Que faça bom tempo
Aqui, por aí e por lá
Relógio num passeio lento
Muitos sóis ainda a clarear
E a lua, luz, prata pura
Nas noites repletas e vãs
Outra parceira na aventura
Preparando novas manhãs
(ARP)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A TV Girafa chegou!

Longa ausência
Peço desculpas por ficar tanto tempo sem postar. É que neste período estava montando a TV Girafa, o primeiro canal de tevê na Internet em Maringá e região. Preferi não compartilhar este trâmite todo porque não sabia quando o site estaria no ar. Esperei o lançamento e cá estou contando a história do nascimento da TV Girafa.

Por que TV Girafa?
Devolvo a pergunta: por que não TV Girafa? Não encontrei uma explicação lógica para a escolha deste nome. Fico com esta: "A girafa não precisa chegar primeiro porque enxerga antes." O nome surgiu depois que fiquei falando nomes de bichos e plantas e o meu amigo Nivaldo Verri ficou escutando. Tinha falado TV Elefante, TV Tigre, TV Jacaré, TV Girafa. Daí ele achou legal a sonoridade. Sem concordar, levei o nome pra Simone, minha mulher, que achou legal. Falei com o Guilherme, meu filho, que não mostrou muito entusiasmo, mas achou um tanto quanto ousado. No final, acabou ficando. Pei para o artista plástico Hector Consani fazer a "logo" da TV Girafa. E aí a girafa acabou cativando todo mundo.


No ar

Na quarta-feira, dia 18, fizemos o lançamento do site www.tvgirafa.com.br. Não realizamos nenhum trabalho de mídia. Contudo, contamos com o valioso apoio dos companheiros blogueiros na divulgação. Espero, em breve, fazer uma divulgação. Mas não sei exatamente como. Estou com muitas ideias. Uma mais maluca que a outra.

Agradecimentos
Obrigado a todos que colaboraram na divulgação da TV Girafa, blogando, enviando e-mails, telefonando. Que Deus os abençoe.

União
A Internet se diferencia dos demais veículos por um aspecto fundamental: nela você tem que buscar se inserir, interagindo, mostrando seu trabalho e divulgando o dos outros. O sucesso vem da integração. Na Internet você não pode ser uma ilha.

Depoimentos e chamadas
Agradecimentos ao pessoal que esteve no estúdio da TV Girafa. Acompanhei todas as gravações dos depoimentos e chamadas e conheci muito da vida dos profissionais. Ótimas histórias e muitas lições de vida. Obrigado jornalistas, radialistas, publicitários, profissionais liberais, pioneiros. Valeu!

Programação
Optamos por apresentar programetes. No máximo 3 minutos cada. Temos o "Memória Maringá", "Varal das Letras", "Bola Velha", "Momentos com Mariáh", "Histórias Pioneiras", "Descobrindo a Girafa", "Produção Literária", "Girafa Musical", "Com a palavra, a Academia de Letras de Maringá", "Enquete da Girafa", além dos depoimentos, chamadas e vinhetas.

Novidades
Nos próximos dias, pretendemos lançar novos programetes. O "Dicas de sites e blogs" está sendo preparado. Conheço em Maringá pelo menos 50 pessoas donas de blogs. Vamos divulgar a opinião dessa gente.

Equipe
Simone Labegalini, Guilherme Tadeu de Paula, César Rodrigues, Bruno Gherard fazem parte da equipe da TV Girafa. O departamento comercial está com o Nivaldo Gôngora Verri. Se essa turma não tivesse comigo, a TV Girafa seria somente mais um projeto.


Faça uma visita, faça várias visitas
Avise seus familiares sobre a TV Girafa, seus amigos, vizinhos, conhecidos, colegas de trabalho, de sala de aula, de clube, de sauna, de salão de cabeleireiro, de academia. Avise a cara-metade, os namorados e namoradas, os rolinhos e rolões, o padre e o pastor, o botequeiro e o sorveteiro, o guarda e o flanelinha, as crianças, os tiozinhos e tiazinhas. Abraços gerais. WWW.TVGIRAFA.COM.BR - A criatividade em alta.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

É glória, é Deus

Estradas pontilhadas de luz
Mas, pés descalços, percalços
A cruz

Caminhadas cansadas, o dia-a-dia
Tempo de tédio, outros remédios
A idolatria

Tentações, privações, céu cinzento
Sem horizontes, sem pontes
O lamento

Sacrifícios, ossos do ofício, a dor
Mas, a vêm a confiança, a esperança
O amor

Dores e dissabores agora se vão
Hoje é a fé presente, premente
O perdão

O pecado é passado, adeus
Agora é outra história, é glória
É Deus


(Em 2006, minha amiga Taís Santana me pediu uma música para cantar na sua Igreja. A jornalista, radialista e apresentadora de tevê Taís é católica e ligada à Renovação Carismática. Fiz a letra acima e o Cláudio Viola ficou de fazer a melodia. Transcorridos mais de três anos, continuamos esperando. Caso alguém se interesse em pôr melodia nestes simples versos, fique à vontade. A expectativa é a de que, depois deste recado, o brilhante amigo, compositor e jornalista Viola tome coragem e faça sua parte.)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A história do primeiro padre voador

Bem antes do padre Adelir de Carli, que morreu em 2008, o Brasil teve seu padre voador. Foi Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nascido em Santos, onde, há 300 anos, fez seu primeiro voo em um aparelho em forma de balão.
No livro de Theobaldo Miranda Santos, “Terra Bandeirante”, de 1962, da Livraria e Editora Agir, 10ª edição, para alunos do então 4º ano primário das escolas do Estado de São Paulo, o autor dedica um capítulo ao “Padre Voador”.
Adquiri essa preciosidade, por apenas 2 reais, num sebo. Leia na íntegra - com a originalidade preservada - o texto de Theobaldo Miranda Santos, sobre a epopéia de Bartolomeu Lourenço de Gusmão:

“Bartolomeu Lourenço de Gusmão nasceu em Santos, em 1685. Aos quinze anos, seguiu para Coimbra a fim de iniciar seus estudos de teologia. Terminado o curso, tornou-se padre, e logo nos primeiros anos notabilizou-se pelo seu imenso saber e pela sua grande eloqüência. Dedicou-se especialmente ao cultivo das ciências físicas e naturais. Mas o que imortalizou o seu nome foi a máquina de voar de sua invenção.
Recomendado por D. Isabel, rainha de Espanha, Bartolomeu de Gusmão tornou-se capelão-fidalgo de D. João V, rei de Portugal. Interessou-se êste pelos estudos e pesquisas do joevm sacerdote, principalmente pela invenção de sua máquina voadora, cuja construção foi custeada pelo tesouro real. No dia 8 de agosto de 1709, presentes o rei, a corte e milhares de curiosos, foi realizada a primeira experiência do aeróstato de Bartolomeu. O aparelho, que tinha a forma de um balão, com o seu inventor a bordo, elevou-se suavemente do pátio do castelo de S. Jorge, permaneceu algum tempo no ar e, em seguida, desceu no Terreiro do Paço.
Outras experiências, bem sucedidas, foram realizadas com o aparelho, para júbilo do seu inventor e despeito dos invejosos que, para ridicularizar Bartolomeu, passaram a chama-lo de “Padre Voador” e representar seu aparelho por um pássaro, a que deram o nome de “Passarola”.
Seus inimigos foram mais longe. Aproveitando-se da ignorância do povo, começaram a apregoar que o “Padre Voador” era feiticeiro, com ligações com o demônio...
E tais mentiras espalharam a respeito de Bartolomeu que o próprio rei D. João V, seu protetor, resolveu não mais auxiliá-lo. Entre as críticas maldosas que surgiram na imprensa da época figuravam versos como estes:
“Com que engenho te atreves, brasileiro,
A voares no ar, sendo rasteiro,
Desejando ave ser, sem ser gaivota?
Melhor te fora, na região remota
Onde nasceste, estar com siso inteiro!”
Abandonado pelo rei, escarnecido pelo povo, desprezado pelos amigos, Bartolomeu de Gusmão viu-se na triste contingência de fugir para a Espanha, onde foi acolhido por seu irmão frei João de Santa Maria.
Consumido pelo desgôsto e atacado de súbita enfermidade, o “Padre Voador” morreu a 19 de novembro de 1724, no hospital de Misericórdia de Toledo. Findou seus dias esquecido de todos e na mais extrema miséria. (Theobaldo Miranda Santos - 1905-1971)
Capa do livro de Theobaldo Miranda Santos, "Terra Bandeirante"

Santos celebra o padre voador

Com este título, o Jornal da Orla, de Santos publicou, no dia 2 de agosto último, matéria sobre as comemorações dos 300 anos do voo inaugural do padre Bartolomeu de Gusmão:

O texto da redação do Jornal da Orla, em 02.08.09:

O Instituto Histórico e Geográfico de Santos dá início nesta segunda-feira, dia 3 de agosto, às comemorações dos 300 anos da apresentação do aeróstato, o balão de ar quente, realizada pelo cientista santista Bartholomeu de Gusmão para a corte portuguesa.O IHGS lançará, às 20h, um carimbo postal comemorativo pelos Correios, além de expor maquetes, painéis e selos e promover palestras sobre a vida do cientista.
A mostra poderá ser vista na sede do IHGS até sexta-feira, dia 7, das 9 às 12h (até quinta-feira, também das 14 às 17h).No sábado, a partir das 9h, a 3ª etapa de Biathlon homenageará o inventor. Às 10h, na Praça Ruy Barbosa, onde se localiza a estátua em homenagem a Bartholomeu de Gusmão, haverá uma cerimônia e, em seguida, será realizada uma missa e o sepultamento dos restos mortais do cientista e de seu irmão, Alexandre de Gusmão, na cripta da Catedral de Santos.
No Parque Municipal Roberto Mário Santini, no José Menino, das 16 às 20h, haverá atividades culturais, como a apresentação dos balões, que serão elevados por ar quente em voo cativo. No final da tarde, as luzes da orla daquele trecho serão apagadas, dando início ao ‘Night Glow’, show de iluminação especial dos balões.
No Museu do Surfe, no mesmo local, será montada a exposição do IHGS sobre a vida e os inventos de Bartholomeu, com miniaturas elaboradas pelo professor João Inácio da Silva Filho.
Além disso, um balão de seis metros de altura, operado por controle remoto, ficará no parque e depois seguirá até o Estádio Urbano Caldeira, onde sobrevoará o campo antes da partida Santos x Avaí. Por fim, será lançado um concurso de redação entre alunos das escolas municipais sobre o inventor.
Em 3 de agosto de 1709, Bartholomeu de Gusmão apresentou pela primeira vez o aeróstato. O pequeno balão de papel aquecido por uma chama incendiou-se antes de alçar voo. Em 5 de agosto, o cientista realizou uma segunda tentativa, dessa vez bem-sucedida. No dia 8 de agosto, a experiência foi realizada na Sala das Embaixadas, diante de D. João V e da rainha D. Maria, além de outros membros da Corte.
Com medo de um incêndio, os presentes se lançaram contra o engenho antes que este chegasse ao teto. Finalmente, no dia 3 de outubro, ao ar livre, o balão a ar quente saiu do pátio da Casa da Índia e pousou no terreiro do Paço Real.
Estátua na cidade de Santos-SP, do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o padre voador (Foto: Francisco Arrais, do Jornal da Orla)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Excitação poética em fim de tarde

Senta
Uma perna
Em cima da outra
Graciosa
Estica o braço
Levanta um dedo
Sobe a blusa
O umbigo toma a cena
Cenário lusco-fusco
Ocupando o corpo queimado
Lá se vai a tarde
Refrigerante na metade
Vai-e-vem dos quadris
Olhos pra frente
Arrogância instalada
Transpondo a porta
Ganhando a rua
Nada mais é preciso
Fim do dia
Outra cerveja
E a certeza
De que ela virou poesia

(ARP - publicado no livro V Coletânea - Academia de Letras de Maringá - junho 2009)

terça-feira, 28 de julho de 2009

O Deus dos desgarrados

O Deus daquela igreja parece maior do que o da minha, mais forte e poderoso. Os milagres de lá devem ser mais completos do que os de cá. Acho que a salvação de lá é mais completa. Imagino que lá os pecados são todos perdoados. A alma se transforma em puro linho branco. Os meus irmãos daquele lado têm a alma alva e o espírito iluminado. Devem ter obtido a senha para chegar ao céu. Já estão no paraíso enquanto fazem um pitstop na terra.

Aqui, neste canto, fico preocupado em saber a quantas anda minhas possibilidades de ser salvo. Pergunto se entrei na igreja certa. Tive tantas escolhas depois de moço, tantas chances de me encontrar e outras tantas para me perder. Tive motivações e desânimos, e nesta soma restou um olhar interrogativo.

Passaram verões, invernos e estações gerais, vieram feridas e cicatrizes, cortes leves que a manhã seguinte curou, cortes profundos que o cair da noite intensificou, sons providenciais e silêncios apavorantes. E passam os dias pelo vão dos dedos. Velozes dias, as horas não podem ser controladas e a impotência para mudar torna a angústia mais poderosa. Então vou para dentro de mim, me enxergar entre o turbilhão e a calmaria.

Agora estou numa igreja onde parece reinar a paz. Aqui as pessoas sentam-se comportadas, viram o rosto lentamente, murmuram orações com os dedos cruzados. Todos tão serenos ou só estão fazendo de conta? No interior delas, tempestades podem estar em formação ou prontas a irromper. Tiro o olhar dos outros e me concentro no altar, no homem cingido por Deus para ser o condutor das ovelhas unidas, perdidas e desgarradas.

Então, ele levanta os braços e com a voz transbordante de amor e fé, o representante divino, com procuração atualizada para me salvar, pelo menos é o que acho, diz palavras reconfortantes, animadoras. Meu envolvimento é tal que nos próximos segundos vou acreditar nas suas versões sobre harmonia terrena e salvação eterna. Mas logo começo a duvidar dele e da minha capacidade de entrar no seleto grupo da serenidade.

São muitas as portas e são muitas as dúvidas. Mas quero participar. De pé, mãos para cima, com os olhos fechados e a boca aberta entoando o refrão de um salmo, entro numa fase catártica e sinto que o meu corpo e alma estão sendo purificados.

O homem de Deus consegue me transportar para o campo das ovelhas unidas, daquelas que compreendem. Para a voz, para o cântico, ovelhas dispersando-se. E eu, desgarrado, de volta para a rua. Vêm as horas sem controle, a angústia comportada. Como será que a gente consegue a tal senha?

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 9 de março de 2008)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Crianças, poesia e a caderneta

Dia desses fiz uma poesia para as crianças. Versos simples, saídos quase que por acaso. Muitas vezes escrevo e imagino alguém cantando ou declamando, enfim, pondo vida às letras inertes ordenadas no papel. A poesia virou música numa melodia que eu inventei naquele instante e, conforme cantarolava, fui perdendo o ritmo até me pegar declamando bem baixinho para ninguém escutar.

Fiz a pequena poesia na caderneta que ganhei uns dois anos atrás do Burzega. Aliás, a ideia da caderneta como brinde é genial. Demora acabar com ela. Enquanto isto, você vai carregando a caderneta Burzega – Image Achievement para baixo e para cima, escrevendo de tudo nela.

Pois bem, estava eu num dia desses de outubro, sentado num banco, esperando não lembro quem ou o quê, quando me pus a pensar nas crianças. Vejo crianças uniformizadas, dos 7 aos 10 anos quase todos os dias. Uma das maravilhas da vida é vê-las saindo da escola. Elas espalham alegria ao irromper o portão. Ficam quatro horas retidas e ao sair botam para fora todo o prazer de se ver livres. Correm, pulam, conversam alto, gritam...

Pensava eu nas crianças, lembrava do meu filho que já passou dos 20 anos. Eu o via pequeno, de uniforme, fazendo igual a esta molecada que entra em ebulição após o toque da sirene anunciando o final das aulas. Peguei a caneta e a caderneta e fui escrevendo sobre a vida delas, dos caminhos a percorrer. E pensava sem tristeza e escrevia com satisfação porque as crianças têm o direito a todas as alegrias possíveis.

Evitava pensar nas crianças que sofrem. Embarquei numa nau deixando os sonhos ruins no fundo do mar ou fiz com que eles se diluíssem na névoa. Para elas, criei um mundo com couraça contra a dor e acreditei na boa esperança. Desviei da crueldade, criei horizontes de paz para que elas pudessem sempre levar o sorriso puro. E o vento levava um canto feliz que chegava a todos os lugares.

Abri o sol muitas vezes para iluminar os corações dos homens. Depois vinha a lua testemunhar o adormecer dos pequenos. E a alegre viagem seguia sem fim. Eu era um anjo da guarda, guardando os caminhos e abrindo clareiras. Pensava em tantas crianças. Em tantos adultos também, naqueles que carregam pela vida o espírito delas, os tais eternas crianças.

Devido às limitações da veia poética, reduzi a fantasia a estes versos que estão lá na caderneta: Que faça bom tempo/Aqui, por aí e por lá/Relógio num passeio lento/Muitos sóis ainda a clarear/E a lua, luz, prata pura/Nas noites repletas e vãs/Outra parceira na aventura/Preparando novas manhãs.

(Antonio Roberto de Paula - Publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 28 de outubro de 2007)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O papel na história

No final do ano passado, o amigo Rogério Recco me convidou para que escrevêssemos o livro sobre este O Diário, jornal que comemorou 35 anos no último dia 29. Depois de meses de pesquisas e entrevistas, o trabalho ficou pronto. Depois de folhearmos milhares de páginas, anotar, fotografar e conversar com muita gente, o livro foi publicado.

Ninguém sai incólume depois de mergulhar intensamente no passado, como fizemos. Por mais que se queira manter o providencial distanciamento para não se deixar influenciar por determinados episódios, não é possível ficar alheio. Também não é possível simplesmente esquecer e entrar em outro trabalho como se nada tivesse acontecido. Você sai fortalecido. E incomodado, querendo contar indefinidamente esta e outras histórias.

Para quem acompanha a vida desta cidade, desde que os jipes rodavam sobre a terra e depois sobre os paralelepípedos do centro, como é o nosso caso, escrever a história destas três décadas e meia de O Diário foi como fazer um retorno. O jornal viveu e vive esta pauta chamada Maringá.

O que fizemos foi entrar num imenso pomar e arrancar as frutas mais belas e saborosas. Se outros entrarem, certamente vão fazer escolhas diferentes porque gostos, emoções, experiências mudam de pessoa para pessoa. Procuramos agir com isenção na definição da retrospectiva, como de fato deve ser, mas o coração também teve sua parcela de participação. E é muito bom que seja assim.

O livro é o produto final e é gratificante ter ajudado a concebê-lo. Contudo, tão importante quanto à publicação foi a trilha percorrida para se chegar até ele. Enquanto montávamos essa linha do tempo escrita e fotografada pelo O Diário, pudemos perceber de forma cristalina as transformações da cidade, as mudanças no comportamento, os detalhes de cada época, as vitórias e os ocasos, a dinâmica do poder em todas as áreas. O Diário buscou ser espelho deste tempo, intérprete desta história e agente propagador da cidade.

Mais do que milhares de edições arquivadas, a história viva do jornal está nos depoimentos de Frank Silva, este intrépido rapaz que foi quebrando as pedras que encontrava no caminho até conseguir edificar um sonho, está na sua família, nos demais diretores, nos atuais e ex-funcionários.

Por meio do Frank, dos que estão na ativa e dos que passaram pelo O Diário, o Rogério e eu demos um divertido e inquietante passeio pelo passado. Cada personagem, à sua maneira, contribuiu para contar essa história. Uma história que vem sendo escrita em cada edição.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 5 de julho de 2009)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Os altos e baixos da vida

- E aquele serviço da pintura?
- Não deu certo. Tenho alergia.
- Tá brincando? Você tem alergia a tinta?
- Tenho, mas não fui no médico. Não sei se é a tinta ou outro material.
- Que maré este ano, hein?
- É, primeiro a firma faliu. Depois, levei balão do Inácio no negócio das capinhas de celular. Agora, a alergia...
- E o que você tá pensando em fazer?
- Pô, você quer saber tudo? Interrogatório agora?
- Desculpa. Só tava querendo ajudar.
- Desculpa eu, cara. É que tem dia que não é fácil.
- Comigo, a coisa tá clareando.
- Legal. Quitou o terreno?
- Quitadinho. Vou parcelar o material de construção. Devagar. Nem que eu leve um ano para terminar a obra.
- Enquanto isso a sogra te agüenta na casa dela...
- Ela gosta de mim. Dá a maior força. Diz que eu sou o filho que ela não teve. Gente boa tá aí.
- Sei, sei. E você vai ficando. Acertou na mulher e na sogra. Parabéns.
- Ela diz assim: “O Vadinho pode ficar aqui o tempo que quiser.” Aí a minha mulher fala: “Mas, mãe, a gente tem que ter o nosso cantinho!” Aí a sogrinha retruca: “Aqui tem espaço prum cantinho de nós três.” Então me esparramo no sofá e me divirto.
- Que forga, hein veio?
- É, mas não esquenta. Qualquer hora dessa você se acerta com uma mulher e um trampo bom. O que você tá pensando em fazer?
- Tô cansado de fazer bico. Tá pintando um negócio fixo.
- Qual?
- Promete não comentar com ninguém? Se começa a falar, acaba gorando.
- Prometo. Que trabalho é esse?
- Um primo meu tá vendo um serviço de segurança.
- O quê?
- É, segurança. Registro em carteira, hora extra e tudo mais. Segurança em casa noturna, shows, essas coisas.
- Você deve tá brincando...
- Não, não tô não. Por quê?
- Pô, cara, me desculpe falar, mas você não tem corpo nem tamanho pra segurança.
- Como não!! Tenho quase 1 metro e 70.
- Fala a verdade.
- Tá, 1 metro e 62. Mas acho que sou um cara forte. E pra ficar mais alto tem uns sapatos com a sola grossa, dá um ganho de uns 5 centímetros.
- Não tô querendo te desanimar, mas acho que você não vai conseguir este emprego.
- Você acha mesmo?
- Acho. Neste serviço você precisa se impor. E com este físico, se der confusão, você vai ser o primeiro a correr.
- Putz, eu tava tão animado, já me imaginando de terno preto, camisa preta, gravata preta, barba feita, gel no cabelo...
- Vou chegar aí, Adão. Abração.
- Vai com Deus, gigante. Sortudo de uma figa. O cara tem sorte com mulher, sogra e serviço. E quase 2 metros de altura. Vou comprar um sapato daqueles, igual ao do Zezé di Camargo, fazer um curso, ver umas roupas, musculação, ir pra noite, conhecer umas minas... Pintor de rodapé o cacete!

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 20 de janeiro de 2008)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sem tempo para amanhã

Lula voa. Na última imagem dele na mídia, apareceu vestido com um casaco típico do Cazaquistão. Daqui uns dias, o presidente aparece no Alasca trajado de esquimó com aquele sorriso “eu sou o cara”, feito selo comemorativo dos 80% de popularidade.
Roberto Carlos canta pelo Brasil festejando seus 50 anos de carreira embalando corações. Se chorou ou se sorriu, o importante é que emoções o Rei viveu.
O Rio quer sediar a Olimpíada de 2016. O Rio de Janeiro continua lindo e seus governantes vão à Suíça defender a candidatura da cidade. E os projetos sociais agonizam.
A criminalidade transpassa o corpo da Cidade Maravilhosa, atinge os órgãos vitais e faz do coração placa de tiro ao alvo. Cheia de enganos mil, coração do Brasil.
Ronaldo Fenômeno, o obeso carismático, faz história no Timão para o deleite do bando de loucos e o olhar atravessado dos outros bandos que acharam que ele era mais uma piada pronta de corintiano.
Os telejornais dão as notícias. As mesmas e com o mesmo estilo. É preciso dar voz ao personagem, pôr emoção no vídeo, amarrar uma história em um minuto ou dois e chamar o comercial.
O planeta inova todo dia sem sair do lugar. O mundo passa na tevê e amanhã começa tudo de novo. Todos os continentes mostrando a cara no toque do controle remoto. Os povos em desfile no retângulo da televisão. O céu é dos aviões. Os homens seguem. Com ou sem turbulência. O Atlântico é só um detalhe e a tragédia é um dado a mais na história.
Padre Marcelo Rossi parece que parou de declamar durante as músicas. Agora, a Igreja Católica ataca, perdão, agrega com o Padre Fábio de Melo, que mostra voz afinada e guarda-roupa de modelo. E Aline Barros expande suas belas canções além dos templos evangélicos. O mundo canta de tudo e, graças a Deus, há espaço para Deus.
A violência está nas esquinas, no asfalto e nas casas. Milênio sangrento amparado no destemor, na intolerância e na descrença. Os líderes mundiais se reúnem em grandes e iluminados salões. A paz está na pauta, mas longe das mentes, que preferem comandar outros interesses. Os corações do bem tentam equilibrar o mundo.
Os hospitais estão lotados, filas moribundas se arrastam, os políticos continuam dando de ombros. O STF jogou no lixo o meu diploma de jornalista. Será que a Gisele Bundchen está grávida? Dilma e Serra monopolizam.
A gripe suína, as pragas gerais. As drogas de todos os tipos e teores viciando a humanidade, a Amazônia está virando pasto, a internet deixou o mundo na palma da mão. A vida passa. Tudo em tempo real. Sem amanhã. E a gente vai se equilibrando.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 21 de junho de 2009)

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O mundo é um outdoor

Os outdoors me perseguem, me cobram e querem me deixar em baixo-estima. Impossível passar indiferente por aquelas enormes placas que anunciam de tudo: jeans, camisas, ternos, cama, mesa e banho, carros, shows, perfumes, eletroeletrônicos, computadores, motéis, advogados, cursos, relógios, excursões, celulares, operadoras, calçados, lojas e shoppings... Ofertas, promoções, descontos, prazos, sorteios, cheques pré...

Os outdoors mudam de cara toda semana. Novas marcas e tipos surgem nos retângulos espalhados na zona central e nas entradas da cidade. O Novo Centro de Maringá se tornou o oásis dos outdoors. Enquanto não se completam as construções daquela nobríssima área, os terrenos vagos vão sendo ocupados pelas gigantes propagandas.

Entre as que se destacam, que há algum tempo não é reformado, para a alegria geral masculina, é a do anúncio de uma empresa de lingerie. Uma mulher de calcinha e sutiã tomando todo o espaço. Um democrático espaço de visualização, pois enquanto as mulheres analisam as peças, a gente analisa como as peças ficam na moça.

Voltando aos outdoors mutáveis. Quanto mais olho para eles, mais eu me sinto fora do que está contextualizado ou do que é proposto a ser. Olho para a marca e o estilo do meu relógio e não são aqueles em exposição. Gosto de sapatos, talvez a única extravagância que faço na vida é comprá-los além do que permite minhas irrisórias posses.

Mas nos outdoors não vejo nenhum modelo parecido com meus pares. Não consigo acompanhar as tendências. Olho para os que estou calçando e percebo uma defasagem de pelo menos uns três anos.

Nada demais. É só seguir que logo a próxima propaganda vai fazer com que eu me esqueça desta. Vem mais uma cobrança. “Você tem que ser mais e melhor”. Recebo o aviso. Melhor: assimilo o golpe. O bom de ter uma certa idade é que você não veste todas as carapuças que lhe oferecem. Se eu não fizer o tal curso, não dirigir o tal carro e não viajar para tal lugar, minha vida vai seguir. Então, que ela siga sem eles. Mas, convenhamos, dá uma vontade de fazer o tal curso, dirigir o tal carro e viajar para tal lugar. Ah, isso dá.

É o poder da propaganda, que tem a precípua função de nos informar que a gente pode ter acesso ao mundo dos felizes, belos, simpáticos, saudáveis e bem sucedidos seres. Mas que, por mais que se esforce, você nunca vai estar inteiramente dentro. Sempre faltará algo. Então, lancemos mão da reconfortante frase do francês George-Louis Leclerc, o Conde de Buffon (1707-1788): “O estilo é o próprio homem”.

(Antonio Roberto de Paula - publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 26 de agosto de 2007)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Aqueles quintais e pomares

Lamento que estas crianças que vejo agora, correndo felizes e por este parquinho de brinquedos sem graça não tenham a oportunidade de subir numa goiabeira, num pé de abacate ou de manga. Acho que nunca vão ter.

Os quintais da minha infância sempre foram enormes. Se os visse agora seriam bem menores do que o meu olhar infantil. Reparou que quando a gente era criança tudo parecia grande? Móveis, objetos, o pai e a mãe, ruas, calçadas, carros, árvores e quintais.

O olhar de um garoto fica um pouco acima do nível de uma mesa e da cintura dos pais, na altura das mãos que afagam e também das que puxam a orelha. Para ele, são sempre altos os muros e as grades, as pessoas, os animais e as casas, longos caminhos.


As árvores eram gigantes. Bom era subir numa mangueira, a melhor das árvores, nem tanto pelo fruto, mais pelos galhos fortes, bem distribuídos e sem espinhos. E no alto, um ótimo esconderijo. Quanto à goiabeira, seus galhos são finos e resistentes, mas em dias de chuva convém não arriscar, pois ficam lisos feitos sabonete. Os abacateiros, de tão fáceis de subir, até as meninas conseguiam.


Eram extensos os quintais, nada de cimento. Terra batida do começo até o fundo com muitas árvores. Verdadeiros pomares. Pés de manga, abacate, goiaba, jabuticaba, laranja e pêssego. As frutas quase não tinham tempo de amadurecer porque moleque não tem tempo a perder. Comer fruta verde com sal até que era bom. No terrão, a bola suja com a câmara de ar à mostra rolava sem parar, chutada por meninos apressados que não sabiam o que era cansaço.

Os quintais não tinham divisões. A gente atravessava de um para outro e ninguém proibia. Agora, puxando o fio das reminiscências, do lado de fora daquele mundo, percebo que a gente fazia parte de uma numerosa família com várias casas e um só quintal. Moleques de todas as caras e cores com a imperativa missão de se divertir. As árvores eram eternas assim como aqueles moleques, os nossos pais, os outros pais, nossos irmãos...
As árvores não seriam derrubadas, os quintais não seriam invadidos pelo concreto, nossos pais ficariam a vida inteira afagando nossos cabelos e puxando nossa orelha, nossos amigos, num átimo, subiriam na alta goiabeira, nossos irmãos ficariam na mesma casa de sempre e a gente não perderia aquele brilho que estampava curiosidade em cada olhar.
Estas crianças que vejo agora, correndo felizes, suadas e coradas no parquinho, iam gostar muito de pôr o pé na terra, tomar chuva e subir em árvores. Os filhos delas, quem sabe, vão poder.Basta não esquecer como era.

(Antonio Roberto de Paula - texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 12 de agosto de 2007)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O coletor de histórias

No seu jeito dissimulado, acho que querendo esconder, mas sem conseguir, uma grandiosa timidez, Reginaldo Benedito Dias chega trazendo o seu novo livro “Da arte de votar e ser votado”.

Sempre preparado para todas as discussões possíveis, mantendo o nível, o tom pausado, mas com a verve proporcional à crença no que diz, fruto da confiança adquirida pelo que ouviu, viu e pesquisou, Reginaldo Benedito Dias chega para, novamente, distribuir casos e causos.

