse o componente.”

Francês é considerado por grande parte da imprensa o melhor pauteiro da cidade, função que exerceu no O Diário de 2001 a 2004. Entre 1997 e 2000, ele esteve no comando da Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Maringá, retornando em 2005, onde ficou até final de 2006.

O espírito crítico de Francês, hoje chefe da Assessoria de Comunicação da Câmara Municipal de Maringá, cargo que ocupa desde 2007, avança até à profissão de jornalista. Lembra dos seus companheiros da Folha do Norte, que exercitavam a profissão a qualquer hora, eram os “fuçadores”, amavam aquilo que faziam. Era a paixão em estado bruto.

“Você era jornalista porque tinha jeito para a coisa. Você tinha aquela curiosidade. O composto principal de todo o repórter é ser muito curioso, um cara de mente bastante aberta. Hoje em dia, não. O cara entra na faculdade, mas eu acho que o ideal é o cara ter a queda para o jornalismo e ao mesmo tempo fazer a parte técnica. Você era jornalista porque achava que tinha de ser daquele jeito. Hoje, não. Você é jornalista e faz, sabendo que a técnica é aquela. Naquele tempo, todo mundo fazia um pouco de tudo, todo mundo se interessava. Hoje, você trabalha cinco horas. Naquele tempo eu entrava no jornal às 8 da manhã e saía às 10 e meia da noite. A gente adorava fazer aquilo, gostava. Não tinha o sindicato para te defender.”



Henri Jean Viana, o Francês: "Naquela época, jornalismo era um negócio mais boêmio, uma coisa bem mais desprendida de qualquer organização. Não existia essa preocupação de hoje"
(Foto: Antonio Roberto de Paula)

domingo, 1 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 38 – AMOR À CAMISA

Durante nove anos, Walter Poppi escreveu na Folha do Norte. De 1970 até o jornal cerrar as portas em 1979. Poppi começou precocemente. Aos 14 anos, em 1962, no O Jornal de Maringá, estava escrevendo as primeiras laudas como auxiliar de Antonio Calegari, o Foquinha, considerado um dos melhores repórteres policiais da época.

Antes de ir para a Folha, Poppi trabalhou quatro anos na Prosdócimo, empresa de móveis e eletrodomésticos que faliu na década de 1980. Ele sempre gostou do jornalismo, mas procurou se formar em direito na UEM (Universidade Estadual de Maringá) na década de 1970 enquanto trabalhava na Folha.

A profissão de jornalista não era levada tão a sério como hoje. A maioria dos que militavam na imprensa analisava que era necessário obter um canudo, mas não eram todos os que estavam dispostos a encarar uma sala de aula.

Alguns, como Poppi, trataram de “garantir o futuro”. Casos também de Elpídio Serra e Messias Mendes, que viriam a se formar em geografia e história, respectivamente. Cursos de jornalismo na época só nas capitais. Era o tempo em que o pai dizia que o filho tinha que ser médico, advogado, engenheiro ou passar no concurso do Banco do Brasil.

Na troca de arrendatário, em 1973, e a inauguração do O Diário, no ano seguinte, a redação da Folha ficou bastante desfalcada. Saíram o fotógrafo Nelson Jaca Pupim, Valdir Pinheiro e Henri Jean Viana, o Francês, e ainda o colunista social Frank Silva.

Poppi havia entrado para ajudar Valdir no esporte, mas com o tempo passou a fazer o noticiário local, policial e o que viesse pela frente. Seus companheiros de redação depois da debandada para O Diário foram Mini-Chico, Manoel Cabral e o fotógrafo Danger. Chefiando a redação estava Elpídio Serra e Assis no comando.

A linha editorial da Folha não sofreu alterações. Assis continuava como diretor de redação e o espírito censor de dom Jaime estava sempre presente. Hoje, Poppi analisa que em muitas questões polêmicas da cidade a redação não fazia matérias em consideração a Assis. Se fossem feitas, Assis acabaria publicando, mas se indisporia com dom Jaime, como volta e meia acontecia.

Poppi ressalta, no entanto, que a Maringá dos anos 1970 era bem diferente de hoje. Não era todo o dia que se podia levantar uma boa pauta.

A gente trabalhava em função do Assis. Ele era um pai para nós e não um patrão. Um sujeito que todos gostam, né? Não tem quem não goste. Então, por amor ao Assis, a gente não apela. “- Não vamos sacanear o Assis, não vamos apelar”. E aquela época era um pouco diferente de hoje. Os problemas naquela época eram infinitamente menores do que são hoje. Nem droga tinha. Os problemas da polícia não eram a metade do que são hoje. Era tudo crime caseiro e de vez em quando tinha um assalto a banco.”

Todos os relatos dos repórteres da Folha convergem para um ponto: o desprendimento para fazer o trabalho e a preocupação com a repercussão das matérias publicadas. Não que isto seja uma prerrogativa apenas do jornalista da década de 1960, caracterizado quase sempre como bicho-grilo, boêmio que fazia um trabalho marginal.

A alegria e a paixão para fazer um texto que repercutisse moviam estes homens, a tal ponto que o tempo em que se dedicavam ao trabalho não era levado em conta. Poppi foi um destes homens.

“Você fazia por amor à camisa. Eu chegava de manhã e ficava até o meio-dia. Eu almoçava, voltava e aí eu ia pro pau fazer a pauta, fazer a página. Eu estudava à noite na UEM. Hoje, o jornalista só faz o turno dele, né? Cinco horas e ele faz o turno dele e vai embora, não quer nem saber. Nós, não, a gente vivia dentro do jornal. Eu mesmo, não largo nunca desta coisa de escrever. Surgiu uma brechinha e eu estou lá fazendo porque está no sangue.”
Mini-Chico, Nelson Jaca Pupin, Walter Poppi e Messias Mendes: equipe da Folha do Norte na igreja
(Foto- arquivo pessoal de Walter Poppi)
Walter Poppi: o faz-tudo da redação de 1970 até o fechamento da Folha
(Foto: Nelson Jaca Pupin)