Ele chega sempre sem muito alarde. As portas vão se abrindo naturalmente. Como existe a figura do “espalha roda”, existe gente como este professor-doutor-escritor que agrupa, soma, junta rodas dos mais variados matizes.

Reginaldo desperta nas pessoas a necessidade de falar, de debater intrincadas questões políticas e históricas ou prosaicos acontecimentos do dia-a-dia. Entre os alunos, os companheiros de partido, os colegas de outras siglas e os amigos de uma roda de bar, esse professor está sempre pronto para comentar o que vier a ser o tema.

Então, entram neste desfile o desempenho do Fenômeno no Corinthians, as conquistas e derrocadas petistas, o cotidiano da cidade, músicas, filmes, livros, as piadas oras sutis ora sem a mínima graça. E volta e meia inserindo comentários sobre sua maior riqueza: a filhinha.

Um escritor acima das ideologias, que sabe a importância de destinar o devido valor na história a quem merece, independente do posicionamento político ou partidário. Foi assim que Reginaldo Benedito Dias conquistou a credibilidade nas publicações.

Dias chega com seu livro sobre a política de Maringá para marcar mais um ponto na história da cidade. Ele é o escrevinhador do eterno resgate, o que vive a buscar acontecimentos, tirando-os de tantas memórias para juntá-las numa publicação. Focando os mais variados episódios que construíram e constroem a vida política da Cidade Canção, ele joga luz sobre as personalidades com a devida participação de cada um no processo histórico.

Ao mesmo tempo em que clareia estes caminhos de mais de 60 anos, possibilitando que os jovens saibam como ocorreu a formação do Município, faz com que os maringaenses de décadas aflorem suas lembranças, exercitem suas saudades e se sintam, de alguma forma, partícipes desta construção.

Ao juntá-las numa obra séria, organizada e criativa, Reginaldo pereniza as ocorrências e homenageia seus autores. Pela paixão à cidade e pelo prazer em pesquisar, o trabalho deste coletor de histórias não tem fim. A cidade vai fazendo história e ele vive a persegui-la com seu olhar.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 31 de maio de 2009)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Enquanto ela espera

Ela canta um canto baixo. Ou melhor, cantarola. É uma canção romântica antiga, um sucesso americano que ela não sabe o significado. Sabe que é triste. Triste como esta noite, como a rua lá embaixo, as cabecinhas que vêm e vão. Na sacada, no alto de oito andares, o céu negro, o cantarolar triste, o corpo lento e o copo vazio.

O verbo esperar é pesado, longo e cansativo. Esperar é abrir mão, os braços e o coração. É o que ela faz. Ela e o relógio se arrastam parados, fechados, sintonizados em ponteiros lentos. O silêncio é cortado, chega e sai de acordo com os motores. O som, no entanto, não sobe forte.
Os carros, pontos luminosos invadindo o breu da noite, transportando solidão ou tentando dela fugir. E ela espera. Descalça, mais líquido no copo e a desistência de cantar. Agora, a mente é vazia. Tudo o que o dia impôs se perdeu nesta noite. A concentração é quase total na espera.

Não há profundidade na visão. As edificações não permitem. Só janelas uniformes. Mundos quadriculados. Janelas abertas, cobertas e fechadas. Vidas expostas e secretas. Intimidades compartilhadas com anônimos donos de outras janelas ou aberturas sem função, sem vida.

Da sua janela, ela se pergunta se alguém a vê, se alguém se interessa em vê-la. Dá um sorriso, quase malicioso, e chega a fazer menção de expor uma parte do corpo. A idéia lhe faz bem, sente-se viva, mas não sai do lugar. Esperar o que não se pode ou não se deve mais esperar é a dor maior.

Quando é aberto um campo de expectativa, nele se percorre, dá voltas e qualquer sinal revitaliza. Quando não existe o campo, se comprime, se contorce e a dor transpassa todos os sentimentos. Quem espera faz uma busca sôfrega por quaisquer que sejam as dúvidas. Entre elas pode estar a certeza da vinda.

Ela não sabe como é a sua espera. Por isso volta a cantar. Um canto novamente baixo, que é dor, lamento, socorro, pedido, disfarce. É a soma de tudo que forma a espera. Deram o nome de amor, pensa ela, a isso que consome, preenche, esvazia, que revira, mistura, alegra, dói... Amor é bem mais do que o nome inventado para resumi-lo.

O relógio, parceiro cruel, acumula a espera. A noite vai se acomodando. Quase tudo dorme. O copo na mesa, o corpo deitado numa cama grande demais, as luzes apagadas, buzinas distantes. Agora, seu sono é solto, sonha como aquela gente feliz nas janelas. E ela, acompanhada, também feliz na sacada. Então, a chave gira no tambor. Em todas as vidas que ela viver, sempre vai acordar ao ouvir este som. Agora, é o real fim da espera.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 11 de novembro de 2007)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Um anjo chamado Vó Maria

Hoje, acordei pensando na minha Vó Maria, que nos deixou em 2005, aos 89 anos. Jesus Cristo disse que na casa do Pai tem muitas moradas. Então, estou convicto de que Deus a chamou para morar numa delas. O sinônimo de Vó Maria era caridade. Pelo bem que essa mulher fez na terra, teve bônus de sobra para entrar no reino dos céus.

Ela era pobre, mas isso nunca foi empecilho para ajudar as pessoas com um prato de comida, um agasalho, um par de sapatos e até uns trocados. Quando penso nela, vem imediatamente a lembrança de um coração bondoso.

Morei com a Vó Maria em Maringá nos meus tempos de garoto. Primeiro na avenida Mauá e depois na sossegada Floriano Peixoto, Vila Sete. Alguns baluartes da mediocridade passaram a chamar o bairro de Zona Sete.

Neste lugar, localizado entre a Igreja Divino Espírito Santo e a avenida São Paulo, reduto da comunidade japonesa, passei bons momentos na primeira metade dos anos de 1970. Na casa simples de madeira, que ainda está de pé, vivi sem grandes preocupações. A vida naquela época só não era um paraíso porque havia uma eterna pressão: o número exagerado de notas vermelhas no boletim.

Uma pressão que começou nos primeiros anos de escola, se estendeu pela adolescência e terminou quando pararam de pedir para os pais ou responsáveis assinarem o dito cujo.
Minha vó sempre ameaçava contar minhas desobediências para o meu pai, genro dela. Ameaçava e contava. Não todas, porque se assim o fizesse, acho não estaria aqui para lembrar essa e outras histórias.

O velho não tinha o costume de ouvir os dois lados, como geralmente se faz hoje em dia. Ele sempre ouvia um só lado, que nunca era o meu, e decidia que eu era o culpado. Por isso, a Vó Maria me ameaçava cada vez que eu chegava tarde, matava aula para jogar bola, quando respondia para ela e minhas tias e coisas do tipo.

Era sua ferramenta para tentar me travar. No final, eu sabia que ela pegaria leve no relatório para o meu pai. Eu era o seu neto mais velho e abusava desta condição. E ela fazia vista grossa até porque meu comportamento não era assim tão condenável.

Levo comigo uma culpa que não vai me abandonar enquanto pisar este chão. Nos seus últimos anos de vida, a visitava poucas vezes. Quando isto acontecia, eu fazia uma brincadeira qualquer e ela, debilitada, me endereçava um sorriso – misto de reprovação pelas minhas longas ausências e de alegria por me ver – como se eu ainda fosse aquele moleque levado que sabia que seria perdoado. A Vó Maria foi e é um dos meus anjos.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 11 de janeiro de 2009)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Seção Bola Velha - Baú do De Paula - Posto F-1

1984 - Equipe de suíço do Posto F-1, no campo da Copel de Maringá-PR - Renato, Pedrão, De Paula, Vilmar Passo Preto (amigo do Tiro de Guerra, em 1976, e do Bradesco, onde trabalhei com ele de 1979 a 1985), Emílio, Osmar e Luiz Fabretti (não sei qual era a função dele; acho que era técnico ou roupeiro, ou ficou de fora porque estava machucado). Agachados: Laércio, Carlos (faleceu nos anos 90 em acidente de carro; eu o conheci criança, uma grande figura. Vivia sorrindo, como na foto), Claudinei (dono do time, da bola, do uniforme e do posto), Baianinho e Frank Lima (fotógrafo do O Diário nos anos 80 e 90)

terça-feira, 19 de maio de 2009

O goleiro do Galo e a compositora do Rei

No mundo espetacular da internet, tive, recentemente, duas experiências interessantes. Foram simples, mas gratificantes. Não ia sossegar se não compartilhasse com você, que me dá a honra da fidelidade domingueira, lendo estes escritos retalhados que vão para tantas direções e às vezes não sai do lugar.

Pois bem, vamos aos tais acontecimentos. Recebi e-mail de um rapaz, Paulinho Medeiros, recepcionista de um hotel em Porto Alegre, pedindo informações sobre o livro “A História do Futebol Profissional de Maringá”. A obra, com 350 fotos e fichas técnicas, foi publicada em 2005 pelos meus amigos Reginaldo Lima e o Ortílio Carlos Vieira, o Tilinho.

O Paulinho queria adquirir o livro porque o seu tio, Evir Borba, era o goleiro do time do Grêmio Esportivo Maringá, em 1963. O livro tem três fotos daquela histórica equipe do Galo do Norte, a primeira da cidade a conquistar o título do Paranaense. Passei o endereço do Reginaldo e perguntei por onde andava o antigo campeão. Seu sobrinho me disse que Evir está no Japão e prometeu que vai conseguir que eu o entreviste.
O outro caso foi por acaso. Estava pesquisando músicas antigas num site especializado sobre o assunto quando vi o endereço na internet da Isolda, a compositora autora de centenas de músicas, entre elas a clássica “Outra Vez”, eternizada por Roberto Carlos.
Não importa a sua idade, não tem como você não se lembrar: “Você foi o melhor meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci...” E por aí vai, poesia pura. A Isolda pôs amor, raiva, dor e paixão na música que vive a mexer e a remexer os corações apaixonados. Lembrou?
Fui ao site da Isolda. Fiquei sabendo um pouco mais da sua história, o que anda fazendo. Mora em São Paulo, é empresária. O seu irmão, Milton Carlos, fazia músicas em parceria com ela. Ele morreu num acidente de carro, em 1977. Isolda ficou arrasada, mas soube superar e voltou a escrever belas canções.
Depois do site, fui ao blog dela. Deixei meu recado lá e fiz a tradicional tietagem, afinal ela merece. A Isolda, com a simpatia e a fineza de uma lady, respondeu com um comentário no meu blog.

Deixo aqui o endereço porque prometi à minha amiga (percebeu que já estou me achando, né?) que o divulgaria. É o http://www.blogisolda.blogspot.com/. Reforçando essa amizade, que hoje se resume a um e-mail para lá e outro para cá, garanto que vou entrevistá-la.
E daqui vai um abraço ao Evir, à Isolda e aos novos amigos que surgem via computador. Do jeito que a internet está deixando este mundo cada vez menor, eles devem receber esta mensagem.


A compositora Isolda, autora da música "Outra Vez", um dos grandes sucessos de Roberto Carlos

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 17 de maio de 2009)

sábado, 16 de maio de 2009

Seção Bola Velha - Baú do De Paula - Ceasa

Equipe do Ceasa, de 1978, em jogo no campo do Jardim Alvorada, ainda no terrão. Esqueci os nomes da maioria. O dono do time, da bola, do uniforme e de um dos caminhões ao fundo era o Osmar Chapéu Preto (o primeiro em pé, da direita para a esquerda). A maior parte deste time, com o nome de Alvorada, disputou a Taça Maringá no ano seguinte e foi campeão. Estou agachado, segurando a bola. O craque da equipe era o João Baiano (o segundo agachado, da esquerda para a direita), que jogava de meia-direita, dava de três dedos na bola, sabia cabecear e fazia gols. João Baiano morreu na década de 90. A gente jogava todos os domingos em Maringá e na região. O caminhão do Chapéu Preto levava os times aspirante e titular e a torcida. Não foram poucas a vezes em que o tempo "fechou" e, no lugar da bola, o pessoal saiu no braço. Como dizia Roberto Carlos: "Jovens tardes de domingo, tantas alegrias, velhos tempos, belos dias".

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Seção Bola Velha - Maringá-PR

Equipe do Catedral - 1958
Clube da Justiça - 1974
Fazenda Diamante - 1976
Country Club Maringá - 1981
Diretoria do Country Club Maringá - 1985

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Seção Relíquia - Jânio Quadros, do baú de Orlando Villa e de sua filha Adriana Villa Labegalini, de Marumbi-PR

Santinho do candidato à presidência da República, Jânio Quadros, em 1960. Jânio venceu, assumiu em 31 de janeiro de 1961 e renunciou no mesmo ano, em 25 de agosto. Hoje é obrigatório, mas na época era permitida propaganda sem o nome do partido. Jânio foi candidato do PDC - Partido Democrata Cristão com o apoio da UDN - União Democrática Nacional Verso do santinho de Jânio, em 1960. A frase do candidato: "Dadas pelo Governo as ferramentas, os brasileiros edificarão o País"


Broches da vassourinha, símbolo da campanha de Jânio Quadros à presidência da República. Na segunda imagem, a vassoura atravessa o mapa do Brasil. Jânio dizia que era "o candidato do tostão contra o milhão"
O jingle da campanha de Jânio, que se tornou um hit no Brasil, em 1960: Varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!
Jânio Quadros nasceu em 25/01/17 (SP) e morreu em 16/02/92 (SP)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Os cuidados de sempre

Tome cuidado com suas palavras ditas e escritas. Cuidado com as frases soltas e despretensiosas que você diz imaginando que elas se perderão no próximo segundo. Avalie seu discurso. Veja se ele é somente seu ou uma soma de trechos, retalhos de opiniões. Você é o que você diz? Tome cuidado com as influências, com as portas convidativas, com as verdades definitivas e as mentiras circunstanciais.

Cuidado com as línguas ferinas, com as tagarelas de plantão nos portões e os tribunos de botecos que proferem diferentes sentenças a cada gole. Eles vão falando e você vai seguindo, tomando o cuidado de não se deixar levar. Cuidado com a saúde, o excesso de peso, o excesso de preocupações, o peso do dia-a-dia.

Mas não se culpe por não correr 200 metros num minuto e por não ter um corpo de Apolo ou de uma deusa. Cuidado com o conto do bilhete premiado, os golpes, as traições, as pisadas na bola, as armas e as armações. Não seja o alvo, mas também não seja a lança.

Cuidado ao volante, os cruzamentos, as câmeras... Vire, desvire, se vire, saiba dirigir sua vida, não se meta na dos outros. Não acelere tão fundo, respeite quem vai passar, quem passou da idade e quem ainda está abrindo os olhos. Não fique descontrolado, não perca o passo e a educação. Nessa estrada, o trânsito às vezes é lento e sossegado, em outras, violento e pesado.

Cuidado com a noite escura e com todos os animais, com os conhecidos que escondem o coração e os desconhecidos sorridentes. Cuidado com as promessas que lhe fazem e as que você faz. Cuidado com os cumprimentos sem firmeza, os olhares oblíquos, os abraços sem calor e a polidez excessiva.

Cuidado com o passado que gosta de ficar rondando, atrapalhando as boas coisas da vida que o presente oferece. Cuidado com a desnecessária mania de adiantar o futuro. Cuidado com a futilidade dos pensamentos ou a profundidade exagerada. Cuidado para não se perder nos detalhes.

Cuidado com o que você come e bebe. As gorduras, as massas, os prazeres da carne, cuidado! As bebidas coloridas de alto teor, cuidado! Cuide de seu sono e de seus sonhos. Você passa a noite virando o corpo e girando a cabeça ou os carneirinhos só pulam uma cerca e somem na escuridão? Até onde vai o vôo da sua imaginação?

Cuidado com seus sentimentos: arrefeça os maus até fazê-los sumir de vista, e mantenha os bons, enraizados, fortes o suficiente para enfrentar as inevitáveis tempestades. A vida é cheia de cuidados. Mas, cuidado, não se esqueça que apesar de todos os cuidados, uma vida espera por você a cada manhã.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 8 de julho de 2007)

terça-feira, 5 de maio de 2009

O sorriso do velho

Pelo que sei, tinha vindo do norte. Não sei qual norte. Ou seria do sul? Que era corintiano até a raiz, transferência da paixão que vinha do bisavô, mas nunca chutara uma bola. Gostava de cerveja aos domingos e nos outros dias da semana também. Sei que gostava de mulheres. Isto mesmo, no plural. De todas as cores, idades, vocações e tamanhos. No final, sossegou.

Não tocava nenhum instrumento, mas cantava moda de viola acompanhando o CD do Tião Carreiro e Pardinho. Amava os filhos, todos os filhos, de todas as uniões. Mas, por último, descarregava quase todo o seu amor para os netos. Um deles tinha o seu tipo. Amava Deus e não sabia o que era religião. Na infância tentaram lhe explicar. Morreu sem entender.

Nunca deixou de votar, mas saía de perto quando vinham lhe falar de política. Não conhecia o mundo, mas do seu mundo era conhecedor. Nada sabia das cidades, mas a sua trazia na palma da mão. Era amigo dos velhos, dos moços e das crianças. Vivia com um sorriso pendurado na cara enrugada. Era um sorriso enigmático. Seria de vitória, de aceitação ou aquele que significa “O melhor está por vir”?

Pelo que sei, morreu dormindo. Deitou com aquele sorriso de sempre, deixando os chinelos de couro arrumadinhos sobre o tapete ao lado da cama. Como se fosse precisar, no dia seguinte, de manhãzinha, enfiar os pés neles sem olhar. Deitou de lado, virando as costas para a vida.

Disseram que não sofreu. Pelo contrário, acham que morreu feliz, que o comprido dever estava cumprido. Quando o sol estava alto, abriram a cortina e foram chamá-lo. Ao puxarem seu ombro, se depararam com aquele sorriso de sempre. Agora era um sorriso meio zombateiro, como a dizer: “O que vocês querem? Já não estou mais aqui.”

Pelo que sei, era um burro de carga para o trabalho. Tinha cicatrizes nas mãos. Para cada uma delas, desfilava rosários de passagens que remontavam décadas. Calos, crostas eternas de recordações, provas de uma vida, vivida com todas as intensidades, trazidas nas mãos. Nunca teve álbum de fotografias, passarinhos na gaiola, radinho, relógio e roupa domingueira. Não dava importância maior a determinados dias. Nem a determinadas pessoas.

Ninguém chorou no seu enterro. Havia uma reverência sem lágrimas, um respeito sem dor. Uma fina chuva parecia cair só naquele círculo. Todos se olhavam como a dizer que ali estava um homem que havia conseguido dar uma rasteira na morte por ter sabido viver a vida. Antes da terra cobrir o caixão, deu para ver pelo pequeno vidro quadrado o seu sorriso maroto dizendo: “Valeu, foi muito bom.”

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 27 de janeiro de 2008)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A carta que fez Carla desistir de casar

Fiquei sabendo ontem à tarde do seu casamento. Lembra da dona Zélia, aquela velha que gosta de anunciar tragédias? Pois é, foi aquela mala quem me contou. Estava saindo da casa da minha mãe e ela, a velha, chegou tão vermelha e excitada que achei que ia cair durinha na minha frente.

Então, ela parou, tomou fôlego, olhou bem na minha cara, deu uma geral nas minhas roupas, coisa bem característica dela, e falou: “E aí, Pedro, tudo bem?” Falou só para mostrar um mínimo de educação. Eu disse o meu “tudo bem” e fui saindo para manter a devida distância sanitária. Aí, veio ela quase jogando seus peitos na minha barriga: “Tá sabendo da Carla?”

Confesso que me faltou o chão na hora, mas não perdi a pose. Tentei fazer de desentendido. Dei uma gaguejada no seu nome e não saí do lugar. “A Ca-carla?” “É, ela vai casar sábado.” Não quis perguntar com quem porque eu já sabia e não queria que a dona Zélia esticasse mais a conversa.

Por mais que eu tenha me esforçado, com certeza, a velha notou o meu desapontamento. Ela ficou me olhando com um sorriso vitorioso depois de cumprir mais um importante compromisso na sua vida de sanguessuga. Na falta de ter suas próprias dores, amores e humores, ela se apossa das dos outros.

Saí dali, entrei no carro. Aquele movimento espontâneo com a mão direita para ligar o rádio não aconteceu. Dirigi sem pensar no trânsito. Tive que enxugar as lágrimas várias vezes porque estavam atrapalhando minha visão. E eu que pensava que a gente nem tinha terminado...

Achava que você não ia dar trela pra aquele moleque do Jeferson. No fim das contas, olha só, eu me achando o máximo e o garoto chegando, chegando e eu saindo da sua vida.

Saí do carro, parei no bar do Roque. Aquela turma de sempre estava lá, aquele povo que você conhece, o Nelson, o Vadão e o Paulo da eletrônica. Pedi uma cerveja, disfarcei, mas perceberam na hora. Perguntaram se algum parente tinha morrido, se eu tinha perdido o emprego ou se era alguma coisa com você.

Não me controlei, caí no choro de novo e falei tudo. Chorava, babava e bebia. Nem te conto o que os caras disseram de você. “Esta mulher não te merece, Pedrão”. “Como é que ela faz isso com um cara decente como você?” “Bem feito. Você fazia tudo por ela.” E falaram mais coisas que eu não tenho a coragem de dizer.

São 10 da manhã desta triste quinta-feira. Não fui trabalhar. Acordei agora pouco e resolvi te escrever. Minha cabeça está doendo e o meu coração sangrando. Nem sei como terminar esta carta. Acho que não tem fim. Nossa história também não.

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 30 de setembro de 2007)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Seção Bola Velha - Baú do De Paula

1993 - Time da imprensa de Maringá: Paulinho Boa Pessoa, Luiz Fabretti, Edivaldo Ferreira, Júlio Meneghetti, Marcelol Henrique e Jorge Junior (em pé); o garotinho Alan (filho do Marrom), Marrom, Cabo Zé Carlos, De Paula, Eli Silva, Ananias Rodrigues e Adilson Cascão

quarta-feira, 29 de abril de 2009

9 horas da manhã

Ela só queria ser feliz. Aqui mesmo, na sua cidade, no seu bairro, na sua rua, com sua gente. Queria ser feliz com seu homem e seus filhos, com seu trabalho, suas prosaicas preocupações diárias e seus alegres finais de semana. Queria andar pelas calçadas, descansar à sombra de uma mangueira, ouvir cantos suaves, conversar sem pressa, viver sem pressa. Queria ficar na banda de cá sem grandes sobressaltos. Amava a vida como se não existissem outras e como se esta fosse para sempre.

A espreguiçadeira na varanda, o pequeno jardim, as abelhas fazendo círculos nas flores e o sol quente das 9 da manhã era só o que ela queira. Ela queria o fim do dia, a dança dos galhos, as folhas que voam e as que repousam mudando de cor, as luzes pontilhando na longa e serena rua, demarcando a felicidade. Nas casinhas uniformes, a feliz repartição. Ela queria se completar nesse pequeno mundo, ter todos os amanhãs que pudesse.

A parte que lhe cabia desta felicidade era fácil de encontrar. Estava na horta no fundo da casa, nos pés de manga e de abacate e no caminho de tijolos pelo quintal. Queria um caminho leve, com chuvas inesperadas, vôos rasantes de passarinhos e um sorriso para cada bom-dia. Frutas caindo de maduras, verdes de todos os tons surgindo das hortaliças, o doce cão de econômicos latidos e o azulão do céu de nuvens brancas. Era só isso. Queria as imagens, os sons e os cheiros das estações. Que se perpetuasse assim porque mais ela não queria.

Ela foi menina de escola, de roupa azul e branca, céu e pureza, risos e brincadeiras, alegria e inocência. Foi moça sonhadora, de enxoval e aliança. Foi mulher como tinha que ser e mãe como amava ser. Levou os sonhos pelas estradas do tempo e, mesmo quando o céu se tornava negro, ela os mantinha intactos. O azul e o algodão sempre vão aparecer, pensava. E era o que acontecia.

Vez ou outra, debruçada no beiral da janela, enxergava todos os sonhos na linha do horizonte. Contava histórias só para si, deixando invioláveis e a salvo tantos momentos. Ria com satisfação, feito aquela menina da escola. Tranqüila, passeava no seu mundo, apreciando cada segundo. Mantinha a serenidade como se soubesse o caminho exato, como aquele de tijolos no quintal.

Numa manhã, por volta das 9 horas, da espreguiçadeira levantou os olhos pela última vez. Via tudo o que queria na linha do horizonte. Virou para o lado. Viu o pequeno jardim, as abelhas girando, os tijolos a perder de vista. Cerrou os olhos. Ela só queria ser feliz. E foi.

(Antonio Roberto de Paula - publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 18 de maio de 2008)

terça-feira, 28 de abril de 2009

Seção Relíquia - JAP´s 1963


1963 - Chaveiro comemorativo da sétima edição dos Jogos Abertos do Paraná, realizados em Maringá. Além da tocha olímpica, o grão do café estilizado na flâmula verde. No verso, os anéis olímpicos, que representam os continentes. Azul, Europa; amarelo, Ásia; preto, África; verde, Oceânia; e vermelho, América. Os Jogos eram só do Paraná, mas a organização resolveu homenagear o mundo todo.

sábado, 25 de abril de 2009

Raízes dos momentos felizes

- Zizi, sabe aquela música?
- Aquela que você vive cantando e assobiando? “Todo mundo tem um amor na vida e por ele tudo é capaz.”
- Você tá de brincadeira. Nem tô lembrado disso.
- Como, não? Desde que te conheço, do nada vem a imitação do Leno e da Lílian:”Eu tenho uma paixão que é proibida só porque sou pobre demais.”
- É outra música.
- Qual?
- Regra Três, do Vinicius e do Toquinho.
- Canta um pedacinho.
- Aquela que a gente cantava com os amigos no bar, lembra?
- Já faz tanto tempo... Canta um pedacinho.
- “Tantas você fez que ela cansou, porque você rapaz, abusou da regra três.”
- Assim você me entristece.
- Pôxa, mas por que?
- Eu me sentia a própria regra três, a reserva.
- Não acredito que você tá me falando uma coisa dessas.
- É meu caro, trinta anos se passaram, mas quem apanha não esquece.
- Lá vem a dramática.
- Dramática, não. É a pura verdade. Pensa que eu não sei dos teus rolinhos com a Rosana, a Cíntia. Que ódio! Só de lembrar da cara da Cíntia, parece que vai me dar um treco. A Ana Maria também...
- Você tá de brincadeira. Nunca tive nada com elas. Tudo amizade.
- É, me engana que eu gosto. Mas o que deu em você pra lembrar desta música?
- Tava pensando como é importante ter alguém do lado e respeitar. E esse alguém não pode nunca perder a esperança, acreditar sempre no companheiro e saber perdoar.
- Pera aí, Eugênio. Vai devagar com o andor. Pelo que eu sei, a letra não é bem isso que você tá dizendo. É o contrário: ela manda o cara passear.
- Certo, certo. Mas ela radicalizou. Quero dizer que a música é uma lição para o cara aprender a respeitar a mulher. Agora, tem o seguinte: ela tem que saber perdoar.
- Geninho, canta mais um trecho pra mim. Espera aí! A gente não tem ela num CD?
- Tem nada. Já procurei.
- A música mexeu contigo...
- É, viajei pra aqueles tempos em que a gente se conheceu, da minha turma do Científico, da tua turma do Normal, da grapete, da cuba, do Continental, as músicas no toca-disco, a gente cheio de sonhos. Viajei pra lá e agora, olhando pra você, te vejo tão linda como na saída do colégio, esse eterno sorriso.
- Pôxa, foi lindo isso. Me emocionei... Bateu uma saudade. Canta mais um trechinho.
- “Da primeira vez ela chorou, mas resolveu ficar, é que os momentos felizes tinham deixado raízes no seu penar. Depois perdeu a esperança porque o perdão também cansa de perdoar.”
- Geninho, nunca vou perder a esperança.
- E também nunca você vai precisar perdoar. Você é minha titular absoluta desde que começamos com essa história. E sem reserva!
- Sei lá se é verdade, mas que é bom ouvir, lá isso é.
- Vem cá, Zizi.
- Geninho...

(Antonio Roberto de Paula - Texto publicado no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 5 de abril de 2009)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Grêmio Esportivo Maringá - 1963


Campeão Paranaense em 1963, o Grêmio Esportivo Maringá fez campanha de sócios proprietários naquele ano. O elenco que conquistou o título era formado por Evir (goleiro), Ézio (goleiro), Edson, Pinduca, Marcos, Oliveira, Oliveirão, Nilo, Macário, Haroldo, Azevedo, Soca, Leonel, Chapadão, Garoto e Nilson
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Futebol e Guerra


Livro "Futebol & Guerra" - 2001 - Andy Dougan. Uma história extraordinária na Ucrânia de 1942, ivandida pelos alemães. Bravos jogadores de uma padaria de Kiev, a maioria pertencente ao elenco do Dínamo, enfrentam os alemães da Luftwaffe. Vale a pena ler. Uma lição de vida.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Cantinho da saudade: Antonio Paulo Pucca e Osvaldo Lima"


1969 - Antonio Paulo Pucca, o maior narrador esportivo de Maringá, e Osvaldo Lima, colunista esportivo do O Jornal (depois Jornal do Povo). Os dois no Aeroporto Guararapes, em Recife-PE. Eles estiveram na capital pernambucana para cobrir o jogo do Grêmio Esportivo Maringá contra o Sport Recife, na Ilha do Retiro, pelo "Robertinho", uma espécie da Série B dos anos 60. O Grêmio foi o campeão da competição. "Robertinho" vem de "Roberto Gomes Pedrosa", nome do torneio que envolvia os principais clubes e foi o embrião do Brasileirão, que teve a primeira edição em 1971. Pucca falceu em 2007 e há muitos anos tinha se afastado do rádio esportivo. Tinha um programa diário na TV Maringá (Band), o Jornal da Manhã. Lima morreu em 2002 e até os últimos dias de vida fez a coluna "Em cima do lance", no Jornal do Povo.

"A História do Futebol Profissional de Maringá"

Livro "A História do Futebol Profissional de Maringá", publicado em 2005, trabalho elaborado pelo ex-jogador do Grêmio Maringá, Reginaldo Lima, e por Ortílio C. Vieira, o Tilinho, que trabalhou por muitos anos no Galo da Cidade Canção, sendo o maior estudioso do futebol profissional maringaense. A pesquisa é ilustrada com mais de 350 fotos. Reginaldo me presenteou com um exemplar e no autógrafo fez uma brincadeira sobre o meu desempenho futebolístico, relembrando os amistosos em que atuamos juntos pelo time da imprensa de Maringá. Olha o que ele escreveu: "Ao amigo Antonio Roberto de Paula a quem admiro pelo trabalho jornalístico e pela habilidade nos jogos que fizemos juntos. Com votos de sucesso. Agradecido pelo apoio. Um abraço. Reginaldo Lima.
O Reginaldo é um brincalhão

Vida e bola

Queria ser Gerson. Nos meus sonhos eu era o Canhotinha de Ouro. Nas peladas, queria fazer como ele. Havia um problema: era destro. De tanto treinar, virei ambidestro. Não conseguia, contudo, fazer lançamentos de 30, 40 metros. Não conseguia organizar o meu time, não falava como ele e não tinha o espírito de liderança igual ao dele.

Quando o Brasil ganhou o tri, ganhei junto com o Gerson. O na final contra a Itália, o segundo, o que abriu o caminho para a goleada, teve a minha contribuição. Quando a bola sobreou para ele, depois da jogada de Jairzinho, na meia-lua da grande área, juntos soltamos a canhota, corremos, um ao lado do outro, de braços abertos.

O Estádio Asteca nos aplaudiu, o Gerson e eu. Choramos e erguemos as mãos para o céu, eu e ele, quando soou o apito final. Passou a Coppa de 70 e já não queria mais ser Gerson. As crianças são por demais inconstantes. Cansei de brincar de Gerson. Gerson ficou na história.

Agora, queria ser Rivelino. Ser Gerson foi muito cansativo. Tinha que fazer lançamentos e gritar com todos os companheiros. Não sabia fazer nem uma coisa nem outra. Mudei. Passei a ser Rivelino. Era só jogar mais adiantado e mandar a bomba de canhota. Fechava os olhos e me via num Morumbi lotado lutando com meus companheiros do Timão para quebrar o jejum de títulos.

O Cortinhians perdia mais do que ganhava. No final, Riva era criticado pela imprensa e pela torcida. A Fiel já não o queria mais por lá. Sofríamos juntos. Acabaram destronando o Reizinho do Parque. Rivelino foi para as Laranjeiras e eu, na minha inconstância e pelo fato de ser corintiano acima de tudo, preferi ser outro craque.

Passei as ser Sócrates. Minha técnica futebolística não ia além de uns golzinhos de bico. Mas queria fazer como o Magrão. Cheguei a dar alguns toques de calcanhar, todos sem objetividade, ao contrário do meu ídolo da ocasião, que fazia gols de costas para o goleiro e deixava os companheiros na cara do gol para concluir.

Larguei mão de ser Sócrates quando seu gás acabou em 86 e ele errou o penalti contra a França.Já vinha me identificando com Careca. Queria ser igualzinho ao habilidoso e raçudo atacante do Guarani e do São Paulo.

Vã tentativa. fazer gols como o Careca era impossível para um cara como eu, dono de um estilo tosco e desajeitado. Torci para que ele curasse do joelho em 82. Não deu. Naquela seleção inesquecível de Telê faltou meu ídolo. Chorei quando Paulo Rossi nos tirou o tetra, mas meu choro já vinha de antes.

Quis ser muita gente boa de bola. Estive no Canal 100 dando dribles como o Garrincha. Fui Falcão liderando a Roma no título de 80. Vesti vermelho e preto para ser Zico. Fui o artilheiro mineiro Reinaldo. Internacionalizei meus sonhos para ser Maradona e Platini.

Só não tive a pretensão de ser Pelé. Nem em sonhos eu conseguiria. Passei dos 40. Minhas flácidas e meu diminuto fôlego me impedem de tentar fazer algo parecido com o que meus ídolos faziam.

Os sonhos já não são tão fantásticos porque já não estou mais neles. Sonho em preto e branco.Sonho com um estádio que leva o nome de uma vila, um time vestido todo de branco e figuras negras fazendo mágicas.

Sonho com um tiro de Paulo Borges de fora da área, a explosão de um Pacaembu comemorando o fim de uma era de suplícios, o fim de um tabu. Sonho em múltiplas cores. No meu sonho desfilam meio-campistas de times históricos: Andrade, Adílio e Zico; Piaza, Zé Carlos e Dirceu Lopes; Dudu e Ademir da Guia; e Clodoaldo e Gerson.

Vagueio entre datas nada cronológicas. Abro espaço para Romário, Ronaldo e Rivaldo. A bola rola. O tempo e o lugar não são tão importantes. Por isto, eu sou o espírito do futebol. Sou onipresente.

Não tenho cores definidas, portanto, não tenho adversários. Sou o amor e a alegria que impulsionam a bola através dos tempos. Sou o garoto de sempre, que faz da inconstância na admiração uma forma de homenagear os mestres da bola. Sou o garoto de todas as idades que eterniza o futebol.

(Do livro Da minha janela, publicado em 2003)

Maringá - Imagens que contam a história

Maringá-PR, começo dos anos 1960, quando a Catedral começou a ser construída. Ao lado, um circo. Na avenida XV de Novembro, esquina com a Getúlio Vargas, que se chamava Ipiranga, o Edifício Maria Teresa em construção. No alto dá para ver o Estádio Willie Davids, ainda sem as arquibancadas, com eucalíptos atrás. A Zona Sete, à direita, é só mata. Foto de Kenji Ueta

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A história do Sport Club Corinthians Paulista

Time do Corinthians, campeão Paulista de 1914: primeiro título de uma história de glórias
Os moradores do bairro de Bom Retiro, em São Paulo, assistiram, em 1910, de certa forma reconfortados, a polícia fechar o Botafogo, clube que jogava partidas de futebol num terreno baldio da rua José Paulino. Ao final de cada jogo, ganhando ou perdendo, os integrantes do Botafogo se engalfinhavam com os adversários e ninguém, pelas redondezas, tinha sossego.
De todos, os mais tristes com o desaparecimento do clube eram Antônio Pereira, pintor de paredes, Joaquim Ambrósio, Carlos da Silva, Rafael Perrone e Anselmo Correia, os quatro últimos funcionários da São Paulo Railway. Afinal, eles jamais participavam de brigas.
Gostando de futebol, mas sem time para praticá-lo, os cinco amigos ficaram satisfeitos quando souberam que o Corinthians Team, da Inglaterra, viera jogar em São Paulo, depois de golear impiedosamente as equipes cariocas.
E foi depois de assistirem a vitória dos ingleses sobre o Palmeiras, no Velódromo, que eles tomaram a decisão de formar um clube. A primeira reunião realizou-se na noite do dia 1º de setembro de 1910, debaixo de um lampião a gás da rua José Paulino. O clube fora fundado mas não tinha nome.
No dia 5, na barbearia de Salvador Bataglia, que aderira ao grupo, Antônio sugeriu um nome que foi aprovado por todos que participavam da segunda reunião: Sport Club Corinthians Paulista. O primeiro treino do Corinthians só pôde ser realizado no dia 14 de setembro, pois os sócios do clube encontraram algumas dificuldades em arranjar os seis mil réis que custava a bola.
O uniforme, na falta de outro, ficou sendo o mesmo do extinto Botafogo: camisas azuis, com listras brancas finas e verticais. O primeiro jogo foi uma decepção. O União, dono de um time respeitável, derrotou o Corinthians por 1 a 0. O segundo, porém, contra A Atlética Lapa, marcou a sua primeira vitória: 5 a 0.
E foi a partir desse dia que o Corinthians passou a usar a sua camisa branca, com golas e punhos pretos. Com ela, o Corinthians estreou no Campeonato Paulista, em 1913, para enfrentar os temidos times da Liga e se tornar, anos depois, um dos clubes de maior torcida do Brasil. O primeiro título conquistado foi o Paulista de 1914.
(Fonte: A História Ilustrada do Futebol Brasileiro – volume 2 – Edobras – Editora Documentação Brasileira – 1969)

Seção Bola Velha - Equipe Esportiva da Rádio Atalaia - 1995


20 de agosto de 1995 - matéria do jornal O Diário do Norte do Paraná. Equipe esportiva da Rádio Atalaia de Maringá: Luiz Fabretti, Cezar Luiz, Antonio Roberto de Paula, Camilo, Sérgio Gini, Hamilton Cardoso (em pé); Antonio Borges, Ananias Rodrigues e Eli Silva (agachados).
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terça-feira, 14 de abril de 2009

Seção Bola Velha - Chácara do Augusto Robélio de Paula

9 de março de 2008 - Chácara do Augusto Robélio de Paula, em Maringá-PR. Alguns boleiros deste grupo jogam juntos há pelo menos 20 anos. Augusto é o de colete vermelho número 2 e o garoto ajoelhado olhando para ele é o Danilo, seu filho mais novo. O Caio, irmão do Danilo e meu afilhado, é o que está com a camisa do Galo
Clique na foto para ampliar

Seção Bola Velha - PM e Imprensa


Dia 6 de dezembro de 2006, no Estádio Willie Davids, em Maringá. Time formado por policiais militares e profissionais da imprensa. O que está agachado próximo do PM fardado é Osler Colombari, que não é militar e nem milita na imprensa. Ele é proprietário do MPB Bar

Seção Bola Velha - Glória isolada

Grêmio de Esportes Maringá, campeão Paranaense de 1977: Wagner, Assis (falecido), Celso, Didi (falecido), Nilo e Albérico. Agachados: Freitas (falecido), Ferreirinha, Itamar, Nivaldo, Marquinhos e o massagista Bombinha (falecido)


Falta para o Grêmio no bico da grande área. A equipe maringaense perde por 1 a 0 para o Coritiba, no Couto Pereira, na decisão do Campeonato Paranaense de 1977. Itamar cobra a falta, gol do Galo. Final: 1 a 1. Grêmio campeão. Na tarde de 2 de outubro, o torcedor maringaense comemorava o título sem imaginar que seria o último.

Uma campanha histórica, ainda mais marcante porque quase nada aconteceu depois disso. Veio o vice de 81 e títulos da Intermediária. Mas quem valoriza vice? Ainda mais que o campeão foi o Londrina! E chegar em primeiro na segunda divisão não é motivo para comemorar. É obrigação.

Quem não viu, perdeu, não verá jamais. O Galo tinha um time de primeira. Fazia frente pra qualquer outro. Nilo e Celso, dois excelentes zagueiros. O meio-campo era o ponto alto: Didi, Nivaldo e Ferreirinha. Didi era o craque, o mestre, o maestro. Foi o jogador mais habilidoso que eu vi vestindo a camisa do Grêmio.

Nivaldo tinha uma canhota fortíssima e sabia fazer lançamentos. O franzino Ferreirinha era o pulmão da equipe. Corria e marcava por ele, pelo Didi e pelo Nivaldo. No ataque, o pontinha Freitas, veloz e atrevido. Não era de finalizar, mas ótimo puxador de contra-ataques e bom nos passes e cruzamentos. Itamar comandava o ataque, um emérito goleador, bom de pé direito, esquerdo e pelo alto.

No gol, Wagner fazia seus milagres. Assis, Albérico, Cleber, João Marques, Bernardo e Marquinhos eram os coadjuvantes: pouca inspiração e muita vontade. E Wilson Francisco Alves, o Capão, no comando. Um time que ficou na memória da torcida, que naquela época lotava o Willie Davids.

O presidente Marcos Pena, tendo na retaguarda o prefeito João Paulino, contou com inúmeros companheiros na campanha. Um pessoal que arregaçava as mangas. A imprensa cobrava demais. Ela foi o fator decisivo para que a diretoria reforçasse o time na repescagem.

Era um esquema imediatista, sem pensar no futuro, que acabou dando certo. Vários componentes positivos redundaram na conquista, mas infelizmente não houve planejamento. No entanto, aquela glória isolada do Grêmio de Esportes Maringá jamais será esquecida.

"Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o pra sempre, sempre acaba. Mas nada vai conseguir mudar o que ficou..."

(Texto de Antonio Roberto de Paula, originalmente publicado no Jornal do Povo, em 1997, e depois no livro Da minha janela, 2003)

quinta-feira, 19 de março de 2009

A HISTÓRIA DA FOLHA DO NORTE DO PARANÁ ESTÁ CONTADA AQUI, EM 68 CAPÍTULOS

Capa do primeiro livro online de Maringá-PR: "O Jornal do Bispo - A História da Folha do Norte do Paraná"

quarta-feira, 18 de março de 2009

Livro: "O jornal do Bispo" - AGRADECIMENTOS E BIBLIOGRAFIA

Entrevistados
Adriano Valente
Antonio Augusto de Assis
Dom Jaime Luiz Coelho
Elpídio Serra
Frank Silva
Gumerciando Carniel
Henri Jean Viana (Francês)
João Paulino Vieira Filho
Joaquim Dutra
Joel Cardoso
Jorge Fregadolli
José Antonio Moscardi
José Aparecido Borges
Messias Mendes
Moraci Jacques
Tatá Cabral
Osvaldo Lima
Reginaldo Benedito Dias
Verdelírio Barbosa
Walter Poppi
Wilson Serra

Profissionais que fizeram fotos para o livro
Henri Júnior
José Roberto Furlan
Nelson Jaca Pupin
Tabajara Marques

Transcrição da gravação dos entrevistados, pesquisa e consultoria
Simone Labegalini (TV Clipping)

Fotos e reproduções cedidas
Ademir Kimura (www.maringa.com)
Gumercindo Carniel
José Aparecido Borges
Kenji Ueta
Laércio Nickel Ferreira Lopes (reprodução de fotos do Museu Diocesano)
Osvaldo Lima
Walter Poppi
Jornal do Povo
O Diário do Norte do Paraná
RPC – Rede Paranaense de Televisão
Revista Conexão

Pesquisa de jornais, fotos e documentos
Arquidiocese de Maringá (Museu Diocesano)
Câmara do Município de Maringá
2º Cartório de Registro de Imóveis, Títulos e Documentos
Junta Comercial do Paraná
Prefeitura do Município de Maringá

Apoio na pesquisa
Ercílio Santinoni
Hélio Baiardi Oliveira
João Amaro Faria

Autorização para utilização do artigo
de Aramis Millarch e charge (capítulo 53)
Francisco Millarch
Tablóide Digiatal

Apoio na atualização de textos e pesquisa
Guilherme Tadeu de Paula

Revisão de texto
Sara Cristina Barreto Maia

Transferência do ZIP (compactador de arquivos) para CD
Marcleibert Natali "Pitico" (MPS Informática)

Arte da capa, consultoria e layout do blog
Marcelo Carvalho (Factory)
Leonardo Viana (Factory)

Orientadores
Cibele Abdo (Cesumar)
Gilson Aguiar (Cesumar)

Divulgação do livro online na imprensa
Andye Iore
(O Diário do Norte do Paraná)
Ângelo Rigon
(http://www.blogdorigon.blogspot.com/)
DJ Carlos J. Silva
(http://www.radarmaringaemdestaque.blogspot.com/ )
Danyani Rafaella
(Jornal do Povo)
Deny Leandro
(http://www.maringamais.com.br/)
Edson Lima
(Coluna Dia-a-Dia – O Diário do Norte do Paraná)
(www.odiaariomaringa.com.br/edsonlima )
Edivaldo Magro
(Hoje Maringá)
Elci Nakamura
(Rádio CBN Maringá)
Jary Mércio
(O Diário do Norte do Paraná)
Leonardo Filho
(http://www.blogdoleonardofilho.blogspot.com/ )
Luiz Fabretti
(Paraná Notícias - TV Maringá - Band)
Marcelo Bulgarelli
(RIC – TV Record,
(http://www.bardobulga.blogspot.com/)
Messias Mendes
(http://www.messias-mendes.blogspot.com/)
Michelle Thomaz
(RIC – TV Record)
Milton Ravagnani
(O Diário do Norte do Paraná)
Ronaldo Nezo
(Rádio CBN Maringá)
(http://www.blogdoronaldo.wordpress.com/)
Samuel Ferreira
(Jornal Hoje Maringá)
Tatá Cabral
(Jornal do Povo)
Tarcila França
(Jornal Hoje Maringá)


BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Arthur. Maringá: ontem, hoje e amanhã. Maringá:[s.n.], 1979.

DIÁRIO OFICIAL. Curitiba, 15 mai. 1962, p. 11-12.

DIAS, Reginaldo Benedito; TONELLA, Celene. A experiência do Legislativo Municipal em Maringá: 1947/1998. Maringá: Câmara Municipal de Maringá, 1999.

DIAS, Reginaldo Benedito; GONÇALVES, José Henrique Rollo (Org.). Maringá e o Norte do Paraná: estudos de história regional. Maringá: EDUEM, 2001.

DIAS, Reginaldo Benedito. Os trabalhadores e a esquerda na resistência à ditadura militar: a greve geral de outubro de 1968 em Maringá. In: ______. _______. Maringá: EDUEM, 2001.

PRIORI, Ângelo. Lutas sociais e conflito político: alguns temas da história de Maringá( o II Congresso de Trabalhadores Rurais e a formação da frente agrária paranaense. In: DIAS, Reginaldo Benedito; GONÇALVES, José Henrique Rollo ( Org.). Maringá e o Norte do Paraná: estudos de história regional. Maringá: EDUEM, 2001.

RABAÇA, Carlos Alberto; BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de comunicação. São Paulo: Ática, 1987.

Livro: “O Jornal do Bispo” Capítulo 68 (Último) – COM A PROTEÇÃO DA CATEDRAL, NO CORAÇÃO DOS MARINGAENSES E NA HISTÓRIA

São mais de cem degraus, escadarias em forma de caracol. Um concreto opressor. O ambiente é de penumbra até chegar ao quarto piso. Ali está localizado o Museu Diocesano, inaugurado em 2000.

As visitas são raras. Muitos fiéis sequer sabem da sua existência. O acesso é difícil e a direção da Catedral parece não fazer muita questão de expor as relíquias diocesanas.

O vigia dá plantão no térreo, no portão de entrada para a escadaria, mas a autorização para subir só é obtida na secretaria. Além da chave na porta do museu, foi colocado um alarme. Não há grandes atrativos no local, que bem poderia levar o nome do 1º arcebispo de Maringá.

Dom Jaime deixou o comando da Arquidiocese de Maringá em 1997, mas ainda está muito presente. Vestimentas sacerdotais, livros, anéis e moedas estão devidamente protegidos por grandes vitrines.

As condecorações e fotos, muitas fotos do bispo, em vários momentos de sua vida em Maringá, tomam conta das paredes. O primeiro exemplar da Folha do Norte do Paraná está fixado num cavalete.

No estreito Museu Diocesano, e também curvo, pois a Catedral tem o formato de cone, dom Jaime conta só um pouco da sua história que é a própria história da Diocese e agora Arquidiocese de Maringá. Boa parte dos títulos, homenagens e comendas, inscritos em belos pergaminhos, está na Residência Episcopal, na Zona 5, onde mora o arcebispo.

Também no quarto piso da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória, quase ao lado do museu, foi reservada uma área para que fossem colocados documentos complementares da Igreja, álbuns de fotografias de dom Jaime, de eventos e atividades da Arquidiocese e exemplares da Folha do Norte do Paraná.

O silêncio é quase total. Enormes vidros abrem passagem para a claridade. Encanta o visual composto pelo verde misturado ao concreto. É até possível desligar-se para se concentrar nas décadas de 1960 e 1970.

Ali repousa uma história de 17 anos que ainda não foi contada em sua totalidade e certamente nunca será. Era preciso buscar detalhes para amarrar a história e recolher fragmentos para elaborar a síntese. Tentei elaborá-la. Escolher o fio condutor que chegasse ao objetivo para não se perder no emaranhado de situações não determinantes foi o desafio.

No armário de madeira de cinco metros de comprimento por dois de altura encontra-se, disposta em 80 volumes, encadernada em azul e em ordem cronológica, grande parte das edições do jornal do bispo. Abri as páginas para conhecer mais profundamente essa história e contá-la com o máximo de fidelidade e respeito a todos que dela fizeram parte.

Era necessário unir este bruto material ao relato dos personagens responsáveis pelas obras diárias de 1962 a 1979. Uma parte respaldando a outra. Foi o que busquei nesta pesquisa.

Nas páginas amarelas e que vão se partindo pelo tempo é quase possível conhecer o sentimento de uma cidade, de um povo, de uma época. Este trabalho me fez enxergar uma outra Maringá, diferente daquela dos meus tempos de criança, adolescência e juventude.

Nomes de autoridades, empreendedores e profissionais da imprensa que até então eram simplesmente nomes, adquiriram contornos, relevância. Excetuando alguns personagens que, por força de suas obras e cargos, marcaram sua passagem, os demais eu os tirei da superficialidade, destinando-lhes um espaço bem maior de reconhecimento.

Conheci o papel de cada um no contexto de uma época e passei a ter um respeito maior por suas ações. Eles foram agentes ativos, atuando no poder público, no empreendedorismo e na imprensa, contribuindo para o desenvolvimento de Maringá.

Página virada. A Folha do Norte ficou para trás, cumpriu sua missão e hoje é peça de museu. Mas não ficará somente arquivada porque ela ainda vive no coração dos maringaenses que tiveram o privilégio de folhear suas páginas. E vai continuar vivendo porque, em qualquer tempo, quando se falar da história da imprensa do Paraná, o Jornal do Bispo será sempre lembrado.

terça-feira, 17 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 67 – QUEM PARIU MATEUS QUE O EMBALE

Só depois de 20 anos é que foi virada a última página da Folha do Norte do Paraná. O jornal foi fechado em 1979, mas dom Jaime só conseguiu dar baixa na sociedade em 1999. A demora, segundo o arcebispo, ocorreu por falta de documentos. Em 2001, o nome "Folha do Norte do Paraná" estava à disposição de quem quisesse utilizar, afirmava dom Jaime.

“Ainda queriam que eu ficasse com o nome Folha do Norte. Nós tínhamos propriedade do título, mas não interessa guardar este nome. Se alguém quiser abrir, pode. Nós encerramos a sociedade inteiramente.”

Para encerrar a sociedade, dom Jaime usou novamente do seu poder de influência e liderança. Os acionistas que, em sua maioria, entraram no negócio mais como uma forma de atender o então bispo, nada tiveram de retorno. O negócio mudou de mãos e os acionistas se tornaram colaboradores.

Da Diocese para Dutra, de Dutra para Fregadolli e de Fregadolli de volta para a Diocese. A grande Folha do Norte do Paraná havia se tornado um trambolho nas mãos de dom Jaime. Conforme o dito popular, “quem pariu Mateus que o embale”. E lá foi o responsável cuidar do espólio, pedir aos acionistas que passassem as ações para a Diocese.

“A finalidade foi a construção do Seminário. E a maioria, quase a totalidade dos acionistas, todos eles não tinham interesse também em dinheiro, que nem havia dinheiro para dar para eles. A única coisa que sobrou foi uma máquina impressora que eu vendi na ocasião não sei se por 500 cruzeiros. E foi colocado o dinheiro numa caderneta e aquilo foi rendendo, rendendo e quando, agora, terminou, aí conseguimos ter a maioria das ações, conseguimos os documentos necessários que era pedido em Curitiba. Sobraram, se não me engano, ultimamente, menos de R$ 10 mil. Foi dado ao Seminário. Uma colaboração desses acionistas que compraram as ações, que tinham em vista ajudar o Seminário.”


(Nota do autor: este depoimento de dom Jaime é de 2001. Hoje, o título “Folha do Norte do Paraná” está registrado no Instituto Nacional de Propeiedade Industrial em nome do jornalista Ângelo Rigon, desde 11 de novembro de 2008, com o número de propriedade 901301930)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 66 – A LIDERANÇA PERDIDA, O OCASO E O NOME NA HISTÓRIA

Na década de 1960 e no início dos anos 1970, a Folha tinha poucos concorrentes. O Jornal de Maringá se limitava a uma circulação doméstica e os jornais da Capital não tinham grande penetração na região.

A Folha do Paraná, então Folha de Londrina, era quem fazia esta concorrência, mas o espaço destinado a Maringá e às cidades da região era bastante restrito. Nos anos 1970, os jornais curitibanos começaram a intensificar o trabalho no interior.

Frise-se também o fato de publicações começarem a surgir nas demais cidades. É necessário acrescentar ainda que a televisão engatinhava. A Rede Globo instalou sua afiliada em Maringá em 1975, justamente no período em que a Folha começou a agonizar.

A televisão passou a ser a primeira mídia. Os donos de jornais tiveram que se enquadrar num espaço mais reduzido. Para isto, tiveram que se modernizar, oferecer mais atrações.

A Folha do Norte se manteve no artesanato. Com a disseminação dos órgãos de comunicação, criou-se inúmeras alternativas para a população, que passou a ver o jornal do bispo como mais um.

É importante sempre destacar que a Folha do Norte contribuiu para o progresso da cidade. A propaganda diária de Maringá em suas páginas, sobre os mais variados colaborou, certamente, no desenvolvimento da Cidade Canção. Pode não ter sido um fator determinante, mas a grande maioria das pessoas envolvidas com o jornal faz este registro.

Em linhas gerais, a Folha do Norte do Paraná pode ser definida como um jornal que nasceu para ser grande, mas não se modernizou. Foi criada para defender e propagar os dogmas da Igreja.

Com Dutra, ela se tornou empresarial, mas continuou atrelada ao poder. Na década de 1970 foi engolida pela modernidade. Contudo, diante de tanta representatividade, qualquer pesquisa, estudo ou análise que se faça sobre a imprensa de Maringá e a regional, é preciso incluir, necessariamente, a Folha do Norte do Paraná.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 65 - MARINGÁ AVANÇOU, A FOLHA DO NORTE FICOU

Para uma compreensão mais ampla do que representou a Folha do Norte do Paraná para o jornalismo maringaense e da região e para a própria cidade é necessário se situar no início da década de 1960.

Maringá era uma cidade em franco desenvolvimento. Empresas dos mais variados segmentos começaram a ser instaladas, fator que atraía profissionais de toda ordem para a cidade.

A fundação da Folha fez parte deste processo. A proposta era a de um jornal moderno, que criaria um divisor de águas na imprensa da cidade: antes e depois da Folha.

Conjectura-se que se a idealização do projeto Folha do Norte tivesse sido de um grupo empresarial, Maringá teria hoje um jornal com representatividade similar a uma publicação nacional.

Ocorre que os objetivos iniciais não estavam centrados em faturamento. Dom Jaime tinha como meta lançar um jornal que fosse porta voz da Igreja. Através da Folha, o bispo tinha intenção de integrar as paróquias das cidades da região e fortalecer a fé cristã contra o comunismo.

A venda das ações, que deu o respaldo para que o projeto fosse colocado em prática, se revelou inviável em menos de dois anos de funcionamento do jornal. Por incapacidade administrativa dos padres, que não estavam afeitos às nuances de uma empresa jornalística, a Folha por pouco não sucumbiu. Isto só não aconteceu porque entra na história Joaquim Dutra com seu espírito empreendedor.

Não há como contestar esta afirmativa porque foi a partir de Dutra que a Folha conseguiu se firmar e só passou a entrar em decadência após sua saída no final de 1973. Depois do período Dutra, em que pese todo o esforço dos diretores que o substituíram, a Folha foi diminuindo seu poder de fogo até se apagar em 1979.

Por mais de 10 anos, a Folha foi líder em Maringá e região. A chegada de O Diário coincidiu, ou talvez não tenha sido coincidência, com início do enfraquecimento da Folha.

À medida que O Diário se firmava, a Folha ia perdendo terreno. Ela ficou no tempo, não se modernizou. O tiro de misericórdia foi disparado por dom Jaime, que ganhou na Justiça o direito de ficar com o jornal para poder fechá-lo.

A liderança da Folha não pode ser explicada pelo fato de ela possuir uma linha editorial que fosse ao encontro dos interesses dos leitores. Salvo raras exceções, era uma linha “chapa-branca”, tutelada por dom Jaime. Se dependesse de um espírito vanguardista pra sobreviver, o jornal não teria sequer entrado na década de 1970. Como aconteceu com tantos que não cerraram fileiras com o governo militar.

Também não é possível creditar unicamente à equipe de redação esta liderança. Apesar do alto nível de grande parte destes profissionais, o engessamento na produção de reportagens os impedia de mostrar toda a sua capacidade. Em muitas oportunidades, o trabalho não diferia muito do que era realizado em publicações de menor porte de Maringá e região.

Antonio Augusto de Assis afirma que a Folha do Norte tinha um diferencial. Ele reforça que a Folha do Norte era popular pelo trabalho realizado pela Diocese, mas acrescenta um dado fundamental para explicar essa popularidade: o “maringaísmo”, que era exercitado nos editoriais.

Os editoriais da Folha, que, ao lado dos memoráveis artigos de dom Jaime, deixavam bem nítidas as principais razões de existir do jornal: a defesa da ética cristã e a luta pelos interesses da região de Maringá, aquela paixão que a gente chamava de "maringaísmo". Foi um lindo sonho, que enquanto durou foi muito útil a Maringá e a toda esta região. Agora é história. Que bom que recordada com saudade.

Portanto, para compreender esta liderança é preciso levar muito em conta o fato de que o jornal tinha uma grande penetração em Maringá e região porque seus propagadores eram os padres das paróquias e havia o empenho em divulgar a Cidade Canção.

Esta estrutura da Diocese permaneceu inalterada mesmo depois da saída dos padres da redação. Os diretores seguintes liam a cartilha do bispo e eram maringaenses empenhados no desenvolvimento de sua cidade. Um outro aspecto, tão importante quanto os citados, era a pouca concorrência que Folha enfrentava.

sábado, 14 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 64 - O QUE REPRESENTOU A FOLHA DO NORTE NA VISÃO DE QUEM ESTEVE INTIMAMENTE LIGADO AO JORNAL

Adriano Valente:
“A Folha do Norte foi uma iniciativa que teve uma grande repercussão em Maringá. E essa repercussão se deve à época em que os jornais tinham grande dificuldade de se expandir e de se manter, de maneira que a Folha veio para preencher esse vácuo. Não foi uma coisa imediata porque jornal é uma indústria complexa. Depois que a Folha começou a se desenvolver, começou a ter uma influência fundamental para a região e em benefício do desenvolvimento de Maringá.”

Dom Jaime:
“Ela foi bem acolhida no começo. Era um jornal muito sério. E por ser um jornal sério nós tivemos de fechá-lo. A gente queria implantar o bem no norte do Paraná. Nada de partido político, essas coisas, nada disso.”

José Antonio Moscardi:
“A Folha do Norte dava sua contribuição sendo um jornal sem uma linha editorial definida, era um jornal que fazia um jornalismo bem amador, não tinha uma definição editorial. Era eclética, mas ajudou no seguinte sentido: era o que tinha no momento até 74, quando surgiu O Diário, mas até aí era quem norteava os rumos da comunidade junto com as rádios. Era uma referência. A Folha chegou? A Folha falou isso? Muito mais no âmbito da divulgação simplista do que como formadora de opinião.”

Tatá Cabral:
“Ela revolucionou. A gente só conhecia a Tribuna de Maringá e O Jornal de Maringá. A Folha veio com um sistema de impressão moderno, uma equipe muito boa. Ela foi fundamental. Foi a maior revolução até chegar O Diário porque a Folha se transformou no O Diário. Até chegar O Diário, foi a melhor coisa que tivemos na imprensa maringaense.”

Joaquim Dutra:
“A Folha do Norte eu gravo com admiração porque foi um jornal sério. Naquele tempo em Maringá tinha diversos jornais, mas a maioria era de picaretas. A Folha do Norte sempre foi um jornal muito sério, muito responsável.”

Elpídio Serra:
“Se você pegava na época a Última Hora, o logotipo, as cores e a distribuição de diagramação e pegava a Folha do Norte era a mesma cor, um azulzinho turquesa. Qual a idéia? Não vou dizer que veio do dom Jaime, mas de quem estava junto com dom Jaime: era colocar nas bancas os dois jornais lado a lado. Quem estava para comprar a Última Hora, por engano, talvez comprasse a Folha do Norte. E ela circulava em Maringá, Londrina, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, circulava no Brasil inteiro.”

Messias Mendes:
“A Folha do Norte era mais ou menos o que é O Diário hoje para Maringá. Era bem vendida e tinha muitos assinantes. Era uma empresa sólida, bem administrada, bem pé no chão. Depois do segundo arrendamento parece que ela enfraqueceu um pouco. O jornalismo da época era uma coisa mais gente. E o poder de influência também. Hoje, a televisão tem um poder de influência muito forte, mas é aquela imprensa volátil. Hoje a televisão faz uma matéria que influencia e tal. Naquela época, não, uma matéria que causava um tipo de influência na comunidade, ela ia longe. A discussão ia longe. A comunidade tomava partido. Então, o jornal tinha um peso.”

Wilson Serra:
“A Folha foi um grande avanço tecnológico. Ela contribuiu para a consolidação de Maringá como pólo regional. Enquanto O Jornal restringia sua circulação apenas a Maringá, a Folha abriu a circulação regional, em quase todo o norte e noroeste do Estado, levando para quase uma centena de cidades as notícias de Maringá. Tinha correspondentes e bases de circulação em várias cidades.”

João Paulino:
“Foi um investimento feito pela Mitra Diocesana, com dom Jaime à frente. Esse jornal nasceu grande, promissor. Foi um veículo importante para Maringá e região pela influência da Diocese e isso centralizou em Maringá este grande núcleo que está aqui. Foi um dos alicerces da imprensa com o trabalho do dom Jaime, a quem nós devemos elogiar e agradecer pelos feitos. Ele também foi pioneiro na televisão com Samuel Silveira e Joaquim Dutra.”

Verdelírio Barbosa:
“Era um senhor jornal, um jornal de respeito, de peso, circulava praticamente em toda a região. Mas não vejo a influência da Folha no desenvolvimento de Maringá. Até porque foi um jornal que circulou pouco tempo. Ele teve peso na comunicação. A verdade é que o desenvolvimento de Maringá a gente deve para o nosso povo.”

Moracy Jacques:
“Apesar de ser pequena, a Folha do Norte era um bom jornal. Atraiu muita gente da região. Foi o órgão oficial de 30 a 40 municípios, então esse pessoal vinha todo para Maringá.”

Jorge Fregadolli:
“A Folha do Norte abriu esta cidade, foi a mãe desta cidade. Realmente projetou esta cidade, deu uma expansão muito grande. Eu acredito que em 80% cento do crescimento de Maringá a Folha do Norte tem participação porque ela divulgava tudo o que era coisa boa, levava o nome de Maringá para todos os quadrantes.”

Antonio Augusto de Assis:
“Foi um marco no jornalismo aqui e creio que também uma grande escola de jornalismo. O primeiro grande jornal de importância em Maringá foi O Jornal de Maringá. E, logo em seguida, a Folha do Norte.”

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 63 – FOLHA DO NORTE: ÍCONE PARA PROPAGAR MARINGÁ

Não há vozes discordantes quando se fala na importância da Folha do Norte do Paraná para a cidade. Algumas declarações são até exageradas, outras tendem a diminuir esta importância do jornal para o crescimento da cidade, mas destacam o grande significado para a imprensa regional.
O certo é que o jornal do bispo foi, na maior parte da sua existência, principalmente no comando de Joaquim Dutra, o mais representativo da cidade e da região. Se a Folha não foi a força motriz do desenvolvimento de Maringá, foi o ícone para propagá-la de 1962 até meados da década de 70.

Por ser um pólo regional, Maringá sempre esteve posicionada entre as cidades paranaenses na vanguarda dos acontecimentos políticos, ainda que seus homens públicos não tenham, na maioria das vezes, acompanhado esta liderança e evolução.

Mesmo com uma posição unilateral, intransigente em defesa do governo do Estado, salvo Moysés Lupion, e com vistas grossas à maior parte das administrações municipais, a Folha deu sua contribuição à cidade e à região.

Mesmo omissa nas discussões de relevância social, a Folha não foi apenas porta-voz da Igreja, ela atraiu para Maringá empreendedores e trabalhadores de toda ordem, visitantes e compradores. Em função de sua penetração, a Folha foi uma das responsáveis pela manutenção de Maringá na liderança da região.

O jornal trabalhou na divulgação do comércio da cidade, das opções de entretenimento, do Grêmio Esportivo Maringá e do Grêmio de Esportes Maringá, da Universidade Estadual de Maringá e de tantas outras entidades públicas e privadas. Os homens diretamente ligados à Folha reconhecem esta força.
No Museu Diocesano, o primeiro exemplar da Folha ocupa lugar de destaque
(Foto: José Roberto Furlan)

sexta-feira, 13 de março de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 62 – POR QUE A FOLHA DO NORTE FECHOU?

Por que a Folha fechou? Porque não se modernizou, porque surgiu O Diário, porque dom Jaime já não tinha interesse em mantê-la, porque a disseminação de outros órgãos de comunicação a deixou enfraquecida, porque a última administração não conseguiu torná-la auto-sustentável ou por tudo isto, por este conjunto de fatores.

Nos depoimentos, é possível encontrar as explicações. Cada um dos que tiveram relação com a Folha do Norte tem análises próprias, mas, em sua maioria, convergentes. As razões do jornal ter encerrado as atividades estão interligadas.

Dom Jaime avalia que o fechamento ocorreu devido à seriedade do jornal, negando que tenha desistido porque já não era tão importante para a Diocese ter uma publicação como no início dos anos 1960:

“O que comprometeu a Folha foi a linha da Folha. Nem pra lá, nem pra cá, nem no centro. Nada de bandalheira pra cá, nem de bandalheira pra lá. A gente queria um jornal sério. O que comprometeu a Folha do Norte foi a sua seriedade. Não é que viesse um outro jornal para combater, não. Nós nunca quisemos combater ninguém, imprensa, nada disso.”

Para Antonio Augusto de Assis, a Folha parou no tempo e, mesmo que se modernizasse, não haveria espaço para ela e para O Diário. Assis acrescenta ainda o desinteresse de dom Jaime:

“Fechou porque ela defasou. O equipamento dela era antigo e ficou economicamente inviável. Ninguém tinha dinheiro para pôr máquinas novas lá. A cidade também não comportava dois jornais modernos. Já tinha O Diário com equipamento novo. E a Folha com aquele museu lá, não dava. Ela foi moderna quando se instalou, mas em poucos anos ficou superada pelos novos equipamentos. E o bispo não tinha mais interesse em investir ali e os arrendatários não tinham recursos para investir também.”

O substituto de Frank Silva na Folha do Norte, Joel Cardoso, chegou a Maringá no início dos anos 1970, vindo de São José dos Campos. Na Folha ele iniciou sua carreira na imprensa da cidade. Começou trabalhando como “foca”, atuou como repórter policial, editoria local e finalmente assumiu a vaga de colunista social. Para Joel, a Folha sucumbiu diante da competitividade com outros jornais:

“Na década de 60 e início da década de 70 o domínio editorial era da Folha. Um jornal forte, que tinha como principal trunfo o fato de ter como diretor-presidente o bispo dom Jaime Luiz Coelho. Por vários fatores, inclusive por uma tentativa frustrada vendendo ações para a busca de recursos de modernização, o jornal acabou sendo terceirizado para a Editora Gráfica 10 de Maio. Na seqüência, outros jornais apareceram em Maringá e região com recursos modernos e a competitividade parece ter sido fatal para a continuidade da Folha do Norte do Paraná.”

José Antonio Moscardi culpa o desinteresse da Igreja, leia-se dom Jaime, e os conflitos entre a Diocese e direção da Folha:

“Eu acho que a Folha fechou justamente por causa da presença majoritária dela. A Igreja não tinha interesse em investir pesado na Folha do Norte para a compra de equipamentos, mesmo porque era tudo obsoleto, como linotipo, calandra. Para reverter este quadro, tinha que repensar tecnicamente 100 por cento. Jogar tudo fora e fazer o que O Diário fez. E a Igreja não tinha esse tipo de interesse. O Jorge Fregadolli, que era o gestor máximo da Folha, não tinha interesse em fazer grandes investimentos porque não estava investindo no que era dele. Por que faria isso, né? Então, ele foi levando até onde achava que dava, depois houve conflito político, uma coisa bem paroquial. Os conflitos entre a Igreja e a gestão da Folha é que determinaram o fechamento dela.”

Messias Mendes não vê relação entre o surgimento do O Diário e o fechamento da Folha:

“A Folha não se modernizou. Eu sei que depois que o Dutra e o Assis deixaram a Folha, ela caiu nas mãos do Jorge Fregadolli e ele não tinha assim tanta estrutura. A Folha se enfraqueceu. Para ela acompanhar a evolução do mercado e para ser o que é O Diário hoje, teria que ser modernizada com off-set, informatizada. Isso exigia investimentos muito grandes. Agora, porque não se aproveitou a estrutura da Folha do Norte para se fazer o que foi feito no O Diário aí é um problema que eu não sei. Não sei se a Mitra estava por trás disso, se não houve nenhum interesse em evoluir, parar por ali mesmo. Eu sei que para a época, a Folha do Norte teve um peso tão grande, às vezes maior que tem O Diário hoje.”

Wilson Serra analisa a questão desde o início da fundação. Para ele, foi dado “um passo maior do que a perna”:

“O jornal sempre teve problemas de gestão administrativa. Ele nasceu com o oneroso objetivo de concorrer com o Última Hora. Para concorrer com um dos principais jornais do País era preciso muito investimento. Foi um passo maior do que a perna e o jornal fechou temporariamente. Foi reaberto por Dutra e pelo Assis. Foi, certamente, a melhor, quem sabe a única, época empresarial do jornal e, portanto, a mais sólida, e mais estável. Entretanto, e também não sei quais os motivos, Dutra abandonou a sociedade para abrir um novo jornal. Sem a visão empresarial de Dutra – Assis era um jornalista e poeta, sem sequer um novo investimento tecnológico desde a sua fundação, a Folha foi cedendo espaço para O Diário, já impresso em off-set. Acabou fechando.”

A concorrência de um contraponto editorial e a falta de um perfil empresarial definido foram, para Reginaldo Benedito Dias, as possíveis causas do fechamento:

“Não posso assegurar, mas especular algumas hipóteses. A primeira é que talvez a linha editorial de O Diario tenha se mostrado mais atraente em um mercado que não permitia muitos concorrentes. Então esse era um aspecto, o contraponto editorial. Outro aspecto que merece ser investigado é que, pelo que consta, a Folha do Norte não tinha o perfil empresarial muito profissionalizado. Então, talvez Maringá precisasse de um jornal com um perfil empresarial mais definido.”

Verdelírio Barbosa é incisivo ao negar que a abertura do O Diário implicou no fechamento da Folha:

“Não, não. A Folha vinha mal há muito tempo, tanto é que quando assumiu lá, o Joaquim Dutra, com o Assis, esse pessoal, a Folha já estava até desativada, então não teve influência nenhuma, não. A Folha já estava com os dias contados.”

Moracy Jacques pensa totalmente o contrário de Verdelírio:

“Foi uma transformação, porque eu considero hoje O Diário, a Folha do Norte que cresceu.”

Ao explicar as razões do fechamento, Joaquim Dutra ressalta que os objetivos de dom Jaime nunca foram comerciais:

“Não podemos pensar em jornal daquela época como hoje. Antes era tudo muito caro. Dom Jaime tinha a Folha como um veículo de comunicação social, o sonho dele não era comercial, queria um veículo que representasse a Igreja, que divulgasse a Igreja. A Folha não fechou comigo. Depois que saí, não sei os rumos que a Folha tomou. Quero frisar que eu e dom Jaime sempre nos demos bem. Ele é uma pessoa que prezo muito.”

Além da Folha não ter se modernizado, Elpídio Serra atenta para um outro fato que, em primeira instância, balançou as estruturas do jornal do bispo:

“Quando o Joaquim Dutra e o grupo da Rede Paranaense de Rádio montaram O Diário o que eles fizeram? Pegaram 100 por cento da equipe da Folha do Norte. Na época, o jornal tinha um fusca que distribuía o jornal, que fazia reportagem, que levava o vendedor de publicidade, que transportava o diretor. Era um fusca para todas as funções."
Walter Poppi acompanha a opinião de Elpídio:

“O Joaquim Dutra saiu e fundou O Diário. Aí ficou o Assis e o Fregadolli e começou a desavença com dom Jaime. Ficou aquele atrito uns quatro ou cinco anos. O Diário começou com off-set e a Folha ficou com aquela rotativa lá e quando dava defeito não tinha mais técnico. O pessoal já estava todo modernizado. O fator mecânico também influenciou. Funcionários começaram a sair. Foi uma crise.”

Pelo que se pode depreender, os mais variados fatores determinaram o fechamento. O que fica latente, sobretudo, é a constatação de que o jornal precisava ser empresa para crescer ou se manter, mas dom Jaime quis continuar a abrigá-lo em sua paróquia. Quando já não era mais possível lutar contra os ventos da modernidade, quando percebeu que o jornal fugia de seu controle e que a missão estava praticamente cumprida, o criador matou sua cria.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 61 – ETERNO INCONFORMISMO

De todos os homens que fizeram parte da história da Folha, Jorge Fregadolli é o único que não aceita passivamente o fato do jornal ter sido fechado. Ele continua, mesmo depois de três décadas, inconformado.

Aos 72 anos, Fregadolli continua na ativa, é proprietário da revista Tradição, publicação que faz jus ao nome, pois está há mais de trinta anos na praça, e é responsável pela Vitrine, no O Diário do Norte do Paraná, coluna que escreve desde os tempos da Folha do Norte.

Para Fregadolli, falar do jornal em que foi um dos diretores de 1973 a 1979, o faz despertar iras e paixões. Um típico caso de amor não resolvido que o tempo jamais vai apagar da sua mente.

O veterano publicitário está entre os que mais se empolgam ao falar do assunto e, ao contrário, da maioria, entende que o Diário só cresceu porque a Folha parou:

“A Folha do Norte sempre teve uma linha de conduta muito limpa. Ela não se preocupava com os adversários. Ela fazia seu caminho. Nós tínhamos uma meta de ir pra frente. Um concorrente pra nós fazia a gente acordar mais cedo. A idéia era colocar a Folha sempre na frente. Ela tinha uma divulgação muito grande, uma preferência muito grande. A Folha tinha uma linha de conduta muita boa. Ela não se importava, não vivia de críticas, vivia de expansão, noticiar coisas boas, o progresso. Chegamos a circular em 200 municípios do Paraná. Naquele tempo, chegamos a ter uma tiragem de 8 mil exemplares. Um número expressivo para a época enquanto a Folha de Londrina não chegava a 5 mil. O Jornal de Maringá nunca chegou a ameaçar a Folha do Norte porque O Jornal sempre foi limitado. Ele era aquele jornal tradicional, não cresceu muito, decaiu, até que chegou um dia que também parou, entrou em decadência, como a Folha do Norte parou em 79. Em 79, a Folha estava disparada na frente. Quando parou é que O Diário começou a suspirar, foi aí que O Diário começou a crescer porque até então era o segundo jornal.”

Ao contrário do que afirmam os jornalistas que editaram as últimas edições da Folha, Fregadolli diz que o fechamento ocorreu por decisão de dom Jaime e não por inadimplência. Ele não analisa as fases do jornal: com a Diocese, com Dutra e a entrada de seu grupo.

Fregadolli analisa que a Folha nasceu forte e morreu forte. Sem meias palavras, afirma que era o maior jornal do interior do Paraná e que, de tão bem feito, era melhor do que os de Curitiba.

Enquanto pôde, Fregadolli lutou para continuar. Entrou na Justiça para ficar com o nome e perdeu. Talvez para dar vazão ao seu perene inconformismo, ele coloca doses cavalares de importância à Folha para o desenvolvimento de Maringá:

“A Folha do Norte abriu esta cidade, foi a mãe desta cidade. Realmente projetou esta cidade, deu uma expansão muito grande.”

O coração de Jorge Fregadolli fala mais alto. E quem poderá culpá-lo por este amor pelo jornal que continua tão latente e mal resolvido mesmo transcorridos trinta anos do seu fechamento?
Jorge Fregadolli, que entrou na Justiça para ficar com a Folha e perdeu: “A Folha do Norte abriu esta cidade, foi a mãe desta cidade”
(Foto: Tabajara Marques)

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 60 – A ÚLTIMA EDIÇÃO

Na edição do dia 10 de junho de 1979, a de número 4.723, a Folha do Norte circulou pela última vez. Na manchete, “Hoje é dia de Clássico do Café”.

No rodapé da capa, um comunicado da direção, que não expressava a verdade em sua totalidade: “Ao público em geral – Por motivo de força maior deixamos de circular nossas edições temporariamente. Agradecemos penhoradamente a compreensão de todos. A direção.”

Fregadolli tinha sob seu comando cerca de trinta funcionários, que foram devidamente pagos, segundo ele. O ex-diretor da Folha conta que houve uma grande compreensão por parte dos empresários que anunciavam no jornal e várias contas foram recebidas após o fechamento. Depois de 17 anos, sucumbiu o jornal que queria competir com o Última Hora.
A última edição da Folha do Norte, em 10 de junho de 1979. Depois de 17 anos, chegava ao fim o jornal do bispo
(Reprodução)

quarta-feira, 11 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 59 – LUZ PARA SEMPRE APAGADA NO DIA 9 DE JUNHO DE 1979

Fregadolli não aceitou passivamente a decisão do bispo e entrou com uma ação na Justiça. A ação foi contestada por dom Jaime que contra-atacou: entrou com uma ação de despejo contra a Editora 10 de Maio Ltda.

No período em que corriam as ações, Fregadolli deixou de pagar o aluguel do imóvel, fator determinante para que os sócios da Folha do Norte viessem a ganhar a causa.

Fregadolli entrou com mandado de segurança e conseguiu mais um fôlego que durou quatro meses. Neste período, constava no expediente que a Folha estava em liquidação e, a palavra “liquidante”, entre parênteses, após o nome do diretor-presidente-fundador.

Em 9 de junho de 1979, num sábado, a redação trabalhou pela última vez. O fim já era esperado. Tinha data marcada. Walter Poppi, o chefe de redação, foi quem apagou a luz e fechou a porta da redação.

Trabalharam com ele na tarde daquele sábado, o seu irmão Valdemir Poppi, o Popinho, Renato Diniz Dominici, Manoel Cabral e Edmilson Wantuil.

Depois que as matérias foram revisadas e enviadas para as oficinas, Poppi e os demais repórteres limparam as gavetas e saíram para não mais voltar.

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 58 – A LIQUIDAÇÃO DA FOLHA DO NORTE

Dom Jaime decidiu, no final de 1977, rescindir o contrato de arrendamento da Folha do Norte do Paraná S/A com a Editora 10 de Maio Ltda, de propriedade de Jorge Fregadolli.

A editora era a responsável pela publicação do jornal, ocupando o prédio da Duque de Caxias e utilizando os equipamentos. O objetivo de dom Jaime não era procurar um outro arrendatário. O que ele queria mesmo era encerrar as atividades da Folha.

Para tanto, foi realizada uma assembléia geral dos acionistas no dia 24 de novembro em que foi proposta a liquidação da empresa Folha do Norte do Paraná S/A e, por conseqüência, a dissolução da diretoria. A proposta foi aceita por unanimidade.

A FAP (Frente Agrária Paranaense) já não era uma bandeira de luta, os comunistas não representavam tanto perigo e a Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória estava concluída.

Na leitura da proposta da diretoria, dom Jaime fez um histórico do jornal explicando os motivos que o teriam levado a arrendá-lo a Dutra e posteriormente a Fregadolli. A cópia da ata da assembléia geral, a oitava desde o início da sociedade, que decidiu pela liquidação, está arquivada na Junta Comercial do Paraná.

No final da folha 5, o bispo ratifica os motivos que o levaram a propor o fim do arrendamento e a liquidação:

“Os resultados deste arrendamento não corresponderam às nossas expectativas. Por um lado, a máquina impressora e todo o parque gráfico tornaram-se obsoletos, pois já foram adquiridos de segunda mão. Os bens móveis e utensílios diversos sofreram a natural depreciação ou desgastaram-se ao longo destes 15 anos de uso. Perdemos a estrutura administrativa e nos distanciamos de nosso objetivo como jornal regional. Por outro lado, não conseguimos o equilíbrio econômico financeiro necessário para o reinício direto de nossas atividades. E, esta, é hoje desaconselhável, porquanto qualquer estudo nesse sentido demandaria tempo razoável e investimentos vultuosos, incompatíveis com a atual conjuntura nacional de plena contenção do crédito, com o mercado investidor regional que padece severíssima crise, e, principalmente, com a nossa situação, que requer solução imediata, a fim de não entrarmos em nova fase de prejuízos. Diante desta flagrante instabilidade, e tendo em vista que a continuidade do arrendamento implicará a prazo curtíssimo no desgaste final dos bens móveis, com total e evidente prejuízo dos senhores acionistas, somos de parecer que a sociedade seja dissolvida, procedendo-se a venda dos bens móveis ainda existentes, e após o pagamento de todas as custas de liquidação e pagamento dos credores, se proceda o rateio do saldo entre os senhores acionistas, na proporção das ações que possuírem. Esta é a proposta que a diretoria submete à aprovação da assembléia geral extraordinária dos senhores acionistas.”
Folha do Norte em liquidação. Expediente em 1978: diretor Jorge Fregadolli, editor-chefe Valdemir Poppi, e Joel Cardoso, que consta como assessor
(Reprodução)
Joel Cardoso: substituto de Frank Silva na coluna social da Folha do Norte
(Foto: Arquivo Revista Conexão)

terça-feira, 10 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 57 - ABRAÇO EM TODOS OS PODERES

Para uma maior compreensão do posicionamento da Folha do Norte ao longo de sua história é preciso voltar no tempo, folheando suas páginas desde sua fundação.

A Igreja estava em guerra declarada contra o comunismo e não via com bons olhos a presença de João Goulart na presidência, mas na Folha do Norte não havia críticas ao chefe da nação. Atacava-se o comunismo genericamente.

Buscava-se citações de governadores alinhados aos militares e também do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, para transmitir a mensagem anti-marxista. Nos artigos de dom Jaime, também se verifica esta preocupação: críticas gerais e não específicas.

Nas primeiras edições, o assunto predominante foi o plebiscito, realizado no País em 1962, para decidir entre o presidencialismo e o parlamentarismo. Os militares queriam diminuir o poder de João Goulart temendo o avanço comunista.

Jânio Quadros, que havia renunciado no ano anterior, mostrara-se bastante simpático ao marxismo chegando a condecorar o líder revolucionário Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, para a revolta geral dos quartéis.

O vice Goulart assumiu sem as bênçãos dos militares, que encontraram no parlamentarismo a forma de dividir as decisões. O presidencialismo venceu, mas os verde-olivas continuaram fustigando o governo Goulart até que em 31 de março aconteceu a chamada “Revolução”.

Em amplas reportagens enviadas pela Transpres, a Folha deu destaque ao plebiscito ao mesmo tempo em que combatia o comunismo.

Quando Ney Braga assumiu o Governo do Paraná, em 1962, a Folha tornou-se quase um órgão oficial do Palácio Iguaçu. Além do próprio espírito direitista do jornal, é preciso relembrar da grande amizade entre dom Jaime e Ney Braga.

Moysés Lupion, o governador anterior, era, para dom Jaime, a personificação do mal. Com Ney, tudo mudou. Ficou, então, na alça de mira, somente o prefeito João Paulino. A Prefeitura e o prefeito eram o alvo para que a redação desse vazão às críticas. Mas, com aquela contundência ocasional.

Com Paulo Pimentel no governo do Estado, a Folha manteve o perfil institucional, apesar de atritos de dom Jaime com o governador.

1964: Luiz Moreira de Carvalho, eleito prefeito de Maringá para a gestão 1965-1968, comemora a vitória com carreata

(Reprodução foto - site www.maringa.com)






Com o governador Paulo Pimentel, algumas rusgas, mas sem grandes conseqüências
(Reprodução)
Edição de 14 de março de 1979: mais um militar no poder
(Reprodução)

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 56 - UNIÕES E ATRITOS AO LONGO DOS ANOS

Nas administrações de Luiz de Carvalho e Adriano Valente à frente da Prefeitura de Maringá, os repórteres ficaram engessados para tecer críticas ou quaisquer comentários desairosos. Carvalho e Valente tinham laços de amizade com o bispo e foram grandes colaboradores na construção da Catedral Nossa Senhora da Glória, o que João Paulino não havia sido.

Em 1973, quando a Catedral já havia sido inaugurada, Silvio Barros assumiu a prefeitura e, depois de muito tempo, os repórteres puderam exercitar a lavra ofensiva, que há muito tempo estava represada. Não durou muito. Joaquim

Dutra havia deixado a Folha e o grupo que assumiu precisava de outros recursos além dos comerciais. Neste período, percebe-se críticas esporádicas e amplas reportagens relacionadas à administração municipal.

Silvio e dom Jaime se atritaram inúmeras vezes. Se dependesse do bispo, as críticas à administração municipal seriam maiores, mas o jornal não estava nas mãos da Diocese.

O prefeito ameaçava cobrar na Justiça os impostos dos imóveis da Igreja quando era atacado na Folha, deixando dom Jaime possesso. Neste período entra em cena com mais vigor a figura do colunista político, que não tinha vínculo empregatício com o jornal e, na maioria das vezes, podia escrever o que quisesse.

O colunista servia aos interesses do jornal quando era necessário fazer pressão para obtenção de vantagens. Algo comum hoje em dia não apenas em Maringá.

Na volta de João Paulino à prefeitura, em 1977, os tempos eram outros, o jornal estava preocupado em se manter e não havia espaço para jornalistas panfletários, para os que defendiam uma causa ou uma posição.
Havia as tais colunas assinadas, mas o espírito da redação coadunava com o departamento comercial. Por isso, enquanto João Paulino esteve no poder, a Folha, se não foi uma parceira da administração municipal, adotou uma postura quase indiferente.

Com os militares na presidência, a linha continuava inalterada: sem críticas e com grandes espaços para os releases do Planalto.

Também sem alterações com os que sucederam Pimentel no Palácio Iguaçu: Haroldo Leon Peres, Parigot de Souza, Emílio Gomes, Jaime Canet e Ney Braga, de volta, nomeado por Figueiredo.

Verifica-se em relação à Câmara Municipal um acompanhamento discreto. A divulgação de projetos perde espaço para questões político-administrativas envolvendo vereadores e prefeito, eleições da Mesa Executiva e uma ou outra contenda entre os edis.

O Legislativo maringaense foi utilizado várias vezes para que a Folha pudesse colocar João Paulino em situação desconfortável. Se a relação de JP com a Folha foi conflituosa, principalmente na primeira gestão, ela não foi diferente com a Câmara Municipal.

Existem contradições nas afirmações dos dirigentes do jornal e dos repórteres quando o assunto é repasse de dinheiro por parte do poder público para divulgação. Dom Jaime nega. Joaquim Dutra diz que em alguns casos a Folha recebia por anúncios institucionais. A maior parte dos repórteres confirma.

Trata-se de um assunto nebuloso. É possível afirmar que nas mãos da Diocese a Folha não recebia do poder público porque ela era auto-sustentável. Já com os arrendatários, principalmente na fase final, nota-se um volume maior de matérias informando sobre os trabalhos que estavam sendo realizados na administração municipal.

A Folha não diferiu em nada da maioria dos jornais de hoje, que sobrevivem graças ao atrelamento ao poder, sacrificando a informação. “Você é pago para fazer matérias, não para vê-las publicadas” ou “Se você quer independência, monte um jornal para você”. Estas frases, até hoje ouvidas em redações, raramente eram dirigidas aos repórteres da Folha. Eles já sabiam de antemão o que deveria ser feito.
Dom Jaime fazia restrições aos militares depois de 1964, mas a Folha não deixava transparecer
(Reprodução)Edição de 1974: buracos são manchete
(Reprodução)

segunda-feira, 9 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 55 – O MOÇO QUE AJUDAVA FERVER O CALDEIRÃO

Funcionário da TCCC (Transporte Coletivo Cidade Canção) e ator de teatro amador, José Antonio Moscardi era leitor assíduo da Folha de S. Paulo, o que lhe despertou o gosto pela escrita. Por volta de 1975, ele elaborou um texto e mostrou a Pedro Chagas Neto, então editor de O Diário. Pedro gostou e disse que ele levava jeito.

Foi o sinal verde para Moscardi entrar na carreira de repórter. Sua primeira chance, no entanto, não surgiu no O Diário, mas sim na Folha do Norte. Entrou no dia 1º de agosto de 1976 e saiu no dia 1º de agosto de 1978.

Nesses dois anos, escreveu de tudo. Começou redigindo textos comerciais. Depois, Fregadolli o colocou para fazer matérias policiais.

Até Moscardi se tornar um repórter da área política, fez várias matérias do dia a dia da polícia. Encerrado o aprendizado, Moscardi passou a fazer uma coluna política chamada Caldeirão.

“Era muita polêmica na época, muita polêmica. Era uma coisa que fervia mesmo e Jorge Fregadolli tinha um cuidado para não melindrar prefeito, nem vereador, diretores de autarquia. Era assinada por mim. A coluna deu muitos problemas. Eu e o Walter Poppi éramos os redatores. Eu cobria a Câmara de Vereadores, a antiga, que ficava na avenida Tiradentes.”

Além de sofrer censura quase diária de Fregadolli, Moscardi tinha que conviver com Silvio Iwata, cuja função era diretor de setor, um nome de fachada para poder acompanhar o trabalho da redação .

“O cargo de Silvio Iwata era muito curioso: chamava-se diretor de setor. Quer dizer, é uma faca sem lâmina que perdeu o cabo. O que é diretor de setor? É qualquer coisa aí. O Assis era o diretor de redação e o Fregadolli era o comercial. Eu não sei se o Iwata tinha esse papel de censor, mas ele era o fiel da balança, ele era o elo entre o clero e a direção da empresa. Eles se entendiam harmoniosamente.”

Em 1978, Moscardi foi para O Jornal de Maringá convidado por Verdelírio Barbosa. A coluna Caldeirão já havia sido extinta. Neste período, a situação na Folha era dramática. Logo começaria a disputa entre dom Jaime e a Editora 10 de Maio. Além de Assis, que também fazia uma coluna diária, a redação contava com Walter Poppi, Renato Diniz Dominici, que tinha o apelido de Chumbinho, os fotógrafos Jorge Tazima e João Mantovan, e os colunistas Jorge Fregadolli, com sua Vitrine, e Joel Cardoso, que assumira o social no lugar de Frank Silva.

A Folha do Norte teve para Moscardi um significado similar a de outros órgãos de comunicação em que trabalhou, entre eles a revista Pois É, da década de 80. Instado a comentar sobre algum fato realmente representativo na sua passagem de dois anos na Folha, Moscardi num grande esforço, se lembra de um furo de reportagem dado pela Folha.

Um furo não apenas nos jornais do Estado, mas também nos de circulação nacional, que teve a participação decisiva dos contatos de dom Jaime com o Vaticano.

“Quando o papa morreu em 1978, morreram dois papas naquele ano e nós tivemos três papas. Aí a Folha deu um furo naquela época. Então o jornal esgotou nas bancas naquele dia, na morte do papa. Nós conseguimos segurar o jornal até às 22 horas e fazer a notícia.”

O papa Paulo VI faleceu em 06/08/78. Seu sucessor foi João Paulo I, que faleceu em 28/09/78. João Paulo II assumiu em 16/10/78, ficando no comando da Igreja Católica até 02/04/05, data da sua morte.

Se a Folha não marcou tanto a vida profissional de Moscardi, pois lá ficou apenas dois anos, na pessoal ela foi decisiva. Foi na Folha que ele conheceu Shirlei, que trabalhava como secretária. Lá começaram a namorar e pouco tempo depois se casaram. Moscardi e Shirlei têm três filhos. Aos 54 anos, ele é dono de gráfica em Maringá.


Moscardi: emprego e casamento na Folha

(Foto: José Roberto Furlan)

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 54 - SANGUE NO ALTO, ORAÇÃO EMBAIXO

A Folha bateu forte em matérias policiais no período comandado pela Diocese. O jornal abria colunas com textos e fotos sobre assassinatos e acidentes. Bateu tão forte, que justamente no primeiro dia de 1963 saiu com esta manchete: “Monstro humano violentou e matou menina de oito anos”. Na dobra de baixo uma mensagem de dom Jaime intitulado “Deus vos abençoe.”

Há uma explicação coerente para o fato de a Folha abrir maior espaço para o setor policial no tempo em que era comandado pela Diocese para, gradativamente, ir diminuindo o destaque: em virtude do aumento da criminalidade na cidade. De tão comuns, as ocorrências com os ladrões de galinha, arraias miúdas do banditismo, perderam o espaço na capa e foram jogadas nas páginas internas. Hoje, não merecem nem rodapé nos jornais.

No início da década de 1960, Maringá tinha poucas ocorrências policiais. Por isso, quando acontecia um crime ou até mesmo um roubo, era justificável a máxima cobertura e o espaço correspondente nas páginas. Com o passar dos anos, o aumento da população e o inevitável crescimento da violência, as notícias policiais já não geravam tanto interesse, excetuando, logicamente, casos de grande comoção, que até hoje estão na memória do maringaense.

Naquele início da Folha havia uma salutar rivalidade com O Jornal nesta área. Um dos episódios de maior repercussão na crônica policial maringaense foi acompanhado por Messias Mendes: a morte do menino Clodimar Pedrosa Lô, de 16 anos, assassinado por dois policiais civis em 1967.

O acontecimento teve desdobramentos. O pai de Clodimar, Sebastião Pedrosa Lô, veio do Ceará e matou Atílio Fabri, o dono do hotel onde o garoto trabalhava. Fabri morreu na calçada, em frente ao seu estabelecimento, na avenida Brasil, quase na esquina com a avenida São Paulo.

Messias chegou ao local quando o corpo ainda estava estendido e colaborou na cobertura da reportagem e depois no julgamento de Sebastião Pedrosa Lô, que foi absolvido. O Caso Lô, como ficou conhecido, rendeu grandes reportagens na Folha e no O Jornal, que se rivalizavam no objetivo de informar sobre todos os detalhes.

Nos anos 1970, a Folha já não se preocupava em levar furos no setor policial. Quem comandava esta área na cidade, espirrando diariamente sangue na página, era O Jornal.

Pelo fato da Folha não dar grande importância ao noticiário policial, a chefia de redação colocava iniciantes no setor, os chamados “focas”. Quase todos os repórteres que trabalharam na Folha do Norte têm no seu histórico, matérias de polícia.

Justamente no dia 1º de Janeiro de 1963, uma manchete de arrepiar. Depois, a Folha parou de “espirrar” sangue
(Reprodução)

sábado, 7 de março de 2009

Capítulo 53 - OS JORNAIS DO INTERIOR DO PARANÁ EM 1975

BRAVA IMPRENSA DO INTERIOR

ARTIGO DE ARAMIS MILLARCH*
ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 21 DE NOVEMBRO DE 1975

Como está a imprensa paranaense ? Não a curitibana, mas a brava imprensa interiorana, que enfrenta dificuldades ainda maiores do que a dos jornais diários, das capitais.

Para ter dados exatos, o jornalista Luiz Fernando Queiroz, assessor de comunicação do Banco Regional de Desenvolvimento Econômico, viajou por todo o Estado, conversando com os homens que, nas mais diversas condições, fazem jornais diários, semanais e até quinzenais em suas comunidades, muitas vezes acumulando a direção, redação, diagramação, coleta de anúncios e, não raro, mesmo a impressão.

Do que pesquisou, Queiroz, tem material para um ensaio - mas, de momento ele apenas usa as informações de forma prática, dentro dos objetivos de comunicação do BRDE.

Foram pesquisados 55 jornais no Interior, 12 diários, um trissemanal, 35 semanais, cinco bissemanais e 2 quinzenais. Quarenta são publicados tipograficamente e quinze em off-set. Quarenta tem telefone e 15 não tem.

Afora Curitiba, as cidades que tem jornais diários são Cascavel ("Fronteira do Iguaçu"), Londrina ("Folha de Londrina" e "Panorama"), Maringá ("Folha do Norte do Paraná", "O Diário do Norte do Paraná" e "Jornal"), Paranaguá ("Diário do Comércio e "O Imperial"), Paranavaí ("Diário do Noroeste"), Ponta Grossa ("Diário dos Campos" e "Jornal da Manhã" e Umuarama (A Tribuna do Povo).

Há vários jornais que são impressos nas mesmas oficinas: "Rondon Comunicação" (Marechal Candido Rondon), "Mensageiro" (Medianeira) e "Pioneiro" (Palotina), são impressos na oficina de "A Voz do Oeste" de Toledo. "A Voz de Rolândia" é impresso na mesma oficina que faz o "Cambé Notícias" em Cambé.

Os dois semanários de Rio Negro são impressos na mesma oficina: "Tribuna da Fronteira" e "O Noticiário da Fronteira", na cidade catarinense de Mafra- "Jornal do Iapó" e "O Bravo" são impressos na mesma gráfica (Kugler) em Castro, enquanto "O Regional de Mandaguaçu" e "O Regional de Nova Esperança" tem a mesma editora.

Há também vários casos de nomes semelhantes: "O Imparcial", existe em Paranaguá e em Engenheiro Beltrão; "O Liberal", em Campo Largo e Jacarezinho; "Pioneiro" em Jacarezinho e Palotina. Já "O Regional" existe em Assis Chateaubriand, Nova Esperança, e Mandaguaçu.

De uma forma geral, todos os jornais do Interior enfrentam dificuldades mas nem por isso seus bravos editores desanimam. Ao contrário, muitos têm planos de tornar os semanários em diários e os quinzenários em semanários. "O Diário do Noroeste" de Paranavaí, apesar do nome, não está saindo diariamente, mas só três vezes por semana. É que suas oficinas incendiaram-se e há dificuldades operacionais.
*O curitibano Aramis Millarch (12/07/43-13/07/92) é um dos mais importantes jornalistas paranaenses, tendo escrito mais de 50 mil artigos entre 1957 e 1992; especializado em cinema e música, recebeu o prêmio Esso de Jornalismo. Acesse o site http://www.millarch.org/ (Tablóide Digital) e leia os artigos de Aramis MIllarch.
Charge: Tablóide Digital

sexta-feira, 6 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 52 - A FOLHA VAI PERDENDO O FÔLEGO, SAI ELPÍDIO SERRA, MAS FREGADOLLI AINDA ACREDITA

Nas edições seguintes, em julho de 1974, a Folha continuou a competir com O Diário. Mesmo com a crise financeira, havia uma motivação especial para “furar” o novo jornal da cidade. E em várias oportunidades isto aconteceu. Uma delas foi por pura sorte.

Elpídio havia assistido a uma reunião do prefeito Silvio Barros com o seu secretariado. Reunião de rotina que não chamou a atenção de ninguém da imprensa. Só Elpídio estava no Paço Municipal naquele dia.

O encontro seguia dentro da normalidade até que, surpreendentemente, Barros espinafrou seus secretários. O prefeito passou-lhes uma homérica descompostura. No dia seguinte, estava lá na Folha do Norte, em letras garrafais: “Silvio Barros: acima de mim, ninguém; abaixo, todos.”

Chega o mês de agosto e a Folha foi perdendo o fôlego. Em 1975, as dificuldades aumentaram, não apenas para a Folha, mas para O Jornal e o próprio O Diário. Joaquim Dutra e o grupo da Rádio Cultura adquiriram a TV Cultura.

Foi um período complicado para os jornais de Maringá. O Diário ficou em segundo plano para Dutra até que houve as transações que colocaram Frank Silva como um dos sócios.

Na Folha, o faturamento na venda de anúncios caiu drasticamente. Como conseqüência, a folha de pagamento começou a atrasar. Nesta época, houve uma grande rotatividade de profissionais.

Elpídio deixou o jornal naquele ano. Foi abrir o Jornal da Cocamar. Para ele, a Folha do Norte estava no fim e não adiantava lutar contra a maré. Jorge Fregadolli ainda acreditava. Ainda hoje, ele é o único a dizer que o jornal não estava em crise, que o crescimento do O Diário se deve ao fechamento da Folha.

Para Fregadolli, com a estrutura que a Folha possuía, seria possível ainda continuar liderando por muitos anos. Ele faz pé firme contra os que afirmam que o jornal do bispo começou a agonizar depois do surgimento do O Diário. Fregadolli contesta todos os fatos descritos pelos que estiveram diretamente ligados ao jornal depois da saída de Dutra.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 51 – PURPUR VERSUS RIVELINO, FOLHA DO NORTE VERSUS O DIÁRIO

A edição diária era feita a toque de caixa, mas as que iam sendo guardadas mereciam todo o esmero dos redatores. No dia 29, um sábado, O Diário veio com a manchete “Brasil e Argentina, arte contra garra".

O time do Brasil disputava a Copa do Mundo da Alemanha e no domingo jogaria com a Argentina. A Folha não circulou naquele sábado. Deixou para domingo o material que havia sido arquivado.

O grande assunto naqueles meses em Maringá era a sucessão do reitor na UEM (Universidade Estadual de Maringá). Não havia eleição para o cargo. Quem nomeava era o governador. José Carlos Cal Garcia queria continuar no cargo, mas várias lideranças, de dentro e de fora da universidade, se empenhavam pela sua saída. Assis estivera dias antes no Palácio do Iguaçu e ficara sabendo que Rodolfo Purpur era o nome mais forte para assumir.

Rubens Ávila, o editor do O Diário, amigo de Purpur, sabia da notícia, mas temia colocar uma manchete daquelas. E se o governador, Emílio Gomes, na época, voltasse atrás? Como ficaria o jornal recém inaugurado?

Prudentemente, Ávila se preocupou em dar notícias da Seleção Brasileira. A manchete atrevida foi dada pela Folha: “Purpur: o reitor”. Assis, sempre tão ponderado, desta vez, com o apoio da redação, fugiu de suas características. Diante da situação, Antonio Augusto de Assis arriscou.

“A Folha precisava naquele dia de uma manchete que marcasse, né? Não era para pôr. O próprio Purpur pediu para não dar a notícia para não atrapalhar. Eu disse para o Elpídio: -Vamos esquecer este bom-mocismo nosso e vamos dar esta manchete. Por sorte nossa confirmaram o nome de Rodolfo Purpur. O Rubens Ávila não acreditava que a gente fosse ousado de pôr a notícia antes da hora. Ele levou o furo porque foi cavalheiro com o Purpur. Ele empenhou a palavra dele que não ia dar e não deu. E nós não quisemos saber disso.”

Elpídio comenta o fato com grande satisfação. Para ele, era uma prova de que a Folha não estava morta e tinha condições de brigar.

“A polêmica naquela época não era a questão do Rivelino, era a questão da universidade. A edição da Folha esgotou e nós circulamos com edição extra na parte da tarde. Resultado: no primeiro dia o Joaquim Dutra brigou com o Rubens Ávila. E nós continuamos.”

Na capa daquela edição de domingo, além da manchete de Purpur, com direito a foto do futuro reitor, havia informações sobre o jogo do Brasil com a Argentina, uma chamada para a entrevista do juiz da Vara de Menores, Francisco de Paula Xavier Neto, inaugurando uma sessão no jornal que se chamava Mesa Redonda.

E uma reportagem especial sobre o Cemitério Municipal, onde familiares enterravam seus entes queridos com dinheiro e jóias. E, para não variar, um longo artigo de dom Jaime na primeira coluna, com um título, que, pelas ironias da vida ou não, quem sabe uma fina ironia do bispo, associava a Igreja Católica à Folha do Norte: “A Igreja não morre”.
A edição da Folha do Norte anunciando Rodolfo Purpur como reitor da UEM
(Reprodução)
A primeira edição de O Diário: destaque para o Brasil na Copa de 74
(Reprodução)

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 50 - JÁ QUE NÃO QUISERAM ESGOTAR TODO SANGUE, QUE ESTE RESTO SEJA O SUFICIENTE PARA MOSTRAR FORÇA

Com o surgimento do O Diário, a redação da Folha quis ser o que O Jornal vinha sendo: o segundo que incomoda. Mesmo com a modernidade do concorrente, queria continuar na preferência do mairngaense. Para alcançar esse objetivo era preciso publicar as melhores matérias. Obrigatoriamente, era preciso mudar.

Os fatores contrários à Folha eram vários, além do O Diário. Ter melhores matérias significava mexer com as estruturas. Na década de 1970, dom Jaime já não conjugava o verbo desafiar com tanta desenvoltura. A sua Diocese já estava estruturada e Maringá e região experimentavam um franco desenvolvimento.

Já havia uma disseminação de órgãos de imprensa. A Folha de Londrina passou a ter boa penetração em Maringá e região, seguida do Estado do Paraná e Gazeta do Povo. E a televisão chegou com força suficiente para ganhar, logo de cara, a preferência da população.

A partir de agora, a Folha passa a ser mais um jornal. Vai perder o jogo dentro de casa. Havia a conscientização de que a partir daquele momento o primo pobre seria a Folha do Norte do Paraná.

Faltando dez dias para o lançamento do O Diário, Assis, Elpídio e Poppi se reuniram na redação para elaborar um plano de modo a informar à cidade e ao concorrente que a Folha não estava morta.

Já que não quiseram esgotar todo sangue, que este resto seja o suficiente para mostrar força, pensaram. De 15 a 28 de junho de 1974 qualquer leitor, por menos observador que fosse, diria que a Folha estava dando os últimos suspiros.

Colunas social e esportiva já não estavam sendo publicadas. Nestes dias só havia a “tesoura press”, jargão que consiste em tirar textos completos de outras publicações. Notícias velhas ou requentadas eram comuns.

A nova direção da Folha queria passar a todos, principalmente ao O Diário, que estava agonizando. E conseguiu. Numa jogada de mestre da redação, foi adotada a seguinte estratégia: fazer um jornal até o dia 28 sem qualquer preocupação e no dia 29, no lançamento do O Diário, mostrar a cara da nova Folha do Norte do Paraná.

O plano era o de fazer pelo menos 20 edições naqueles dias, armazená-las e soltá-las a partir do dia 29. Edições com reportagens de peso, nova diagramação e novo design.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 49 – A DESOLAÇÃO SE INSTALA NA FOLHA DO NORTE

Joaquim Dutra começou formar a equipe do O Diário seis meses antes de lançar a primeira edição. Boa parte dos profissionais pertencia à Folha.

Os funcionários eram contratados com um salário bem superior ao que ganhavam. Frank Silva, Nelson Jaca Pupim, Ismael Serra e o chefe das oficinas, Gumercindo Carniel, estavam acertados meses antes de começarem a trabalhar, mas Dutra pediu sigilo e ninguém disse nada.

Assis e Wilson Serra também foram convidados, mas recusaram. Elpídio Serra lembra que a Folha perdeu quase todo o time da redação.

“Ficou na redação o Assis, só um redator, eu e o Poppi. Não convidaram a gente também talvez para não esgotar o último sangue. O meu irmão Serrinha foi convidado e nem em casa comentou nada. O Ismael foi. Nós ficamos sem gente para a oficina, sem gente para distribuir e entregar jornal, sem cobrador, repórter, revisor.”

A debandada aconteceu no início de junho de 1974. O Diário seria lançado no dia 29 daquele mês, tendo Rubens Ávila, falecido na década de 1990, como chefe de redação. Escritórios, redação e parque gráfico funcionariam num prédio da avenida Tuiuti, que já não existe mais. No local, foi construída a Rodoviária. Depois da Tuiuti, O Diário foi para a avenida Mauá, nº 1988, onde está até hoje.

Para um jornal que liderava a preferência na cidade e na região, o golpe foi duro. Dom Jaime não tinha a intenção de tomar à frente, não pensava em trocar os equipamentos agora superados. A Diocese queria o dinheiro do arrendamento para continuar dando seqüência às obras do Seminário Diocesano e mais nada.

Fregadolli tinha vontade, mas não condições de modernizar o parque gráfico. Além do mais, o jornal não era dele. Assis, o outro sócio, não era do ramo comercial. Negócios não eram com ele. O que ele sempre quis foi escrever, tanto que em 1977 deixou tudo nas mãos de Fregadolli.

Dutra queria fazer do O Diário o número 1. Sabia que sua saída acarretaria prejuízos à Folha. Se colocasse um concorrente, então, o jornal do bispo agonizaria, pois sabia que para dom Jaime o jornal já não era tão importante e, portanto, não o modernizaria.

O sentimento na redação da Folha nos meados de 1974 era de desolação. Na cidade, os comentários eram de que a Folha pouco agüentaria. O Diário vinha com impressora off-set, uma impressão de alta resolução, remetendo para o tempo das cavernas a rotativa do jornal do bispo. As oficinas, que eram o orgulho da Folha, local em que os visitantes faziam parada obrigatória, com direito a fotos, passaram a ser o símbolo do obsoleto.

Naquele início de junho, os jornalistas da Folha conjeturavam sobre o que fazer para, pelo menos, incomodar o novo jornal da cidade. Maringá completa 27 anos. Logo depois, começaria a debandada de funcionários da Folha para o novo jornal da cidade
(Reprodução)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 48 – A FOLHA DO NORTE NA ERA PÓS-DUTRA

Após a saída de Joaquim Dutra, em 1973, constava no expediente, além de Editora Folha do Norte do Paraná S/A, a Editora Gráfica 10 de Maio Ltda e os nomes de Silvio Iwata e A. A. de Assis na gerência geral, Jorge Fregadolli na gerência comercial, Ivanbergue K. Pereira como gerente de publicidade e Elpídio Serra como redator-chefe.

E, como não poderia faltar, logo abaixo da razão social, dom Jaime Luiz Coelho com a pomposa, mas verdadeira função de diretor-fundador-presidente. Iwata era o homem de confiança do bispo no jornal.

Fregadolli já trabalhava na Folha, sabia tudo do jornal, desde a linha editorial até os setores comercial e administrativo. Havia sido um dos melhores vendedores, mas tinha com o bispo um relacionamento cerimonioso.

Bem diferente de Silvio Iwata, que entrava na casa de dom Jaime pela porta da cozinha e quantas vezes quisesse. Até hoje a amizade entre dom Jaime e o imobiliarista e cursilhista é grande. Iwata tem pelo arcebispo grande respeito e admiração.

Dom Jaime não tinha intenções de encerrar o contrato com Joaquim Dutra. O jornal ia bem e raramente o arrendatário o deixava em maus lençóis por publicações ofensivas a pessoas ou instituições.

Até por índole, afinada com o diretor-fundador-presidente, Dutra sabia até onde poderia ir e respeitava a linha imposta pela Diocese. Mas a saída, se não abrupta, mas com alguma surpresa, tinha levado o bispo a se preocupar sobre o destino do jornal.

Já era fato consumado que a Diocese não iria mais administrar a Folha. Os dissabores e prejuízos já haviam sido grandes. Por isso, Dom Jaime apostou num grupo já conhecido, fazendo questão de colocar seu fiel escudeiro Iwata na direção.

Com o novo grupo, a Folha não teve grandes alterações na sua linha editorial. Manteve a estrutura deixada por Dutra, mas os tempos eram outros. Mesmo sob a ditadura de Geisel, a imprensa já não estava tão sufocada.

Os grandes jornais já começavam a dar os primeiros sinais de liberdade e, naturalmente, havia reflexos no resto do País. Na redação da Folha, os repórteres queriam bem mais do que as coberturas diárias da polícia, do esporte, da prefeitura e da Câmara de Vereadores.

Além da própria censura imposta no País, havia a auto-censura da Folha. Dom Jaime continuava com mão de ferro, quando se visualizava polêmica. Os jornalistas que trabalharam na Folha no período pós-Dutra confirmam esta manutenção da censura inaugurada junto com o jornal em 1962.

O Jornal de Maringá, relegado a segundo plano com o surgimento da Folha, adotara uma postura política. Mais para a política partidária do que ideológica. Mas, não deixava de ter uma opinião.

Na Folha, excluindo os artigos de dom Jaime ou um ou outro surto na década de 1960, reinava um espírito de aceitação. O País estava sob o regime militar e o jornal da Igreja não podia polemizar com ninguém. Era esta a ordem subliminar e fim de papo.

Fazia-se um ótimo trabalho em diversas editorias, criticava-se a administração municipal, mas não havia uma abrangência nestas críticas. Os fatos isolados predominavam com matérias sensacionalistas quando um político fazia uma declaração contra um adversário. Não havia uma análise mais aprofundada.

Contudo, a Folha seguia com prestígio. O jornal havia se incorporado à vida do maringaense e do leitor da região. As mudanças na diretoria e eventuais alterações na linha do jornal não incomodavam. O jornal do bispo era a prata da casa, sujeito a críticas, mas o carinho e a estima eram bem maiores.

A Folha acompanhava a transição da Maringá que pôs o pé no progresso no início dos anos de 1960 e nunca mais parou. Maringá não tinha concorrentes, se consolidando como pólo da região. A Folha do Norte logo teria.

A Folha do Norte na década de 1970: sem a ingerência da Diocese, mas dom Jaime continuava a dar as cartas
(Reprodução)
O Campeonato Maringaense de Peladas movimentava o esporte da cidade; era uma competição de futebol suíço promovida pela Folha do Norte e Prefeitura, que envolvia clubes, empresas e estabelecimentos de ensino
(Reprodução)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 47 - A NUCA DO PREFEITO

Na posse de Silvio Barros como prefeito de Maringá, em fevereiro de 1973, não se sabe se com a aquiescência de Joaquim Dutra, foi tramada na redação da Folha do Norte uma forma de desprestigiar o prefeito eleito.

O objetivo era divulgar a posse, mas fazer de tudo para que Silvio aparecesse o mínimo possível. Dois repórteres, um deles Ismael Serra, simularam um abraço, que certamente deveria acontecer entre Adriano Valente, que estava deixando o cargo, e o novo prefeito.

Moracy Jacques, o fotógrafo, fez a foto. Revelada, analisaram que Moracy deveria se posicionar sempre em frente de Adriano. Assim foi feito. No Paço Municipal, na hora do abraço, lá estava o fotógrafo da Folha captando o sorriso de Adriano e a nuca de Silvio.

O plano seguinte era prestigiar em primeiro lugar a posse dos vereadores. No dia seguinte, o leitor da Folha foi surpreendido com a manchete: “Assume a Nova Câmara”.E, na dobra de baixo, o abraço sorridente de Adriano a um senhor, que, pelas circunstâncias, só poderia ser Silvio Barros.

Pela primeira e única vez na história da imprensa de Maringá – e vai saber se não é nacional esse fato -, o poder Legislativo municipal teve mais destaque na capa de um jornal do que o Executivo em reportagens sobre posse de eleitos.

A foto em que não aparece o rosto do eleito. Apenas Adriano, que deixava o cargo. Na manchete, a posse na Câmara Municipal
(Reprodução)
Silvio Barros, prefeito de Maringá de 1973 a 1976, e dom Jaime
(Reprodução - foto Museu Diocesano)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 46 - MUITAS NOTÍCIAS, POUCAS OPINIÕES

Os tempos eram outros em 1973. O País vivia sob o regime militar, mas as turbulências políticas não encontravam ecos tão ressonantes em Maringá como há dez anos. A cara da Folha do Norte na década anterior era anticomunista e todo o espírito contrário à ideologia marxista impregnava suas páginas.

Já nos anos 1970, as maiores preocupações eram com a política local. Dom Jaime havia arrendado o jornal para Joaquim Dutra, mas sua onipresença podia ser sentida. Os artigos católicos, escritos pelo bispo e pelos padres da Diocese continuavam a ocupar grandes espaços.

O comunismo já não era tão execrado porque o perigo estava praticamente afastado. A ditadura estava se encarregando de suprimir todos os focos e o próprio dom Jaime havia deixado de apoiar o golpe militar. Ele não escrevia sobre isso, mas, em muitas oportunidades transformava o púlpito em tribuna para criticar os governantes, para clamar por justiça social.

Suas querelas eram principalmente com o governo do Estado. Dom Jaime reivindicava recursos para Maringá e região. O governo do Estado recolhia os impostos e nada retornava em termos de melhorias. Os tempos da Frente Agrária Paranaense haviam ficado para trás, assim como seus embates com as Ligas Camponesas de Francisco Julião.

A Folha do Norte era um jornal quase meramente noticioso. Não tomava partido em questões relevantes. Algumas rusgas com a Prefeitura e a Câmara Municipal existiam, mas sem que isso se revelasse uma tendência.

Esta opinião não é compartilhada por grande parte dos que lá trabalharam, mas num comparativo com O Jornal de Maringá, todos concordam que a defesa de uma posição, ou de um nome, não era das maiores na história do jornal, excetuando o ímpeto de dom Jaime, no início, no combate ao comunismo.

Com João Paulino, as relações tinham sido difíceis, mas com Luiz Moreira de Carvalho e Adriano Valente, imperava a pasmaceira. Os dois últimos prefeitos tinham sido parceiros de dom Jaime na construção da Catedral.

Carvalho e Valente, através do prestígio do cargo, tinham colaborado sobremaneira para construir o gigante monumento. Portanto, em 1973, a Folha caminhava sem grandes sobressaltos. Ninguém imaginava, no entanto, que no ano seguinte o jornal viria a sofrer um duro golpe.

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 45 - FOLHA DO NORTE INAUGURA “A BUNDA”

No começo dos anos 1970, Walter Poppi fez um artigo para a página cultural de domingo, em que falava sobre as brincadeiras de criança. Lá pelas tantas do texto, Poppi ousou colocar a seguinte frase: “A gente pulava com a bunda na água, batia a bunda na água e saía pulando.”

Falar “bunda” naquela época era pornografia, escrever a palavra um insulto, e escrever no jornal do bispo, além de pornografia e insulto, era demissão na certa. A coluna foi entregue para Elpídio. O chefe das oficinas Gumercindo Carniel avisou Poppi que o artigo não iria sair.

O repórter pegou o texto e o levou ao linotipista. E na edição de domingo, saiu não apenas uma bunda, mas duas. Estava lançado o primeiro palavrão no jornal do bispo. Elpídio, incontinente, pediu a cabeça de Poppi. Já Assis, adotou o estilo Pilatos, lavou as mãos e deixou tudo com dom Jaime. Se o bispo ficasse quieto, Poppi continuaria.

Naquela semana, dom Jaime visitou o jornal. Corajoso, o repórter foi perguntar o que ele tinha achado do artigo. Para a surpresa geral, o bispo até elogiou: - Li, gostei muito. Está muito boa esta página. - Tem uma pornografia aí, o senhor não vai falar nada? - Não, mas se tem é o sentido da palavra. O sentido da palavra não tem nada demais. Está no contexto.”

Esta e outras histórias estão no contexto, estão no universo de um jornal que veio para não ficar, para permanecer só por duas décadas. mas que deixou marcas e revelou o espírito dos seus personagens.

terça-feira, 3 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 44 - MINI-CHICO E DANGER

O advogado Walter Poppi é um emérito contador de histórias. Se o assunto é Folha do Norte, então, ele tem um baú abarrotado. Sobre Mini-Chico e Danger, Poppi conta episódios sobre o início de carreira dos dois.

Francisco de Oliveira, prêmio Esso de Jornalismo, que já na década de 1980 escrevia sobre corrupção no governo Federal, sempre foi um apaixonado por agricultura. No início da década de 1970 era foca na redação da Folha do Norte.

Conhecido por Mini-Chico, culpa da estatura, ele cismou de fazer uma reportagem sobre um tema específico da agricultura. Elpídio Serra, que antes de ir trabalhar na Cocamar dizia que ninguém se interessava em ler matéria sobre agricultura, desancou o jovem e promissor repórter: “Ninguém lê esta porcaria”, afirmou raivoso.

Solidário com Mini-Chico, Poppi o autorizou a fazer a matéria. Matéria pronta, lá foi o repórter entregá-la ao editor-chefe. Já mostrando seu pendor detalhista, o foca disparou no título: “A crise da beterraba”.

Elpídio subiu pelas paredes, esbravejou e se recusou a publicar. Mas Poppi novamente interveio, ponderou, falou tanto da importância da raiz, seus nutrientes e os benefícios para a saúde que a matéria acabou saindo. Mini-Chico se tornou um especialista em agricultura, tendo seu nome reconhecido nacionalmente.

Na redação da Folha do Norte em que Mini-Chico trabalhou, um outro personagem marcou seu nome, ou melhor, seu apelido na história da imprensa maringaense.

Em 1972, o fotógrafo Aparecido Antonio, novato na profissão, foi escalado para fazer uma foto da fachada de uma das grandes empresas atacadistas de Maringá na época. A Dias Martins, localizada na avenida Paraná, que estava anunciando no caderno comemorativo do Jubileu de Prata de Maringá.

Preparado para fazer a foto surge um motorista nervoso querendo estacionar no local em que ele estava. Do bate-boca para as vias de fato foi um instante. Na volta para a redação, todos olharam com respeito para o até então pacato Aparecido Antonio.

O diretor Fregadolli olhou para o moço, dizendo para o pessoal da redação que ele era um perigo. Então, o diretor de publicidade Ivanbergue K. Pereira tascou-lhe o apelido: “Se ele é um perigo, então ele é Danger.” Pronto, estava feita a troca.

A partir daquele dia, nunca mais ele foi chamado pelo nome de batismo. Só pela tradução em inglês de “perigo”.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 43 - O CÉU E A TERRA PASSARÃO

Durante toda a existência da Folha, salvo raras exceções, dom Jaime publicou artigos aos domingos. E na capa. Ele abordava qualquer assunto, como faz até hoje no espaço que lhe é concedido no O Diário do Norte do Paraná, também aos domingos. Naquela época, dom Jaime tinha o costume de colocar um salmo logo após o título do artigo.

A história a seguir foi contada por Walter Poppi, que trabalhou na Folha do Norte de 1970 até 1979, no último ano do jornal. No início dos anos 1970, o bispo enviou ao jornal um artigo para publicação com a correspondente citação bíblica. O deste dia era “O céu e a terra passarão, mas Tu não passarás.” Da redação para o linotipista, daí para a impressão e o jornal ganhou as ruas.

Por um erro monumental do linotipista ou capricho do destino, o leitor da Folha do Norte daquele domingo teve uma surpresa daquelas e não teve como não cair na gargalhada ao ler o texto abaixo do título: “O cú e a terra passarão, mas Tu não passarás.” Ocorreu que a letra “e” não entrou na linotipo e o acento agudo foi parar no “u”. A gozação foi geral. Todos ficaram imaginando qual seria a reação do bispo.

Esta é considerada a maior gafe da história da Folha. Dom Jaime ficou bastante chateado nos dias seguintes, para dizer o mínimo, mas não promoveu nenhuma retaliação. Ninguém foi despedido. Todo o pessoal do jornal se esforçou e foi convincente nas explicações. Ele acabou entendendo. Segundo Poppi, o bispo levou na esportiva. Afinal, religioso que é, sabe que errar é humano.

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 42 - OS CENSORES E O DESENCANTO DE DOM JAIME COM A REVOLUÇÃO DE 64

Os jornalistas sofriam censuras das mais diversas na Folha do Norte. Começava pelo próprio Assis, depois era dom Jaime. E, para completar, a Polícia Federal. O agente Guilherme dava plantão semanal na Folha. No fim, depois de tantas visitas, acabou ficando amigo do pessoal da redação.

A ação da Polícia Federal era tão intensa que até matérias policiais eram censuradas. Num daqueles anos de mordaça uma edição deixou de circular porque foi publicada uma reportagem de um indigente que havia matado um outro indigente. Os policiais não concordaram com a maneira com que o repórter Antonio Calegari havia descrito o assassinato.

Toda Sexta-feira Santa uma grande procissão tomava conta das ruas próximas à praça da igreja onde hoje é a Catedral. Dom Jaime na frente e dezenas de padres das paróquias na seqüência. No final da década de 1960, o bispo estava desencantado com os rumos da Revolução, como era chamado o Golpe Militar de 31 de março de 1964.

Nesta época, ele subia em um caminhão transformado em palanque e descarregava toda a sua ira na ditadura militar, nos adversários políticos e em quem mais quisesse. Estes discursos eram acompanhados por agentes da Polícia Federal, mas o bispo nunca foi molestado.

Quem sofria era Assis, que chegava a mandar algum de seus repórteres para gravar o pronunciamento. No sábado de manhã, ao ouvir as palavras contundentes de dom Jaime, o editor se desesperava. “Meu Deus do céu!!” “Calma, Assis, isto é só uma gravação”, diziam. Evidentemente, estes discursos nunca foram publicados.

Homem na lua em 1969: artigo de dom Jaime sobre o assunto
(Reprodução)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 41 - ASSIS PRESO PELA POLÍCIA DO EXÉRCITO: DOM JAIME APELA PARA PAULO PIMENTEL

São histórias dentro de uma história. São fragmentos que ajudam compor e compreender um período de quase duas décadas. Personagens ricos em fatos importantes, curiosos ou do cotidiano.

A Folha do Norte deu espaço para que centenas de pessoas pudessem, com brilho ou modestamente, se inscrever na história de Maringá.

Histórias como a que Assis entrou inadvertidamente, no final dos anos 1960, quando um amigo de Niterói veio-lhe visitar na Folha do Norte. Assis deu-lhe seu cartão de visitas e ainda arranjou-lhe alguns trocados.

Poucos dias depois, o diretor de redação da Folha foi detido, levado para Apucarana e depois para a Polícia do Exército, em Curitiba. Ocorre que o amigo de Niterói era um subversivo e quando preso, em Cascavel, tinha entre seus documentos o cartão de Assis.

Muita gente interferiu para tirar o jornalista da enrascada. Dom Jaime apelou até para o governador Paulo Pimentel. Quem conhece o pacato Assis sabe que jamais ele poderia ser suspeito de subversão.

Livro: "O Jornal do Bispo" - Cápítulo 40 - DOM JAIME, JOÃO PAULINO E FRANCISCO JULIÃO

Faz muito tempo, mas dom Jaime não esquece detalhes de fatos marcantes da vida política maringaense, fatos já relatados por historiadores da cidade, ocorridos antes da fundação da Folha do Norte.

Para explicar o porquê da marcação cerrada que o jornal fazia sobre o então prefeito João Paulino, o arcebispo busca uma história de 1961. Uma história que também mostra seu ânimo em alta no combate ao comunismo e a seus lídres:

“Justamente quando veio o Francisco Julião, naquele confronto ali na praça da Catedral, não tinha a Catedral nova ainda, tinha só o hotel do lado, o Bandeirantes Hotel. E nós tivemos então, lá na frente do palanque, o nosso comício. Pouco adiante havia o comício na praça Napoleão, do Francisco Julião, onde estava o João Paulino, o Haroldo Leon Peres, Túlio Vargas, estava daquele lado lá. Eles vieram pedir se o Francisco Julião podia falar comigo. De jeito nenhum! Ele não apareça aqui que será apedrejado. E quando acabou o comício deles, eles vieram, então houve um choque. O João Paulino, com o doutor Sebastião Pimentel levaram e esconderam o Julião. Aí, a nossa turma lá, estava todo mundo revoltado, foram ao Grande Hotel, quebraram vidros. Depois soubemos que eles esconderam Julião na casa do doutor Pimentel. Mas queriam pegá-lo. Mas porque o doutor João Paulino fez aquilo, porque ele não fez, isso é ele que sabe. Mas, houve esse confronto.”


Luta ferrenha contra o comunismo
(Reprodução)
Apoio irrestrito ao golpe militar de 31 de março de 1964
(Reprodução)No rodapé da capa, a Folha do Norte informa sobre o encontro de dom Jaime com o presidente Médici
(Reprodução)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 39 – "A GENTE ADORAVA FAZER AQUILO"

Um dos responsáveis pelo noticiário local da Folha do Norte, de 1970 a 1971, era o francês Henri Jean Viana, nascido em Paris, em 1947, e que havia chegado com a família em Maringá em meados da década de 1950.

O óbvio apelido de Francês foi colocado pelos seus colegas de rádio em 1964, quando entrou na Rádio Atalaia como auxiliar de escritório, cargo em que permaneceu pouco tempo. Passou a técnico de som e depois a noticiarista.

Da Atalaia, Francês foi para O Jornal de Maringá. Em 1968, A. A. de Assis o chamou para trabalhar na Folha do Norte. Recusou porque o salário era o mesmo que ganhava no O Jornal.

“E eu disse: - Mas, quanto?” Ele falou: - 200. Eu disse: - Não, 200 eu ganho aqui no O Jornal. Aí, ele disse: - Mas aqui você vai trabalhar na Folha do Norte! Aí, eu falei: - Mas isso não me satisfaz, entendeu? Naquela época, jornalismo era um negócio mais boêmio, uma coisa bem mais desprendida de qualquer organização. Não existia essa preocupação de hoje. Pelo menos que eu visse, não. A cidade era pequena, a Folha era um jornal pioneiro, tinha que ter moral.”

Francês acabou aceitando o convite dois anos depois. Comparando o trabalho que realizava há 40 anos com o de hoje, ele vê muita diferença.

“Era muito desorganizado. Não tinha pauteiro, não tinha diagramador, quem diagramava era o próprio repórter. Não tinha revisor. O revisor só comparava o que estava escrito na lauda com o que estava escrito lá.”

Seus companheiros de redação, na época, eram o clã dos Serra, como ele chama os irmãos Elpídio e Ismael, que se revezavam na chefia do setor, e Wilson, A. A. de Assis, Frank Silva, Walter Poppi e Valdir Pinheiro.

Francês não gosta de recordar aquele tempo. Não porque algo tenha lhe marcado de forma triste ou alguma contrariedade. Ele é um homem prático, que prima pela racionalidade, entendendo que o importante é o que está acontecendo.

No intervalo entre a Folha do Norte e O Diário, trabalhou na TV Tibagi, afiliada do SBT. Intimamente ligado à política da cidade, escreveu por 14 anos a coluna DNP, na página 2 de O Diário. Para Francês, o jornalista perdeu a criatividade com o passar dos anos.

“Hoje em dia está mais engessado, com faculdade. Naquele tempo eu via muita gente escrever sobre textos abstratos. Chegava no Dia do Jornalista, o sujeito escrevia um texto sobre o que ele achava do jornalista, dava a opinião dele. O jornal tinha orelhas, lugar em que vão dois textos. Eu me lembro até hoje de um texto que o Rubens Ávila, escreveu sobre o domingo: - Hoje é dia de colocar um tênis folgado, um calção, dar uma volta na cidade... Então, falta esse o componente.”

Francês é considerado por grande parte da imprensa o melhor pauteiro da cidade, função que exerceu no O Diário de 2001 a 2004. Entre 1997 e 2000, ele esteve no comando da Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Maringá, retornando em 2005, onde ficou até final de 2006.

O espírito crítico de Francês, hoje chefe da Assessoria de Comunicação da Câmara Municipal de Maringá, cargo que ocupa desde 2007, avança até à profissão de jornalista. Lembra dos seus companheiros da Folha do Norte, que exercitavam a profissão a qualquer hora, eram os “fuçadores”, amavam aquilo que faziam. Era a paixão em estado bruto.

“Você era jornalista porque tinha jeito para a coisa. Você tinha aquela curiosidade. O composto principal de todo o repórter é ser muito curioso, um cara de mente bastante aberta. Hoje em dia, não. O cara entra na faculdade, mas eu acho que o ideal é o cara ter a queda para o jornalismo e ao mesmo tempo fazer a parte técnica. Você era jornalista porque achava que tinha de ser daquele jeito. Hoje, não. Você é jornalista e faz, sabendo que a técnica é aquela. Naquele tempo, todo mundo fazia um pouco de tudo, todo mundo se interessava. Hoje, você trabalha cinco horas. Naquele tempo eu entrava no jornal às 8 da manhã e saía às 10 e meia da noite. A gente adorava fazer aquilo, gostava. Não tinha o sindicato para te defender.”



Henri Jean Viana, o Francês: "Naquela época, jornalismo era um negócio mais boêmio, uma coisa bem mais desprendida de qualquer organização. Não existia essa preocupação de hoje"
(Foto: Antonio Roberto de Paula)

domingo, 1 de março de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 38 – AMOR À CAMISA

Durante nove anos, Walter Poppi escreveu na Folha do Norte. De 1970 até o jornal cerrar as portas em 1979. Poppi começou precocemente. Aos 14 anos, em 1962, no O Jornal de Maringá, estava escrevendo as primeiras laudas como auxiliar de Antonio Calegari, o Foquinha, considerado um dos melhores repórteres policiais da época.

Antes de ir para a Folha, Poppi trabalhou quatro anos na Prosdócimo, empresa de móveis e eletrodomésticos que faliu na década de 1980. Ele sempre gostou do jornalismo, mas procurou se formar em direito na UEM (Universidade Estadual de Maringá) na década de 1970 enquanto trabalhava na Folha.

A profissão de jornalista não era levada tão a sério como hoje. A maioria dos que militavam na imprensa analisava que era necessário obter um canudo, mas não eram todos os que estavam dispostos a encarar uma sala de aula.

Alguns, como Poppi, trataram de “garantir o futuro”. Casos também de Elpídio Serra e Messias Mendes, que viriam a se formar em geografia e história, respectivamente. Cursos de jornalismo na época só nas capitais. Era o tempo em que o pai dizia que o filho tinha que ser médico, advogado, engenheiro ou passar no concurso do Banco do Brasil.

Na troca de arrendatário, em 1973, e a inauguração do O Diário, no ano seguinte, a redação da Folha ficou bastante desfalcada. Saíram o fotógrafo Nelson Jaca Pupim, Valdir Pinheiro e Henri Jean Viana, o Francês, e ainda o colunista social Frank Silva.

Poppi havia entrado para ajudar Valdir no esporte, mas com o tempo passou a fazer o noticiário local, policial e o que viesse pela frente. Seus companheiros de redação depois da debandada para O Diário foram Mini-Chico, Manoel Cabral e o fotógrafo Danger. Chefiando a redação estava Elpídio Serra e Assis no comando.

A linha editorial da Folha não sofreu alterações. Assis continuava como diretor de redação e o espírito censor de dom Jaime estava sempre presente. Hoje, Poppi analisa que em muitas questões polêmicas da cidade a redação não fazia matérias em consideração a Assis. Se fossem feitas, Assis acabaria publicando, mas se indisporia com dom Jaime, como volta e meia acontecia.

Poppi ressalta, no entanto, que a Maringá dos anos 1970 era bem diferente de hoje. Não era todo o dia que se podia levantar uma boa pauta.

A gente trabalhava em função do Assis. Ele era um pai para nós e não um patrão. Um sujeito que todos gostam, né? Não tem quem não goste. Então, por amor ao Assis, a gente não apela. “- Não vamos sacanear o Assis, não vamos apelar”. E aquela época era um pouco diferente de hoje. Os problemas naquela época eram infinitamente menores do que são hoje. Nem droga tinha. Os problemas da polícia não eram a metade do que são hoje. Era tudo crime caseiro e de vez em quando tinha um assalto a banco.”

Todos os relatos dos repórteres da Folha convergem para um ponto: o desprendimento para fazer o trabalho e a preocupação com a repercussão das matérias publicadas. Não que isto seja uma prerrogativa apenas do jornalista da década de 1960, caracterizado quase sempre como bicho-grilo, boêmio que fazia um trabalho marginal.

A alegria e a paixão para fazer um texto que repercutisse moviam estes homens, a tal ponto que o tempo em que se dedicavam ao trabalho não era levado em conta. Poppi foi um destes homens.

“Você fazia por amor à camisa. Eu chegava de manhã e ficava até o meio-dia. Eu almoçava, voltava e aí eu ia pro pau fazer a pauta, fazer a página. Eu estudava à noite na UEM. Hoje, o jornalista só faz o turno dele, né? Cinco horas e ele faz o turno dele e vai embora, não quer nem saber. Nós, não, a gente vivia dentro do jornal. Eu mesmo, não largo nunca desta coisa de escrever. Surgiu uma brechinha e eu estou lá fazendo porque está no sangue.”
Mini-Chico, Nelson Jaca Pupin, Walter Poppi e Messias Mendes: equipe da Folha do Norte na igreja
(Foto- arquivo pessoal de Walter Poppi)
Walter Poppi: o faz-tudo da redação de 1970 até o fechamento da Folha
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo" – Capítulo 37 – A FOLHA DO NORTE E A COPA DO MUNDO DE 1970

O País respirava futebol naquele 21 de junho de 1970. Não era para menos. O escrete canarinho poderia chegar ao tricampeonato. A seleção comandada por Zagallo havia vencido todos os jogos da Copa do Mundo do México e tinha pela frente a Itália, que, com muita garra, chegara à final no Estádio Azteca, na Cidade do México.

A redação da Folha do Norte, que sempre ficava fechada aos domingos, porque não havia edição na segunda-feira, estava cheia de repórteres. O televisor, em preto e branco, evidentemente, estava ligado. Em cores, só viria a ser lançado dois anos depois.

A. A. de Assis, o chefe de redação; Valdir Pinheiro, o editor de esportes; Francês, que fazia as matérias locais; Moracy Jacques, o fotógrafo; e Walter Poppi, que havia sido contratado no dia anterior, eram alguns dos telespectadores.

Naquela época, televisor era artigo de luxo. Por isso, a torcida foi engrossada com funcionários de outros departamentos. O satélite colocava as imagens minutos antes do início da partida. Fora o jogo, dava para ver a execução do Hino Nacional e nada mais.

Na narração, a bela, apaixonada e ufanista voz de Geraldo José de Almeida. “Brasil, patrão da bola”. Era este o seu principal bordão. Em campo, Félix, Carlos Alberto, Brito Piaza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino.

Os jornalistas não estavam naquele domingo na redação apenas para assistir a decisão. Estava tudo preparado para uma edição especial na segunda-feira. As páginas internas já estavam prontas e faltava “apenas” o Brasil ganhar o tricampeonato para o material ir para as rotativas.

Valdir havia preparado várias matérias sobre a seleção, a campanha e o currículo dos craques com as fotos correspondentes. Uma página inteira foi dedicada a eles. O editor não esqueceu dos reservas Leão, Ado, Zé Maria, Baldochi, Fontana, Joel Camargo, Marco Antonio, Paulo César, Roberto Miranda, Dário e Edu.

O departamento comercial trabalhara muito contando com a possibilidade de faturar alto. Havia anúncios em todas as páginas. Se a seleção perdesse, além da tristeza, o prejuízo seria dos maiores. As empresas só concordaram em anunciar em caso de vitória. Derrota e a edição estaria suspensa. Quem gostaria de ler um jornal trazendo informações sobre a vitória da Itália?

Pelé fez o primeiro, de cabeça. Bonisengna empatou numa falha de Clodoaldo. Igualdade no marcador na primeira etapa e muitas dificuldades para Moracy Jacques tirar fotos das imagens da partida.

O fotógrafo da Folha já vinha fazendo isto desde a primeira partida da seleção, contra a Tchecoslováquia, e depois Inglaterra, Romênia, Peru e Uruguai. Era uma prática comum nos jornais da época.

Os assinantes da Folha do Norte eram brindados com fotos distorcidas, de pouca resolução e nitidez. Mas, todo leitor tinha a compreensão da impossibilidade do fotógrafo estar no local e enviar a foto para a redação no mesmo dia e daí ser publicada no dia seguinte. Poucos, naquela época, tinham uma mente tão fértil para imaginar esta tecnologia do século XXI.

Gerson marcou o segundo, num tirambaço de fora da área. Jairzinho, que havia feito gols em todos os jogos anteriores, ampliou pra 3 a 1. Moracy não sabia se assistia ou se fotografava.

Depois dos 40 minutos, com o título garantido, o Brasil passou a tocar a bola e a dar espetáculo. Como fez Clodoaldo, driblando cinco italianos num curto espaço. Mas havia tempo para fechar o placar em alto estilo.

Bola com Pelé na entrada da área, que rola milimetricamente para o capitão Carlos Alberto. Um tiro forte, seco, à meia altura, no canto direito do goleiro Albertosi, que nada pôde fazer. Brasil 4 a 1. Festa em todo o País e também na redação da Folha do Norte do Paraná. Alegria e alívio.

No dia 22, os leitores da Folha viram a capa com uma enorme foto de Pelé. Nas internas, tudo sobre o Brasil na Copa do México. Valdir Pinheiro, A. A. de Assis e Walter Poppi deram todos os detalhes do jogo naquela edição histórica.

Em quase todas as páginas, anúncios das empresas, que pegaram carona na festa da vitória cumprimentando e congratulando-se com a seleção. O time era muito bom e o ufanismo também. Um clima excelente para exaltar a pátria e vender anúncios. Uma nova edição extra da Folha do Norte só viria a ser rodada em 10 de maio de 1972, no Jubileu de Prata de Maringá.


Edição especial do tricampeonato mundial, em 1970
(Reprodução)

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 36 – UM PEDALANDO, OUTRO NA GARUPA

Em quase todas as tardes de domingo, entre 1967 e 1970, os garotos Serrinha e Perereca atravessavam a cidade de bicicleta para cobrir os jogos do Campeonato Amador da Liga Desportiva de Maringá.

Eram dois, até três jogos no mesmo horário no “Brinco da Vila”, na Operária, na “Telefônica”, na Vila Nova, no “Américo Dias”, o campo do SERM no Maringá Velho ou no Mandacaru. Um pedalava e outro na garupa, máquina fotográfica pendurada no pescoço.

Wilson Serra e Messias Mendes eram os responsáveis pela página do amadorismo. Como o jornal não circulava na segunda-feira, as informações sobre a rodada e as fotos só saíam na terça. De todas as lembranças do seu tempo de Folha do Norte, de 67 a 70 e de 71 a 72, as relacionadas com o esporte são mais marcantes para Wilson Serra.

Os Jogos Abertos do Paraná, que perderam a força com o tempo, e o Campeonato Brasileiro de Voleibol Juvenil, que atraíam grande público e recebiam generosos espaços na Folha, também são inesquecíveis. O apego de Serrinha pelo esporte é justificável. Uma compensação diante do conservadorismo e censura daqueles tempos.

“A linha moderada e conservadora foi ingrata para a geração de fatos marcantes. Na minha lembrança, apenas as dificuldades, a falta de estrutura, o improviso e o apaixonado amadorismo do trabalho.”

A Folha do Norte foi o primeiro emprego de Serrinha. Tinha 14 anos quando começou como cobrador de assinaturas no departamento de Circulação. O seu interesse, no entanto, era pela redação. Valdir Pinheiro, redator de esportes, foi quem lhe deu a chance de começar a escrever.

Valdir deixava que ele escrevesse algumas notinhas, ia revisando e publicando alguns textos e, de tanto insistir, ganhou uma coluna com notícias do esporte amador de Maringá e região, a Amadorismo. O fato de ter uma coluna não significava que estava liberado de suas funções no departamento de Circulação.

Foi quando Valdir novamente interferiu e conseguiu de A. A. de Assis a transferência definitiva de Serrinha para a redação. Até 1970, ano em que teve a experiência de trabalhar em Rádio, na Cultura, Wilson Serra fazia, além da coluna, todo o noticiário amador e ainda colaborava nas matérias locais.

Seus companheiros da época ressaltam esta paixão de Serrinha pelo jornalismo, numa época em que ninguém tinha funções específicas definidas. Até uma máquina fotográfica ele comprou e aprendeu a fotografar com Moracy Jacques.

Já se passaram 40 anos e a memória não retém tantos detalhes. Serrinha fala dos irmãos Elpídio, que fechava a primeira página, e Ismael, do noticiário local, de Verdelírio, de Messias, que começou com ele, de Kaster Carrara e Walter Poppi, Moracy Jacques, Frank Silva, o falecido Struett, chargista de grande criatividade. Elogia o jornalista e poeta Assis pelo brilhantismo do texto, agradece os irmãos que, pela experiência e textos mais apurados, revisaram muito do que escrevia, e chama Valdir Pinheiro de professor.

Atualmente na chefia de jornalismo da Rede Paranaense de Televisão, ele consegue, aos 55 anos, avaliar com maior nitidez aquele período de 1967 a 1970: um extremo conservadorismo e submissão aos poderes que se contrapunham ao avanço tecnológico e à organização dos setores. Sendo um jornal recheado de releases do governo do Estado e da Prefeitura, e o País sob a tutela da ditadura militar, Serrinha fez do esporte amador sua paixão e também o seu escape.

Wilson Serra, chefe de jornalismo da Rede Paranaense de Televisão, começou a trabalhar na Folha do Norte com 14 anos
(Foto - arquivo TV Cultura -Rede Globo)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 35 – POLÍCIA FEDERAL INVADE A FOLHA DO NORTE E EMPASTELA EDIÇÃO

Nos meses que antecederam o Ato Institucional nº 5, o AI-5, o golpe fatal no resto de democracia, decretado em dezembro de 1968, os movimentos grevistas pipocavam no País. No dia 1º de outubro, Maringá entrou no circuito grevista. Os empregados da Cia Norpa Industrial, empresa que comprava e industrializava soja, cruzaram os braços.

Foi a primeira greve da história de Maringá. O Jornal de Maringá chegou a publicar matéria a respeito da onda de paralisações, que incluía a cidade. No dia 5, chegou a dar o seguinte título: “Maringá pode parar”.

Escrever sobre greves na Folha não era permitido por dom Jaime. o arrendatário Joaquim Dutra concordava que o jornal não deveria se meter em assuntos que desagradavam o governo Federal.

Ocorre que no dia anterior à greve da Norpa, os repórteres da Folha resolveram entrar no clima, escrevendo matérias a respeito. Afinal, aquilo que estava acontecendo era uma grande novidade e um jornal como a Folha, que ia para todas as cidades da região, não poderia ficar indiferente.

Mais do que a motivação esquerdista, valia era a novidade. Por volta da 1 da madrugada do dia 1º de dezembro, quando os protestos em frente à Norpa começaram, a redação da Folha foi invadida.

Houve vazamento de informação. A Polícia Federal de Londrina ficou sabendo que ia ser publicada a matéria e mandou seus agentes para Maringá. O editor Elpídio Serra estava naquela hora na redação esperando o jornal ser rodado.

“O agente Guilherme, eu me lembro dele até hoje. Ele disse: -Vocês estão publicando. Eu disse: - Não, não estou publicando. E aí, enquanto eu estou falando com ele, um outro agente já está na oficina, já tinha empastelado o jornal. Enquanto eu estava discutindo com ele, dizendo que não estava publicando nada, já tinham mexido na página toda. Então o jornal não publicou nada.”

A direção da Folha foi informada do episódio logo em seguida, mas partindo da premissa de que “bom cabrito não berra” Joaquim Dutra preferiu não polemizar. Com dom Jaime foi o contrário. Não somente ficou revoltado com o ocorrido, considerando uma afronta, como, logo de manhã, foi à Norpa apoiar o movimento.

O bispo assumiu declaradamente a posição ao lado dos grevistas. Para Elpídio, o episódio ilustra a personalidade de dom Jaime, que quando tomava uma posição ia até o fim. A sua coragem em tomar posições contrárias ao regime militar foi alimentada pela mudança do discurso da Igreja, que intensifica a discussão sobre os excluídos neste período.

Elpídio elogia esta postura do arcebispo, se recordando de um outro fato:

“Dom Jaime nunca vacilou. Se ele achou uma posição, vai até o final, ele não arreda, ele tem palavra, ele sustenta o que diz. Quando houve o assentamento em Paranacity, a terra invadida era da Usina Santa Terezinha, um grupo forte em Maringá, economicamente. Aí dom Jaime vai para lá e a expectativa dos empresários é de que ele vai mandar as pessoas se retirarem. Dom Jaime rezou a missa e disse: - Vocês ficam, vocês têm direito, a terra pertence a vocês! Um discurso totalmente diferente de antes. Ele mudou e quando mudava, mudava em função dos fatos novos e sustentava a mudança.”

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 34 - JOAQUIM DUTRA DISSE: “VOCÊ VAI SER FOTÓGRAFO”

“Olha, eu te conheço. Se essa fotografia sair na Folha eu vou te matar também”. A polícia havia prendido um assassino num matagal da cidade e o fotógrafo da Folha do Norte foi à delegacia registrar o fato. A ameaça o fez tremer de medo.

Não teve dúvidas: não revelou o filme. Quando o repórter Antonio Calegari, que cobria a polícia, pediu a foto, ele disse que o filme tinha estragado e por isso não dava para revelar. Ser fotografado pela Folha era sucesso garantido, mas fama era o que menos queria o fotografado em questão. E Moracy Jacques não queria encerrar sua vida logo no início de carreira. A maior parte das fotos publicadas na Folha do Norte de 1966 a 1976 foi tirada por Moracy Jacques.

Nelson Pupin, o Jaca, que tem seu nome associado ao O Diário, e Valdir Carniel, ex-cinegrafista da Globo em Maringá, foram seus alunos e auxiliares na Folha. Fazia pouco tempo que havia saído do seminário quando chegou à cidade, em 1965, e nunca tinha tido contato com uma máquina fotográfica.

Foi trabalhar na Rádio Cultura, levado por dom Jaime, para fazer boletins noticiosos. Reinaldo de Almeida César tinha pedido as contas na Folha do Norte e como Joaquim Dutra era seu patrão na rádio e arrendatário do jornal, deu-lhe a ordem: “- Você vai ser fotógrafo!”

“Eu nunca tinha visto uma máquina fotográfica. Peguei uma Yashica 6x6, que hoje nem existe mais, só em museu. Mas, o seu Joaquim era uma pessoa curiosa e disse: - Vamos ver como faz fotografia. Aí começamos a fazer testes até que conseguimos fazer algumas fotos. Então, era muito preocupante porque a gente fazia as fotos e não sabia se ia sair. A gente pedia socorro também para o Foto Maringá, que explicava como era.”

Seminarista era sinônimo de cultura. E não sem razão. A Folha recrutou alguns, como Moracy, porque não havia mão-de-obra especializada para trabalhar na redação. A ordem de Dutra era para que fotografasse, mas, pelos seus conhecimentos adquiridos no rigor do seminário, Moracy se tornou também revisor e escrevia a coluna Almanaque, com horóscopo, copiado dos jornais de São Paulo ou por ele inventado, letra de música, número da sorte, que ele escolhia aleatoriamente, e poesias. Neste item, Moracy recebia ajuda do diretor de redação e poeta A. A.de Assis. A coluna ficou famosa e durou praticamente todo o tempo em que ele ficou na Folha.

Moracy desfila curiosas histórias daquele tempo, como a de uma mulher que queria lhe dar dinheiro como forma de agradecimento por ter ganho na loteria a partir de um palpite tirado da Almanaque. Ele não aceitou porque nada havia de científico naquilo e sim uma simples e feliz coincidência.

Ele se lembra de um jogo do Grêmio no estádio Willie Davids. No sábado, atravessou a madrugada jogando baralho com os amigos. Só parou às 2 da tarde para ir fotografar o jogo. Bola rolando e o sono chegando até que Moracy não aguentou. Dormiu atrás do gol.

Só acordou, bastante assustado, depois de um estridente apito do árbitro num escanteio. Foi uma grande gozação dos colegas da imprensa que faziam a cobertura da partida. O fotógrafo do O Jornal na época era Luiz Nora Ribeiro, que não pode socorrê-lo.

Moracy afirma que não havia troca de fotografias entre eles, fato comum entre repórteres fotográficos do interior. Neste aspecto, Joaquim Dutra era por demais severo.

O salário na Folha era pouco. O grosso dos rendimentos vinha com os trabalhos extras, como inaugurações, casamentos, festas. Com a saída de Reinaldo, Frank Silva levava Moracy para todos os eventos.

“O jornal não pagava nem as despesas, tanto é que no início eu dormia dentro do jornal mesmo, lá em cima dos jornais velhos. Eu não morava aqui, morava no sítio. Então, terminava a edição eu nem ia para casa, dormia dentro do jornal. Mas eu fazia muito social. Inaugurava uma loja, terminava a inauguração, eu ia ao laboratório, revelava o filme e montava o álbum. No outro dia, cedo, eu já estava entregando o álbum para o cliente.”

As fotos da Catedral, desde o início da construção, são de Moracy, feitas a pedido de dom Jaime. Também as inaugurações das rodovias Maringá-Campo Mourão, Maringá-Paranavaí e Umuarama-Guaíra; o acompanhamento de todo o Caso Lô, o garoto assassinado por policiais civis; dos jogos do Grêmio e dos políticos.

Apesar de todo este material, Moracy não possui um arquivo pessoal. Depois que deixou a Folha, foi cuidar do departamento de fotografia do O Diário. De lá, enveredou para as produções de vídeo, sendo hoje um dos mais conceituados profissionais do ramo no Estado, dono da Jacques Vídeo.

A Folha traz boas lembranças a este paranaense de Cornélio Procópio, contudo, as principais não estão relacionadas com o trabalho de fotógrafo.

“Eu sinto muito saudade daquele pessoal com quem convivia. A gente tinha uma participação maior na sociedade. No ramo que estou hoje, estou totalmente separado da sociedade. Então, eu sinto saudade daquilo e a alegria de ter feito aquela coluna que recebia 50, 60 cartas por dia da região toda pedindo letras de músicas. Eu recebia muita carta, telefonema. Fui um grande freqüentador do Império, o bar em que a gente se reunia com o pessoal do rádio. Tinha uma união muito grande.”



O fotógrafo da Folha Moracy Jacques na coluna de Verdelírio Barbosa
(Reprodução)


Moracy Jacques: “Eu não morava aqui, morava no sítio. Então, terminava a edição eu nem ia para casa, dormia dentro do jornal”
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 33 – O SONHO MUTILADO

Quando o assunto é jornalismo, Elpídio Serra é sinônimo de desilusão. Funcionário da Folha do Norte por dez anos, de 1965 a 1975, começou como secretário de redação e chegou a redator-chefe.

Tinha apenas 12 anos quando entrou no jornalismo: como auxiliar de revisor no O Jornal de Maringá, onde ficou por quatro anos. Em 1962, foi para a Rádio Cultura escrever boletins. A transferência para a Folha ocorreu em 1965, um ano depois de Joaquim Dutra arrendá-la.

Pelo tempo em que lá trabalhou e por ter ocupado a chefia, Elpídio é um dos profissionais que mais compreendem o que se passou com a Folha do Norte. Mas, ele não faz uma análise individualizada do jornal. Prefere pôr todas as publicações no mesmo nível quando avalia a dependência ao poder vigente para poder sobreviver. Para Elpídio, nada mudou em mais de quatro décadas.

A desilusão, somada a uma boa dose de indignação, é decorrente, segundo ele, do provincianismo da imprensa maringaense que, na sua avaliação, continua como nos tempos de dom Jaime e Ivens Lagoano Pacheco.

Uma desilusão que o fez parar de escrever há quase 20 anos e a se tornar um crítico ácido. O desiludido e indignado, Elpídio não escolhe palavras para explicar porque resolveu aposentar a máquina de escrever.

“A desilusão é muito grande. Antes a gente vibrava muito, mas, depois, ou ia ser empregado do Frank Silva ou empregado do Fregadolli. Aí eu comecei a analisar. Eu pensei: acho que não dá, não. Aí, eu comecei a me perguntar se era um vendedor ou um jornalista. Aí começou a desilusão. Comecei a trabalhar com a Folha de Londrina, um período na sucursal de Maringá. Não gostei do ambiente. Fui correspondente da Folha de S. Paulo aqui na região, fui convidado a trabalhar em São Paulo. Fui para lá e comecei a me realizar novamente, mas minha família não se adaptou. Os jornais de Maringá também eu não queria e surgiu então a possibilidade da Cocamar. Eu gostava de fazer jornalismo, mas aquele jornalismo não tinha mais espaço para mim. Montei o Jornal da Cocamar e fiquei lá até 1991.”

Em 1991, Elpídio lecionava geografia na UEM e houve pressão para que os professores fizessem pós-graduação. Optou em continuar os estudos e foi fazer mestrado em São Paulo. Foi convidado a voltar à Cocamar, mas surgiu a oportunidade de doutorar-se e então continuou em São Paulo.

Numa sala simples do bloco G-34 da UEM, o professor, mestre e doutor Elpídio dá plantão diário atendendo acadêmicos do curso de geografia. Suas palavras parecem conter mais do que desilusão e indignação ao analisar o jornalismo maringaense.

Contêm mágoa. Inconscientemente, ele culpa este sistema, que ignora a qualidade e privilegia o faturamento, de ter mutilado seu sonho de estar até hoje exercendo uma paixão que começou na tenra idade.

Elpídio, que nasceu em Cambé (PR) em maio de 1946 e que em outubro do mesmo ano já estava em Maringá, volta a dispara:

"É aquele negócio: eu quero fazer jornalismo, mas, mais do que isto, eu quero um emprego. Tem gente boa por aí, mas de que adianta fazer jornalismo se depois ninguém publica?”

(Assim como todas as entrevistas concedidas para este livro, esta também foi realizada em 2001)
Elpídio Serra trabalhou por 10 anos na Folha do Norte
(Foto: Tabajara Marques)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 32 – O CACHIMBO PELO EMPREGO

No final de 1963, Messias Mendes, então com 14 anos, era o office-boy da agência de notícias Transpress. Ele corria, literalmente, para as emissoras de rádio e redações dos dois jornais da cidade, levando matérias nacionais e estaduais.

O trabalho era cansativo. Depois de fazer a entrega de um lote de matérias lá vinha outro. E assim foi levando até 1965, quando a Transpress fechou em Maringá. O contato diário com o ambiente das redações fez com que Messias fosse pedir emprego na Folha, já sob nova direção, arrendada para Joaquim Dutra e Antonio Augusto de Assis, tendo Ivens Lagoano Pacheco como editor-chefe.

“O Ivens é uma espécie de referência da história do jornalismo de Maringá. Muito irreverente, naquela irreverência gaúcha, ele brincou comigo. Era para eu comprar um cachimbo para ele, e se ele gostasse do cachimbo eu estaria empregado.”

E lá foi Messias tentar cumprir a missão para obter o emprego. Passou na Livraria Iracema, do cearense Ermenegildo Gomes de Castro e, sendo baiano da Pintadas, invocou a solidariedade nordestina.

Na livraria, que também era um bazar e abrigava quinquilharias de toda a espécie, Ermenegildo escolheu o mais bonito cachimbo. Messias levou para Ivens, que botou o fumo e acendeu. Em seguida, mandou contratá-lo e já sapecou-lhe um apelido que felizmente não saiu da redação: Perereca. O motivo até hoje é inexplicável.

O garoto Messias passou a trabalhar com um grupo de primeira. Além de Ivens e Assis, compunham a redação os irmãos Serra, Ismael, Elpídio, depois Wilson; o respeitado repórter policial Antonio Calegari, que se tornou editor-chefe do Jornal do Comércio, no Rio de Janeiro; Quester Carrara, atualmente um especialista na área educacional; Borba Filho, editor de esportes, que depois se tornou técnico de futebol; Valdir Pinheiro, que de tipógrafo passou a colunista esportivo, entre outros.

Esta proximidade com a redação e o gosto pela escrita, no entanto, não foram suficientes para que Messias começasse de cara a escrever na Folha. Teve que trabalhar na expedição, fazer pacotes de jornal, subordinado de Elpídio Serra e depois companheiro de Serrinha, o Wilson, hoje editor-chefe da Rede Paranaense de Televisão.

“Eu estava sempre escrevendo, mostrando meus textos, alguns achavam que eu tinha jeito.”

Messias criou coragem e pediu uma chance para escrever sobre amadorismo. Wilson Serra, que deixou o jornal para trabalhar na TV Tibagi, era o responsável pela coluna Amadorismo e o indicou para substituí-lo.

Do esporte amador para o profissional, do profissional para o policial. Em jornal do interior na década de 1960, fazia-se de tudo, passava-se pelas editorias constantemente. Até hoje é assim em muitas cidades.

O Grêmio Esportivo de Maringá era uma das maiores forças do Estado: bicampeão paranaense, tri do norte. A Folha destinava amplo espaço ao futebol, dedicando até três páginas ao Galo do Norte e aos clubes paulistas.

Apesar de dom Jaime ter arrendado a Folha, ele mantinha um representante na redação. No final da década de 60 era o seu sobrinho João Amélio. E foi João Amélio o responsável pela saída de Messias do jornal.

“Ele continuava achando que eu tinha de trabalhar como office-boy. E aí ele mandou eu entregar leite. Eu tinha de entregar leite nas casas dos funcionários. Mas, eu já era conhecido e tinha que sair pedalando bicicleta... Eu disse: - não vou. Então, ele disse: - tá na rua. Então, tudo bem. Ele me demitiu.”

Da Folha para o O Jornal, onde ele ficou quatro anos. Depois para a Rádio Atalaia fazendo sonoplastia para os apresentadores de programas Santana, Tatá Cabral e Frambel Carvalho.

O passo seguinte foi a Folha de Londrina, vindo depois as assessorias, o SBT e a direção da seccional maringaense do Sindicato dos Jornalistas de Londrina. Depois de 46 anos, ainda na labuta, o baiano de Pintadas enfatiza o romantismo que predominava na época. Destaca a gana na busca da informação, a verdade a imperar, a ética a prevalecer. As românticas redações ficaram perdidas no tempo.

"Hoje, a preocupação é com o aperfeiçoamento técnico. O jornalismo está igual ao futebol: aumento da competitividade e diminuição da arte."


Grupo de funcionários da Folha do Norte, em 1966: Messias Mendes é o garoto agachado, à frente
(Foto - arquivo Gumercindo Carniel)
Messias Mendes: primeiro chefe foi Ivens Lagoano Pacheco
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 31 – O CATADOR DE MILHO

Um dos repórteres mais queridos e lembrados da Folha do Norte é Valdir Pinheiro, que morreu em dezembro de 2000, em decorrência de problemas respiratórios, aos 52 anos.

Valdir passou a ser uma referência quando se fala de paixão pelo jornalismo. Ele conquistou seu espaço às custas de muita força de vontade. Quando a Folha iniciou as atividades, era um dos garotos entregadores de jornal.

Depois, passou a mancheteiro. Não o mancheteiro de hoje, que fica digitando títulos até encontrar o que se encaixe nas colunas. Era auxiliar de linotipista. O trabalho de Valdir era colocar os tipos, ou seja, as letras, para compor na caixa que posteriormente ia para a impressão.

Como este trabalho artesanal era feito depois que a redação estava fechada, o editor de esportes, Borba Filho, pedia a Valdir que gravasse os jogos de futebol da noite, principalmente os do Campeonato Paulista.

Borba deixava lacunas na página para que fossem colocados os resultados e outros detalhes das partidas. Valdir gravava tudo e depois sentava em frente a uma Remington e, “catando milho”, datilografava as fichas técnicas.

Depois que Borba Filho saiu da Folha, em meados da década de 1960, o corintiano Valdir assumiu a editoria de esportes e ensinou muitos profissionais. Wilson Serra, por exemplo, o trata de professor. Antonio Augusto de Assis o define como uma das pessoas mais queridas da redação da Folha do Norte.

Durante toda a sua vida, Valdir Pinheiro foi ligado à imprensa. Depois da Folha, trabalhou no O Jornal de Maringá, O Diário, rádios Cultura, Difusora e Atalaia e Jornal do Povo.

De todos os jornalistas esportivos de Maringá, Valdir era um dos maiores conhecedores da história do Galo do Norte, como é conhecido o Grêmio Maringá. Ele esteve reportando praticamente todas as conquistas do Grêmio Esportivo, Grêmio de Esportes e outros grêmios que vieram a seguir.

Em 30 de setembro de 1990, sofreu um grave acidente de carro quando retornava de Anápolis (GO) com a equipe da Rádio Atalaia. Ele estava em companhia do narrador Denival Pinto e do comentarista e empresário Edson Campos.

Valdir era o repórter da equipe que havia ido a Anápolis fazer a cobertura do jogo entre Anapolina e Grêmio válido pelo Campeonato Brasileiro. No acidente, quebrou a perna esquerda. Submeteu-se a várias cirurgias, mas nunca mais andou normalmente. Denival quebrou algumas costelas e Edson teve escoriações.

Até pouco antes de morrer, em dezembro de 2000, o paulista de Álvares Machado, que chegou ainda menino a Maringá, escrevia a sua coluna De olho em tudo no O Jornal do Povo. Ainda “catando milho” com os dois dedos indicadores.

Em 2002, a administração do Partido dos Trabalhadores, que tinha como prefeito José Cláudio Pereira Neto, inaugurou o ginásio de esportes da Vila Olímpica, dando-lhe o nome de Valdir Pinheiro.

A sugestão partiu do professor e historiador Reginaldo Benedito Dias, que era o chefe de gabinete; sugestão acatada pelo prefeito e pelo então secretário municipal de Esportes Mário Verri.

Verri, que é vereador em sua segunda legislatura, diz que a escolha do nome de Valdir Pinheiro para o ginásio é uma justa homenagem da cidade a um profissional que teve sua vida intimamente ligada ao esporte de Maringá:

“Valdir Pinheiro foi um pioneiro da imprensa maringaense, amigo de todos. Além do futebol profissional da cidade, em que era um dos maiores conhecedores e um apaixonado torcedor, divulgou o esporte amador de Maringá tanto na sua coluna em todos os jornais em que trabalhou como nas emissoras de rádio.”
Valdir entrevistando o Rei Pelé em Maringá virou foto de capa, em junho de 1974
(Reprodução)

No acidente de 1990, Valdir teve séria lesão na perna. O pioneiro do jornalismo esportivo de Maringá morreu em dezembro de 2000
(Foto - arquivo Jornal do Povo)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 30 – O SEMINARISTA REVISOR

O mineiro de Alfenas, José Aparecido Borges, chegou de trem em Maringá logo no início da década de 1960. Havia saído do seminário depois de concluir o curso científico, o ensino médio de hoje. Arranjou emprego rapidamente na cidade, na secretaria do Curso Pernambucano, onde havia aulas de datilografia e ensino primário, o 1º grau.

Nilton Pereira era repórter da Folha e um dos professores do Curso Pernambucano, em 1962. O jornal havia sido inaugurado em setembro daquele ano e eram muitas as dificuldades para se encontrar pessoas qualificadas para trabalhar na redação.

Nilton convidou Borges para trabalhar como revisor da Folha. E ele foi. Mesmo acostumado com a hierarquia eclesiástica, ele se surpreendia com a reverência dos funcionários da Folha quando dom Jaime aparecia. Ele compara a um evento quase solene. Fora isso, não havia surpresas.
Borges era a pessoa talhada para o posto. Calmo, estudioso e atento, ele evitou que muitos “ratões”, termo que se usa nas redações quando ocorrem erros crassos, fossem publicados.

“Os erros maiores eram de datilografia, troca de letras e também linhas trocadas. Na medida que a linotipo fazia a notícia, muitas vezes trocava a linha. Eu penso que os erros ortográficos daquela época eram relativamente iguais aos de hoje. Talvez naquela época havia um rigor neste sentido. Na Folha, era muito rigoroso, mas mesmo assim, esporadicamente, saíam alguns erros.”

Naquela época, a figura do revisor era indispensável na redação. Mesmo o computador, em que a correção é feita imediatamente, não impede que erros injustificáveis ocorram até em títulos e não apenas em jornais do interior.

A história de Borges é exemplar para mostrar que não são todas as pessoas que ganham a oportunidade para trabalhar numa redação de jornal e que possuem qualificação suficiente para ser um bom redator continuam na profissão.

Borges tinha a técnica, um ótimo conhecimento da língua portuguesa, mas não tinha vocação para ser jornalista. A sua timidez fazia com que se isolasse no seu canto e pouco contato tinha com os repórteres, já que seu serviço começava quando terminava o da redação.

Não foi apenas revisor na Folha. Sua cultura, que hoje inclui amplo conhecimento do latim e grego, línguas que estudou por cerca de sete anos, fazia com que redigisse notinhas para colunas e palavras cruzadas, estas geralmente publicadas aos domingos.

Como não havia faculdade em Maringá naquele início de década, o estudioso Borges decidiu matricular-se no Colégio Marista para repetir o 2º grau, desta vez como técnico em contabilidade. Esta decisão foi uma das causas de sua saída.

“A minha saída da Folha foi em decorrência de trabalhar até altas horas da noite e durante o dia não conseguia dormir, dormia muito pouco. Antes de começar o trabalho, fazia o curso de contabilidade. E depois, terminando o curso, todos iam para casa e eu ia para o trabalho. Trabalhar à noite me esgotou muito.”

O estilo boêmio do pessoal da redação não combinava com Borges. Um ano depois de ter sido admitido, em dezembro de 1963, pediu as contas. Além da falta de adaptação, o metódico Borges tinha uma razão mais forte para sair da Folha. Havia conseguido emprego na Câmara Municipal de Maringá.

O contato com projetos de lei, requerimentos, ofícios, indicações, regimento e Lei Orgânica do Município era o trabalho perfeito para um homem organizado como ele. Tão perfeito que se aposentou como funcionário público, chegando o ocupar o cargo mais importante entre os funcionários do Legislativo: diretor-geral.

É importante esclarecer, no entanto, que Borges tem orgulho de ter pertencido ao grupo de pioneiros da Folha. Seguiu um caminho oposto do jornalismo, mas guarda boas recordações daqueles tempos, das pessoas, dos ambientes.

Ele conta uma história que hoje soa como absurda, mas quem viveu naquela época em Maringá sabe que é perfeitamente plausível. Borges lembra que certa vez, logo que começou a trabalhar na Câmara, esqueceu sua bicicleta destrancada em frente à loja Prosdócimo, na esquina das ruas Santos Dumont e Basílio Sautchuck, no centro da cidade.

Na saída do trabalho, imaginou que a tivesse deixado em casa. Foi para lá e não a encontrou. Somente no dia seguinte, passou a relembrar o itinerário que havia feito e foi à Prosdócimo. A “magrela” estava lá, no mesmo lugar em que havia deixado.

Borges conta esta história para ilustrar a Cidade Canção no início da década de 1960. Hoje, se assusta com todo este progresso, toda esta decantada modernidade, que colocou em crise o respeito humano, que excluiu o latim do currículo escolar e que nos tornou prisioneiros dos nossos medos. O tímido, metódico e culto Borges, aos 65 anos, casado, três filhos, mantém a fineza de sempre.

Borges: longe do jornalismo, mas com boas recordações da época da Folha do Norte
(Foto: Tabajara Marques)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 29 – GANHANDO PARA TER PRAZER

Em cartaz no Cine Maringá O Cavaleiro das 100 caras. Estrelando Lex Baker, que tinha deixado de ser Tarzã e tentava continuar com o sucesso fazendo outros filmes de aventura. Baker contracenava com Liana Orfei.

Em 1962, o leitor da Folha do Norte do Paraná podia obter informações sobre cinema na coluna de Otacílio Cabral, um jovem de 18 anos, que com o tempo passou a ser conhecido como Tatá.

Vindo de Santos sete anos antes, Tatá começou no rádio maringaense pouco antes de entrar na Folha. Sua experiência com impresso se resumia a uma coluna do mesmo estilo na Tribuna de Maringá. A música, outra paixão de Tatá além do cinema, também ganhava espaço na coluna.

Conseguir informações sobre os lançamentos musicais não era difícil. Tatá tinha programa de rádio e era discotecário. O problema era com o cinema.

Na década de 1960 os filmes chegavam ao Brasil com grande atraso. O maringaense tinha acesso só depois de terem sido rodados nas principais cidades brasileiras. A Internet estava tão distante que não passava nem pela cabeça dos roteiristas mais visionários. A fonte de consulta era a revista Cinelândia.

De lá, Tatá tirava a maior parte das informações. Ele tenta esconder qualquer traço de sentimentalismo ao recordar seu início no jornalismo, evita frases que revelem o objetivo de valorizar em demasia aquele período e sabe se colocar no contexto histórico do jornalismo maringaense. Mas fala com satisfação da popularidade.

“Eu era conhecido também pelo rádio. Era gratificante porque as pessoas me procuravam para saber na rua: - Escuta, aquele filme que vai passar domingo, realmente é bom? Era gostoso e gratificante e a gente ganhava muito bem por isso.”

Ele não consegue se lembrar do salário. Na Tribuna, fazia a coluna por puro prazer. Já na Folha do Norte, ganhava para ter prazer. No forte esquema empresarial montado pela Folha, Tatá faturava o mesmo que no rádio. O dinheiro decorrente do trabalho de duas tiras diárias era o equivalente às funções de locutor, repórter e discotecário.

Para uma cidade que contava com dois jornais, a Tribuna, que passou de publicação diária à semanal e logo desapareceu, e O Jornal de Maringá, restritos à vida doméstica, sem grandes aspirações, a chegada da Folha do Norte foi comemorada.

O sonho de torná-la a melhor do interior do Brasil contagiou os profissionais da imprensa, deu um novo alento àqueles românticos das letras. A racionalidade da profissão, que trazia o sustento, o prazer de ver impresso o pensamento e o reconhecimento, ainda que restrito para poucos além das divisas do Município, compunham o perfil destes pioneiros da era efetivamente empresarial do jornalismo maringaense.

Aos 64 anos, Tatá Cabral, o editor do O Jornal do Povo desde 1991, amante do rádio, onde apresentou programas diversos sobre esporte, música, cinema, variedades e política na Cultura, Atalaia e Difusora, procura um ponto imaginário na parede para se localizar naquele tempo.

O santista Tatá, da cidade e do clube, com passagem pelo SBT como apresentador de programa de esportes, na década de 1990, sorri para conter a emoção e volta aos 18 anos. Ainda na busca do ponto imaginário, como se o filme de 1962 da Folha do Norte começasse a ser exibido neste momento, ele diz:

“O que mais me marcou foi ver minha coluna impressa. Quando vi minha primeira coluna estampada, aquilo me deu uma grande alegria.”

Tatá Cabral: chefe de redação do Jornal do Povo. Coluna sobre cinema na Folha do Norte
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

Livro: “O Jornal do Bispo” - Capítulo 28 – EM CIMA DO LANCE

O que o rádio tocava virava sucesso. Em 1962, eram três as emissoras em Maringá: Cultura, Atalaia e Difusora. E uma grande rivalidade. O jornal era feito para um determinado grupo de pessoas. Já o rádio, com seu fantástico alcance, chegando a todos os rincões, dominava a preferência.

No lançamento da Folha do Norte, Osvaldo Lima estreou a coluna com um nome um tanto quanto esquisito: "Antenando e Discomentando". Nela, Osvaldo trazia os maiores sucessos do eixo Rio-São Paulo. As informações ele tirava, principalmente, das rádios Tupi e Bandeirantes, emissoras que ele ouvia diariamente.

Na primeira edição da Folha, “Suave é a Noite”, de Moacir Franco, liderava a parada de Osvaldo Lima. Sim, porque a organização da parada era do próprio colunista, que fazia a média entre as mais executadas nas emissoras e montava a sua. Moacir Franco, Agnaldo Rayol, Angela Maria, Cauby Peixoto, Altemar Dutra e Frank Sinatra desfilavam constantemente no "Antenando e Discomentando".

Osvaldo gostava de música, mas sua praia era outra. Melhor: seu campo era outro. Era o esporte. Foi no futebol que ele teve as maiores alegrias na profissão. Nascido em 1941, em Monte Santo, Minas Gerais, chegou com a família no Paraná, em 1945. Primeiro em Mandaguari. Veio para Maringá nove anos depois e nunca mais saiu.

Começou a trabalhar, ainda garoto, na Transparaná, localizada nas esquinas da avenida Brasil com São Paulo, onde hoje está a Lojas Americanas. Assim como Verdelírio Barbosa, iniciou a carreira jornalística no O Diário, não o atual, o do Norte do Paraná. Foi no jornal do Zitão, o João Antonio Corrêa Júnior, no final da década de 50, fazendo bico nas folgas da Transparaná.

Escrevia uma coluna em que misturava música e esporte. Além de Verdelírio, seu outro companheiro no jornal do Zitão era Pedro Granado Martinez, hoje empresário do ramo imobiliário, que fazia a coluna social.

Bastante ligado à Diocese, Osvaldo conheceu o padre André, que estava montando com dom Jaime a Folha do Norte e o convidou para escrever uma coluna no novo jornal. Lá ficou até 1965.
Depois de dois anos longe da imprensa, Osvaldo foi bancário e comerciário, mas não se adaptou. Recebeu convite para trabalhar na Tribuna de Maringá, jornal semanal de Manoel Tavares.

Na Tribuna, que ficava na rua Santos Dumont, em frente ao prédio da antiga HM, a Hermes Macedo, entre a rua Basílio Sautchuck e avenida Paraná, a equipe de Manoel Tavares se resumia a Osvaldo e a Lenin Schimidt. Lenin faleceu no dia 12 de dezembro de 2008, aos 75 anos, tendo trabalhado no O Diário do Norte do Paraná e no Jornal do Povo. Em 1999, quando saiu do jornal de Verdelírio, era o responsável pela coluna policial.

Voltando a Osvaldo Lima, seu período foi curto no jornal de Tavares. Em 1968, se transferiu para o O Jornal, então comandado por Ardinal Ribas. O jornal mudou de dono várias vezes, até de nome, mas Osvaldo sempre continuou nele e sempre com Verdelírio Barbosa, que chegaram, numa determinada época, a ser sócios do matutino.

Suas maiores alegrias foram as conquistas do Grêmio Esportivo Maringá, principalmente o título de 1968, na disputa do Robertinho, a segunda divisão nacional do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, competição das mais importantes do futebol brasileiro. O Grêmio venceu o Sport Recife por 3 a 0, em Pernambuco, e Osvaldo estava lá.

Acompanhar o time em outro estado, ainda mais em outra região do País, há 40, 50 anos, era o que se pode chamar de uma grande façanha. Apesar das dificuldades, os jornais A Folha do Norte e O Jornal sempre mandavam seus repórteres para acompanhar os jogos do Grêmio.

A equipe da Folha era uma das mais respeitadas do Paraná e os torcedores de Maringá e da região ficavam ávidos para ler as notícias. Espaços enormes eram destinados ao Galo do Norte.
Osvaldo assistiu a vários jogos fora da cidade trabalhando na Folha.

“Eu lembro que a gente acompanhou o Grêmio, que foi campeão no Campeonato Estadual em 1963. Inclusive lá em Paranaguá, no jogo contra o Seleto. Em 64, o Grêmio participou da Taça Brasil, representando o Paraná, e nós fizemos a cobertura. O primeiro lá em Florianópolis, contra o Criciúma, e o segundo em Curitiba, contra o Metropol, porque naquela época os times, se o campeão estadual era do interior, tinha que mandar o jogo na capital. Então, mesmo naquela época difícil, a gente acompanhava o Grêmio.”

Osvaldo Lima morreu sem se render ao computador. Na sua sala no Jornal do Povo, escrevia, sempre de manhã, a coluna "Em Cima do Lance", sobre esporte amador e profissional, na Olivetti Linea 88.

Até os 62 anos, idade que tinha quando sofreu enfarto fulminante em 19 de dezembro de 2002, gostava de relembrar da época de ouro do Galo do Norte, mas não apenas para ficar se lamentando. Pelo contrário. Sempre acreditou que um dia o Grêmio voltaria a ser forte. Todo movimento na cidade que visasse reerguer o futebol profissional, ele dava o seu apoio.

O mineirinho Osvaldo Lima, que também tinha espaço no coração para abrigar o Vasco da Gama, deu lição ao acreditar, até o fim da vida, na volta dos anos dourados do futebol maringaense. Ele sempre soube que os tempos eram outros, mas jamais desistiu de acreditar. Osvaldo viveu o futebol e neste mundo criou sua história e cultivou amigos.


Acompanhando o Grêmio no Campeonato Brasileiro (Robertinho), em 1969: Antonio Paulo Pucca, que morreu em 2007, e Osvaldo Lima no Aeroporto de Salvador
(Foto: arquivo pessoal família de Osvaldo Lima)


Edição de 1963: País em turbulência e Grêmio Campeão Paranaense
(Reprodução)

Osvaldo Lima faleceu em 2002: início na Folha do Norte com coluna sobre música; depois, o futebol
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" – Capítulo 27 – A CULPA FOI DO MILTÃO

Verdelírio Barbosa começou a escrever em 1959 num jornal chamado O Diário de Maringá, de propriedade de João Antonio Corrêa Júnior, o Zitão, jornalista e escritor já falecido. O jornal, homônimo daquele que viria a ser lançado em 1974, era diário só no nome. Em dificuldades financeiras, circulava uma vez por semana, às vezes nem isso.

A entrada no jornalismo aconteceu depois que Verdelírio enviou ao jornal de Zitão um artigo condenando a violência no futebol. O artigo não continha informações a respeito do futebol mundial ou pelo menos do brasileiro. Nada de análise sociológica. A questão era outra, bem doméstica.

Revoltado com a atuação criminosa de um zagueiro contra o Corintinhas, equipe amadora maringaense do qual ele era diretor, Verdelírio colocou seu desabafo no papel.

"O jogo era o Corintinhas contra o Melhoramentos. Tinha um zagueiro do Melhoramentos, meu amigo, o Miltão, que dava da medalhinha pra cima. Eu achei aquilo uma barbaridade."

Zitão gostou do artigo e o chamou para escrever no O Diário. Dada a inconstância do matutino, matutino entre aspas, frise-se, Verdelírio aportou no começo dos anos 60, no O Jornal de Maringá, que tinha Rubens Ávila como redator-chefe, já falecido, que viria a ser o primeiro chefe de redação do atual O Diário do Norte do Paraná, em 1974.

Em 1966, Verdelírio foi trabalhar na Folha da Norte como colunista esportivo, tendo como patrão Joaquim Dutra e redator-chefe A. A. de Assis. Ficou cerca de um ano. Retornou ao O Jornal de Maringá, onde praticamente construiu sua carreira jornalística escrevendo sobre política.

O envolvimento de muitos anos com o concorrente da Folha do Norte, o torna um dos mais habilitados a analisar aquele período em que O Jornal era considerado o primo pobre diante da modernidade e influência do jornal do bispo. Ao contrário da maioria, que imagina ter sido Ivens Lagoano Pacheco o primeiro dono do O Jornal, Verdelírio afirma que foi Samuel Silveira, um dos sócios da Rádio Cultura.

Segundo o jornalista, Ivens vendeu o jornal para um grupo político formado por Rodolfo Purpur, que foi reitor da UEM, João Paulino Vieira Filho, Evelino Pouper, entre outros. Os políticos continuaram mandando no jornal. Vieram em seguida Ardinal Ribas, já falecido, que chegou a ser deputado, e Helenton Borba Cortes, médico e vereador maringaense dos mais conceituados. Cortes, também falecido, era uma figura bastante respeitada em Maringá. Até João Paulino, que era amigo de Cortes e virou adversário no início da década de 60, só tem palavras elogiosas para ele.

Tendo apenas o hiato de 1966, quando foi para a Folha, Verdelírio viveu todos os momentos do O Jornal, fazendo de tudo um pouco, cumprindo inclusive a função de revisor junto com José Maria Bernardelli, ex-vereador na cidade e um dos mais prestigiados árbitros de futsal.

Ardinal Ribas deixou o comando para o filho Marcos Iran Ribas. Em 1972, a situação no O Jornal tornou-se crítica. O nome era forte, mas a estrutura frágil. Proprietários dos jornais Diário do Noroeste, de Paranavaí, e Umuarama Ilustrado, de Umuarama, se interessaram. Tinham intenção de constituir uma sociedade e arrendar o O Jornal.

Foi quando três funcionários do jornal resolveram propor o arrendamento: Verdelírio, Osvaldo Lima, que saíra da Folha, onde escrevia sobre música e ingressara no O Jornal para fazer esporte, e Luiz Nora Ribeiro, atualmente dono de gráfica em Maringá. Verdelírio lembra que o trio tinha muita coragem, mas dinheiro que era bom...

"Falamos com o Marcos Ribas: Já que você vai arrendar para eles por que você não arrenda para nós? Mas precisa tanto... E não tínhamos nada, era duro como estamos duros até hoje. Mas aí o Sílvio Barros era o prefeito..."

Sílvio havia sido eleito em 1972 e Verdelírio era bastante ligado a ele, tão ligado que havia se tornado seu assessor de imprensa. Marcos Ribas queria 5 mil cruzeiros pelo arrendamento. Pela amizade e pelo lucro promocional que o jornal poderia lhe dar, Sílvio deu o dinheiro da entrada, e Verdelírio, Osvaldo Lima e Luiz Nora assumiram. A primeira providência foi mudar a sede do jornal, que saiu da Santos Dumont e foi para o subidão do Maringá Velho, entre as praças José Bonifácio e Peladão.

O primeiro a deixar a sociedade foi Luiz Nora. Em seguida, Osvaldo Lima vendeu sua parte para Verdelírio. O jornal voltou a mudar de mãos quando Wilson Caetano fechou negócio com Verdelírio. Caetano, já falecido, era dono da Folha de Maringá em sociedade com Jorge Fregadolli.

Ele ficou pouco tempo com os dois jornais, desativou a Folha de Maringá e passou a comandar o O Jornal. E já na década de 80, Wilson Caetano chamou Verdelírio, o colunista esportivo Valdir Pinheiro, já falecido, e o publicitário Marco Antônio Beschizza para compor uma sociedade.

Beschizza não topou. Os outros dois, sim. O empresário da construção civil Ramirez Pozza entrou na sociedade em 1987 no lugar de Wilson Caetano. A nova sede já era na Bento Munhoz da Rocha. Valdir já havia saído. Com a entrada de Pozza, Verdelírio também saiu. Nas eleições municipais de 1988, o jornal apostou tudo no candidato a prefeito Ademar Schiavone, uma campanha declarada. Ricardo Barros venceu.

Em 1990, Ramirez fechou as portas, que só vieram a ser reabertas quase um ano depois por Verdelírio. No dia 31 de março de 1991, surge O Jornal do Povo, que continua até hoje no mesmo endereço da Bento Munhoz e comandado pelo diretor do Corintinhas, de 74 anos, que escolheu o caminho das letras para desancar o violento zagueiro Miltão e dele até hoje não saiu.


Ivens Lagoano Pacheco (de óculos) cumprimenta Osvaldo Lima; Verdelírio Barbosa entre os dois: confraternização no O Jornal de Maringá
(Foto - arquivo pessoal família de Osvaldo Lima)

Verdelírio Barbosa: passagem pela Folha com coluna política e dono do Jornal do Povo
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 26 - O ROMÂNTICO ASSIS

No seu apartamento na rua Arthur Thomas, no centro de Maringá, o professor universitário aposentado de língua portuguesa, jornalista e poeta Antonio Augusto de Assis desfila histórias importantes e curiosas sobre a Folha do Norte do Paraná, jogando luz sobre fatos que o tempo foi tornando obscuro. A história de Assis se confunde e se funde com a própria história do jornalismo maringaense.

Calmo e sereno, o carioca A. A. de Assis, como é chamado, nasceu em 7 de abril de 1933, em São Fidélis-RJ, chegou em Maringá em 1955. Antes, morou em Bauru (SP), onde trabalhou numa agência Chevrolet. Veio para ser empregado no comércio de peças para automóveis. Ficou menos de um ano neste emprego porque o seu gosto, revelado desde a idade de 16 anos no Rio, quando trabalhava num jornalzinho, era escrever.

Começou no A Hora, cujo diretor era Anibal Goulart, depois no O Jornal de Maringá e na Tribuna de Maringá. Assis lembra que a Tribuna, de André Tavares, era um jornal guerreiro, tinha na redação Ary de Lima, já falecido, que foi vereador e deputado, e ficou marcado para sempre na história da cidade por ser autor do Hino a Maringá.

Na Tribuna e no A Hora, jornais de curta duração, que iniciaram as atividades na metade da década de 50 e em menos de dois anos fecharam as portas, os profissionais faziam de tudo. Uma clínica geral, como Assis compara o trabalho que realizavam.

Ele trabalhou ainda na revista NP, a primeira grande revista da região, de Aristeu Brandspein, e esteve algum tempo na Rádio Cultura. A opção em trabalhar em jornal nada tinha de financeira.

“Ficar rico ninguém ficava, nem os donos. Depois é que os donos começaram a ganhar dinheiro aqui. Era o jornalismo romântico. Fazia-se jornal por idealismo, prazer, o cheiro de tinta. A gente era bobo. Era muito mais romântico do que profissional. A gente se empolgava.”
As andanças pelos jornais e rádio duraram até 1965, quando foi convidado para ser o diretor de redação da Folha do Norte, onde permaneceu até 1977. Mesmo não possuindo tino comercial, chegou a ser um dos arrendatários da Folha junto com Jorge Fregadolli, quando Joaquim Dutra inaugurou O Diário.

Assis era o homem de confiança, inclusive de dom Jaime, que mesmo tendo arrendado o jornal, acompanhava a par e passo todas as edições. O calmo e sereno Assis era a certeza de que o radicalismo não se instalaria na redação. Também era a certeza de competência e credibilidade.

O romântico Assis, que registrou este traço marcante de sua personalidade nas dezenas de livros que escreveu sobre poesia, foi o homem certo para aparar arestas, desarmar espíritos e conduzir um jornal que a provinciana Maringá exigia.

Sob um olhar distante, ouvindo os protagonistas, tem-se a convicção, ou pelo menos a impressão que Maringá vivia sem grandes abalos nos anos 1960. O tempo se encarrega de abrandar os fatos. Seus personagens, ao lembrar com saudades uma época, tendem a diminuir as mágoas ou até mesmo esquecê-las a ponto de elogiar o antigo oponente.

Mas a cidade tinha sua dose de fervor político. Dentro das condições que eram impostas à redação, a Folha buscou a fidelidade para informar. As questões políticas relacionadas à administração municipal, Câmara de Vereadores e à discussão partidária eram abordadas costumeiramente, mas nada que descambasse para golpes rasteiros, como denúncias vazias com o objetivo de achaque.

João Paulino sempre foi a bola da vez. Prefeito nas décadas de 60 e 70, era alvo de críticas. Assis conta que nada de pessoal havia nas críticas e nenhum interesse escuso. O grupo de João Paulino detinha o poder, portanto, era vidraça.

“Os políticos da cidade se sentiam incomodados e usavam a ditadura nacional para também pressionar a imprensa local. Era o João Paulino, o Haroldo Leon Peres, o Nei de Carvalho, o Túlio Vargas. A Folha brigou com o João Paulino desde o começo. O dom Jaime tinha uma polêmica muito grande com o João Paulino. Mesmo quando a Folha mudou de direção, o João Paulino olhava a Folha como uma espécie de inimigo. Até ele me chamava de “meu cordial inimigo”. Eu sempre gostei muito dele e parece que ele gostava de mim, mas, na hora da política, a gente cruzava as espadas. Até pouco antes de morrer, ele me encontrava na rua e lembrava daqueles bons tempos.”

Assis mudou o rumo de sua vida em 1979, quando foi dar aulas de português na UEM, onde ficou até se aposentar. Depois que saiu da Folha, em 1977, ficou dois anos fazendo uma coluna no O Diário chamada Gente muito gente, que a cada dia focalizava uma pessoa da cidade.

Da janela de seu apartamento, a visão da cidade não é das melhores. Edifícios interpuseram-se à frente, dificultando a paisagem. Os dias de hoje, evidentemente, são bem mais tranqüilos. Nada de apagar incêndios, acomodar situações. Hoje já não é preciso diminuir o ímpeto de intrépidos repórteres como Elpídio Serra, Wilson Serra, Messias Mendes, José Antonio Moscardi e Antonio Calegari, dos quais ele se lembra pela amizade, competência e criatividade com que redigiam seus textos. Não é preciso mais dar força para o novo repórter, mostrar o caminho das pedras. Assis fechou o ciclo no jornalismo diário.

Deixou, contudo, uma porta aberta para dar vazão à sua paixão pelas letras: faz poesias. Usa rimas para falar da vida, do amor. É pela poesia que Assis é conhecido em todo Brasil, sempre colecionando prêmios nos concursos literários que participa. Além de poeta, Assis escreve contos e crônicas de rara sensibilidade.

“Hoje já tem escola de jornalismo. Não havia. Eu nunca fiz escola de jornalismo. Fiz curso de letras, mas com 16 anos eu já trabalhava em jornal. Comecei como revisor e acabei entrando na coisa porque gostava. No curso superior de jornalismo se aprende tudo tecnicamente. Peca um pouco hoje neste aspecto de romantismo. Eu gostava do jornalismo romântico. A gente tinha até certos ídolos da imprensa nacional como o David Nasser, Carlos Lacerda, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony. Era um romantismo puro.”

Assis aprendeu a escrever, escrevendo. Aliou o talento natural à leitura e foi colocando no papel o que a mente pedia. As redações de jornais foram a escola de Assis.


João Paulino e dom Jaime juntos no palanque: só mesmo no apoio aos militares
(Reprodução foto -arquivo Diocese de Maringá)
O diretor de redação Antonio Augusto de Assis: 12 anos de Folha do Norte
(Foto: Nelson Jaca Pupin)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" – Capítulo 25 – O SALTO DE FRANK

Acompanhar Joaquim Dutra era um caminho natural para Frank Silva. Já se conheciam desde a época que o colunista social falava no microfone da Cultura na década de 50. Outro fator, talvez o mais importante para seguir Dutra, era que ambos falavam a mesma língua. Ambos gostavam do jornalismo e viam nisso a possibilidade de ganhar dinheiro.

Eram empreendedores. Frank tinha um bom rendimento na Folha, mas sabia que, por mais que se esforçasse, continuaria sob a tutela do bispo. Quando muito, poderia chegar a arrendatário. Quando foi chamado, não pensou duas vezes. Deixou a coluna social da Folha para Joel Cardoso, que iniciava no ramo, e foi fazer a sua no novo jornal. Suas explicações para a saída da Folha revelam a amizade por Dutra e a vontade de crescer.

"Eu tenho um profundo respeito e admiração por dom Jaime. Foi, inegavelmente, a Folha que me deu aquela projeção. Mas, com o advento do O Diário, um jornal que tinha a garantia de ser super moderno e eu na vontade de procurar crescer, e convidado que fui pelo senhor Joaquim, que foi meu patrão na Rádio Cultura, onde tive o primeiro emprego em Maringá e a quem eu devia e devo lealdade, logicamente passei para O Diário."

O grupo de Dutra ficou apenas dois anos à frente do O Diário. A sobrecarga de tantas empresas, entre elas a TV Cultura, inaugurada em 1975, fez com que o jornal quase fosse parar nas mãos do grupo que dirigia O Paraná, de Cascavel. Determinado a se desfazer do O Diário, o quarteto da Cultura, tendo Dutra como porta-voz, vendeu a metade das ações para o empresário Altamir Vinheski e 25% para Enésio Gomes Tristão, já falecido.

Neste período, Dutra já não dava as cartas no O Diário, mas possuía ainda 25% das ações. Quase no final de 1975, tendo assumido o departamento comercial da TV Cultura, ofereceu as ações para Frank, que em meia hora fechou o negócio, mesmo sem ter o dinheiro suficiente. O restante foi parcelado. Neste ínterim, Vinheski vendeu as ações para o empresário Ramirez Pozza, que em 1987 viria a adquirir O Jornal de Maringá. Já em 1976, Tristão vendia seus 25% para Frank e Edson Coelho Castilho.

Com entradas e saídas repentinas de outros sócios, que participavam da sociedade por intermédio de Frank, que buscava recursos para obter os 50%, finalmente aconteceu o percentual equivalente. Ele adquiriu a parte de Castilho e ficou com a metade. A outra para Pozza. No final de 1976, Frank adquiriu os outros 50%. Seu tino comercial havia sido colocado à prova mais do que nunca.

O empreendedor na área do jornalismo há muitos anos não escreve. De colunista, virou colunável. É dono, juntamente com a ex-esposa Rosey Rachel Vieira da Silva e outros familiares, do jornal mais lido da cidade. O grupo do O Diário adquiriu, em 2002, a Rádio Cultura de Maringá, onde Frank começou na imprensa.

O Diário do Norte do Paraná é o pioneiro na cidade na impressão off-set e em cores, não apenas com o azul e o preto, como era a Folha. A cada ano, o jornal que Dutra fundou em 29 de junho de 1974 vem se modernizando, acompanhando as tendências do mercado e sempre buscando uma maior interatividade com Maringá e região. Ao longo dos anos, desde sua fundação, a linha editorial do jornal, ou até mesmo a falta dela em alguns períodos, vem sendo questionada. No entanto, o espírito de luta de Frank para atingir seus objetivos é inquestionável.
De colunista social da Folha a dono do O Diário
(Arquivo de O Diário do Norte do Paraná)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 24 – TEMPO DE CUBA LIBRE E HI-FI



“A Escola de Datilografia Triunph por ocasião da formatura de mais uma de suas turmas promovia no salão de festas do Aero Club movimentadíssima audição dançante ao som do conjunto de Ritmos Júnior”. Esta foi uma das notas que Franklin Vieira da Silva, o Frank Silva, colocou na sua coluna “Crônica Social”, na primeira edição da Folha do Norte.

Frank, que chegou em Maringá em dezembro de 1954, era repórter da Rádio Cultura. Foi dele a cobertura do primeiro acidente aéreo na cidade ocorrido em maio de 1957. A esquadrilha da fumaça fazia uma daquelas apoteóticas apresentações diante de um público numeroso que se concentrou na praça Raposo Tavares e nas imediações da Rodoviária.

De repente, um dos aviões foi perdendo altura até espatifar-se próximo à Ferroviária, matando o piloto. Frank, que tinha apenas 15 anos, assistiu a tudo e foi para a rádio, onde deu todas as informações do acidente.

Bem relacionado com a sociedade desde garoto, Frank era amigo de Antonio Messias Pimenta, que o apresentou ao padre André, que seria o diretor comercial do novo jornal. Na conversa, padre André comentou sobre o lançamento da Folha do Norte e sugeriu a Frank que fizesse uma coluna social piloto. Frank fez e, com o aval de dom Jaime, foi contratado pela Folha.

“Eu não escrevia coluna social. Eu cheguei a escrever numa época no O Jornal uma coluna que falava sobre as atividades dos radialistas de Maringá e também os lançamentos dos discos. A chance de escrever uma coluna social foi na Folha do Norte, que, inegavelmente, era um destaque no interior do Estado.”

A coluna social deu-lhe a oportunidade de se relacionar com o empresariado e os políticos. Frank não tinha salário na Folha, ganhava comissão. Este relacionamento lhe rendia contratos de publicidade não apenas para a Folha, mas também para outros órgãos de imprensa, o que lhe proporcionava muito mais do que ser assalariado. Os ganhos não eram decorrentes apenas destes contratos.

“Eu era também o intermediário. Por exemplo: venda de títulos para clubes sociais. Outro exemplo: você chega numa cidade e não conhece ninguém. Eu, como colunista social iria conhecê-lo em primeiro lugar. Então, eu falava: o que você precisar aqui, se quiser ficar sócio de algum clube, quer comprar um carro, você fala comigo, porque eu vou ganhar uma comissão. Era um agente, com boa credibilidade. Nunca fiz nenhuma bandalheira como colunista social, tudo era combinado antes e com o maior critério possível.”

Se a paixão pelo jornalismo e o romantismo imperavam nas redações, Frank não havia se contagiado por isso. Para ele, jornal era um negócio e, portanto, teria que trabalhar como um comerciante. Com o tempo, ele exercitou este tino comercial a ponto de se tornar um dos mais bem-sucedidos do ramo.

Começou a “Crônica social” com um quarto de página, depois meia e, por fim, página inteira. Acompanhado do primo, o fotógrafo Reinaldo de Almeida César, e a partir de 1966 com Moracy Jacques, Frank esteve presente em todas as festas que ocorriam na cidade, principalmente no Aero Clube, Maringá Clube e no Hípico, onde se reunia a nata da sociedade maringaense. Os bailes de aniversário de Maringá, em 10 de maio, eram o que havia de mais luxuoso. Traje a rigor: terno preto, gravata borboleta, sapatos de verniz.

O Grêmio dos Comerciários de Maringá também promovia grandes bailes. Frank e Reinaldo eram presenças constantes, convidados pelo círculo de amizades que tinham e também pela divulgação do evento e das personalidades. Eram muitas as festinhas em residências. Época da cuba libre, do hi-fi, a Crush misturada com vodca, e da eterna Coca-Cola.

Bailes de debutantes eram um acontecimento, assim como concorridas eram as formaturas do ginásio, de datilografia e de corte e costura. E Frank, naturalmente, presente.

“Festas de debutantes tinham em Maringá, na pior das hipóteses, três por ano. Tinha muita festa de formatura de escola de datilografia, da qual eu também participei, eu me formando em datilografia. Não era para qualquer um, não. E também formatura de escolas de corte e costura. O que tinha de festas desses dois segmentos era impressionante, porque na época, aqui em Maringá, eu me recordo que tinha umas dez escolas de datilografia. As irmãs Kubota tinham uma escola de corte e costura e eram líderes desses movimentos de formatura. Eu ia a todas as festas, era uma agenda super-cheia. Olha, eu fazia questão de estar presente em todos os acontecimentos, porque, além de gostar, gosto até hoje, ainda tinha os contatos nos pontos de referência e fazia outras negociações.”

Dos colunáveis dos anos 60, Frank lembra de Joaquim Dutra, João Paulino, Adriano Valente, Anibal Bianchini da Rocha, Antonio Eriberto Schwabe e a esposa Laís, Lauro Fontes e Valquíria Fontes e Laércio Nickel Ferreira Lopes. Ele ressalta a elegância das pessoas, principalmente das mulheres.

Em 1967, quando Maringá completou 20 anos de emancipação política, Frank anteviu a possibilidade de faturar. Ele idealizou uma homenagem da Folha do Norte aos 20 industriais dos anos 20, os nascidos naquela década. Homenagem cobrada, evidentemente.

Passou a procurar donos de cerâmicas e madeireiras, empresas em grande número naquela época em Maringá. As reportagens saíram em janeiro e fevereiro. O final do ano ainda estava longe e por isso era possível continuar faturando.

"E em uma ação continuada, eu peguei os 20 engenheiros, os 20 médicos, os 20 advogados, e assim até o final do ano. Em dezembro, eu fiz, tenho até o filme ainda, das 20 senhoras de maior expressão na sociedade.”

Os eventos ocorriam em profusão. Frank chegou a fazer uma reportagem de dez páginas, que saiu numa edição especial, com as primeiras damas do norte do Paraná. Chegou inclusive a levá-las, em 1968, ao Palácio Iguaçu, numa audiência com Ivone Pimentel, a esposa do então governador Paulo Pimentel.

Frank ficou até 1973 na Folha do Norte. Saiu para acompanhar Joaquim Dutra, que deixara o jornal, onde era arrendatário, para fundar O Diário do Norte do Paraná.

A coluna Crônica Social, de Frank Silva, na primeira edição da Folha
(Reprodução)
(Reprodução)

(Reprodução)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" – Capítulo 23 – A ROTATIVA DA DISCÓRDIA

Em 1973, Joaquim Dutra pensou em modernizar a Folha. Resolveu comprar uma rotativa off-set sem consultar dom Jaime. Foi a Curitiba e manteve contato com o representante paranaense da empresa norte-americana Tejaner, que comercializava a máquina. As negociações começaram e só não foram concluídas porque surgiu um complicador.

Um complicador que atendia pelo nome de dom Jaime, o presidente-proprietário do jornal. Ao ficar sabendo da compra, o bispo não gostou nada da idéia. Ele não concebia o fato do arrendatário fazer uma mudança tão brusca no matutino sem sequer pedir sua opinião.

A off-set seria a primeira do norte do Paraná. Nem a Folha de Londrina, que a cada dia se solidificava, possuía uma. Além do próprio espírito centralizador de dom Jaime, que nunca gostou de ficar fora das decisões, havia uma outra preocupação. Dutra analisa que o bispo temia perder o controle da Folha.

Para acalmar dom Jaime, dirimindo quaisquer dúvidas, o arrendatário foi conversar com o bispo, praticamente pedindo uma autorização para a compra. Tudo esclarecido e imaginando que a situação estava resolvida, Dutra acertou a compra com a Tejaner, pagando US$ 100 mil pela rotativa. Contudo, a relação com o bispo voltou a ficar complicada. Dom Jaime proibiu que a rotativa fosse colocada na Folha. Dutra é quem conta:

"Foram dizer para o dom Jaime que eu queria ficar dono do jornal dele. E isso nem passou pela minha cabeça. Dom Jaime ia para a Europa naqueles dias e me avisaram que era bom eu conversar com ele antes de viajar porque ele não estava querendo mais que eu colocasse a máquina. Mas eu já tinha comprado. Então eu fiquei coagido, entre a cruz e a espada. Eu comprei uma máquina caríssima." Dom Jaime ficou irredutível, a máquina chegou, ficou na caixa e Dutra ficou desesperado. Ele reitera que não queria e nem tinha condições de tomar o jornal do bispo, pois era simplesmente o arrendatário. Tentou contornar a situação, mas foi em vão. "Tenho a impressão que foram envenenar o dom Jaime. E daí, eu fiquei com a máquina e pensei: - O que eu faço agora?"

Com uma máquina de US$ 100 mil na mão, sem poder utilizá-la e sem poder cancelar o contrato com a empresa norte-americana, apelou para seus sócios e amigos da Rádio Cultura e propôs montar um outro jornal na cidade. Samuel Silveira, Carlos Piovezan Filho e Reginaldo Nunes Ferreira toparam a empreitada.

O grupo contava ainda com um irmão de Dutra, que residia em Arapongas. Na sua saída, Dutra desfalcou a Folha, levando vários profissionais, entre eles, Frank Silva. No dia 29 de junho de 1974, surge mais um jornal em Maringá: O Diário do Norte do Paraná. Com impressão em off-set e Rubens Ávila como chefe de redação. Dom Jaime nas oficinas da Folha, ao fundo os radialistas da Cultura, Ferreira Sobrinho e Sônia, do Clube do Caçula, na década de 1960
(Arquivo pessoal de Gumercindo Carniel)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 22 – ADRIANO VALENTE, O PARCEIRO DA FOLHA DO NORTE

De todos os prefeitos de Maringá, Adriano José Valente foi o que teve melhor relacionamento com dom Jaime e, por conseqüência, com a Folha do Norte. É grande a amizade. Seu nome consta como jornalista, o que ele nunca foi, entre os documentos para a abertura da empresa.
O advogado Adriano Valente, que em 2001 ainda trabalhava no seu escritório da avenida Parigot de Souza, não se lembra de muitos fatos relacionados especificamente à Folha do Norte, quando foi prefeito de Maringá de 1969 a 1973. Reclama que recebia muitas críticas no começo do mandato, mas não sabe informar se elas foram publicadas na Folha ou no O Jornal.

Verificando as edições da época, percebe-se que, com Adriano na Prefeitura, o período foi de calmaria na redação da Folha. Esporadicamente saíam críticas à sua administração. Se a Diocese estivesse no comando do jornal certamente elas não existiriam. Muito pelo contrário. O apoio de Adriano foi fundamental para que dom Jaime pudesse realizar o seu maior projeto: a construção da Catedral Nossa Senhora da Glória.

O ex-prefeito, que foi deputado federal em duas legislaturas, de 1975 a 1982, prefere lembrar das dificuldades que enfrentou ao assumir a Prefeitura. Diz que na primeira etapa da sua administração teve que pagar muitos débitos e não pôde colocar em prática seu plano de governo.

Ressalta, porém, que nos dois últimos anos inaugurou o Parque do Ingá, o Parque de Exposições e outras grandes obras. Informa que só depois de sanear as contas do Município é que pôde atender a imprensa.

“Aí eu pude realmente estar em contato com a imprensa de maneira diferente, porque aí já havia uma sobra orçamentária para ela.”

Para a concretização de seu maior projeto, dom Jaime colocou Adriano Valente, que acabara de tomar posse na Prefeitura, como presidente da Comissão de Construção da Catedral. O advogado, nascido na capital paulista, em 1921, que chegou em Maringá em 1956, fala com orgulho de sua participação na obra.

“Eu acho que foi fundamental a participação da administração municipal para a construção da Catedral. Dom Jaime me procurou para constituir uma comissão de construção. A Catedral estava nas capelas, estava alguns anos parada porque não havia meios de tocá-la. Logo que assumi, procuramos as pessoas mais dinâmicas para se empenhar na construção. O Município influenciou muito. Essas pessoas eram generosas, mas o Município estava sempre presente e inclusive com a doação de material, de pedra e outras coisas mais. Então, a Catedral começou a ser realmente levantada a partir das capelas na minha administração. Eu fiz questão de colocar a cruz lá em cima. Era uma obra de dom Jaime e ele realmente foi o inspirador e trabalhou muito para que ela pudesse ser concluída, mas a minha administração fez ela avançar.”

Com Adriano na prefeitura, dom Jaime realizou seu sonho. Coincidência ou não, logo após a posse de Silvio Barros, em 31 de janeiro de 1973, começaram os desentendimentos entre o bispo e o arrendatário da Folha, Joaquim Dutra.

(Nota do autor: a entrevista com Adriano Valente foi realizada em 2001)

Adriano Valente, prefeito de Maringá de 1969 a 1973; amizade com dom Jaime

Com Adriano, a administração municipal teve participação decisiva na construção da Catedral
(Reprodução foto Laércio Nickel Ferreira Lopes)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 21 – JOAQUIM DUTRA, O ARRENDATÁRIO DA FOLHA DO NORTE, PIONEIRO DA COMUNICAÇÃO

Joaquim Dutra cumpria, até 2002, a rotina diária de ir à Rádio Cultura de Maringá, sua menina dos olhos. Já não precisava tomar decisões do dia-a-dia, mas sempre era ouvido nas questões importantes. Ele e seu amigo e sócio Samuel Silveira chegaram a ser proprietários de 14 emissoras de rádio, um canal de tevê, a Cultura, afiliada da Globo em Maringá, e O Diário do Norte do Paraná.

Dutra desfez-se de todos estes órgãos nos últimos 30 anos, mas da Cultura, a emissora do Leão, só abriu mão no início de 2002, quando a vendeu para Frank Silva. Na emissora mais antiga da cidade, fundada em 1951, Dutra foi sócio com Silveira, Carlos Piovezan Filho e Reginaldo Nunes Ferreira.

Figura das mais respeitadas de Maringá, Joaquim Dutra recebeu da Câmara Municipal, em 1979, o título de cidadão benemérito da cidade. Dono de um espírito empreendedor ímpar, sempre topou desafios, vencendo a maioria deles. Nascido na cidade paulista de Mogi-Mirim, ele chegou à cidade em 1950, acompanhando a família, que veio abrir um hotel.

Aos 83 anos, sofrendo de mal de Parkison, o primeiro arrendatário da Folha, se desculpa em não poder dar informações precisas sobre o jornal devido à fraca memória. Quando começa a falar, no entanto, ele discorre sobre os fatos mais importantes, praticamente sem hiatos de esquecimento.

Diz que o motivo que o levou a arrendar a Folha do Norte não foi pela possibilidade de ganhar dinheiro, mas sim porque não poderia deixar uma publicação daquela importância para Maringá e região sucumbir nas mãos de quem não era do ramo:

“O contrato de arrendamento foi um negócio mais feito na confiança. Foi um contrato inicial e aquilo serviu de orientação. A Folha não foi um exemplo de jornal, mas foi um jornal sério. Ela veio para moralizar a imprensa.”

Dutra não coloca a Folha como apenas um veículo de comunicação que passou pelas suas mãos. Fala do jornal com a convicção de que ele foi necessário para, se não acabar, pelo menos diminuir a picaretagem instalada em Maringá no meio jornalístico.

Assim, como dom Jaime, ele abominava o comunismo. Não foi por acaso que o bispo aceitou sem restrições o arrendatário. Dutra enfatiza que a boa intenção de um órgão de imprensa leva ao respeito e deste ao temor:

“Uma imprensa quando é bem dirigida, quando é bem intencionada, ela é temida pelos políticos e pelas pessoas de lado esquerdo. Então, como ela é temida, ela é respeitada, ela impõe respeito. Era assim a Folha, que tinha como redator principal o Assis, um bom redator, sempre bem intencionado, direto, um elemento ideal para tocar o jornal naquela ocasião.”

Nos quase dez anos no comando, Joaquim Dutra soube dinamizar os departamentos porque unificava o empresário e o maringaense que lutava por uma imprensa forte. Dava a importância eqüitativa ao comercial e à redação.

Deixou a Folha em 1973 para que o grupo de Jorge Fregadolli assumisse. O motivo, segundo Dutra e que dom Jaime não confirma, foi a compra de uma rotativa off-set. O empresário do ramo da comunicação não leva mais em conta esta história, continua a ter dom Jaime em alta conta e distribui elogios a todos com quem trabalhou na Folha.

O que lhe vem forte à mente, deixando-o ainda revoltado, quando o assunto é a década de 1960, é a figura do vereador maringaense Bonifácio Martins, um emérito comunista.

“Na Revolução de 64, foi briga por microfone. O Rio Grande do Sul fez a Cadeia da Legalidade e o resto do Brasil fez a Cadeia da Democracia. A guerra se baseou em conversas, em microfone. E nesta ocasião tinha um vereador aqui em Maringá que era comunista declarado. Aquele negócio das emissoras ficarem 24 horas por dia no ar, durante aquela revolução, ele veio três vezes atrás de mim para que eu mudasse a programação. Ele falava claramente: - Se você não mudar de estação, nós vamos cassar a licença da sua rádio. Mas a nossa índole, o nosso entendimento era tudo do lado de cá. Então, eu liguei para o Samuel Silveira, que estava em Curitiba e contei a ele o que estava acontecendo. Ele me disse: -Olha, Joaquim, se for para fechar a rádio, feche, mas nós não vamos passar para a Cadeia da Legalidade. O vereador fugiu quando acabou a Revolução, ele fugiu de Maringá e eu fui encontrar ele um dia comendo uma pizza lá em Cuiabá.”

Joaquim Dutra conta a história como se ela tivesse acabado de acontecer e dá um sorriso satisfeito de vitória. Quanto à sua menina dos olhos, a Rádio Cultura, ele só se desfez quando percebeu que havia concluído a sua obra na área de comunicação do Paraná.

(Nota do autor: a entrevista com Joaquim Dutra foi realizada em 2001)



Joaquim Dutra, arrendatário da Folha do Norte de 1964 a 1973, vendeu a Rádio Cultura de Maringá para Frank Silva, em 2002
(Foto: José Roberto Furlan)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 20 – DA DIOCESE PARA DUTRA

Em 1964, Dom Jaime arrendou o jornal para Joaquim Dutra e Samuel Silveira, proprietários da Rádio Cultura de Maringá na época e que permaneceram sócios até o início do novo milênio.

Coincidência ou não, justamente naquele ano do arrendamento o golpe militar de 31 de março. A Frente Agrária Paranaense foi fechada, assim como os sindicatos. E as Ligas Camponesas banidas e seus líderes perseguidos.

Dutra tocou o jornal por quase dez anos, sempre com dom Jaime exercendo sua influência na linha editorial. As edições antes e após Dutra pouco diferem. Nota-se mais informações locais. As matérias relacionadas à administração municipal nos períodos de Luiz de Carvalho e Adriano Valente eram bastante favoráveis, ao contrário da gestão de Sílvio Barros (1973-1977). Uma prova da onipresença do bispo.

As reportagens do governo do Estado, que tinha o amigo de dom Jaime, Ney Braga, ocupando o Palácio Iguaçu, e Paulo Pimentel, também eram positivas. Se João Paulino tivesse sido prefeito no período de Dutra na Folha do Norte, não seria sistematicamente criticado. Dutra sempre o teve em alta conta:

“O João Paulino foi um grande prefeito. Foi prefeito duas vezes e sempre muito amigo nosso, tanto no rádio como no jornal. Ele sempre me incentivou e foi uma pessoa de valor extraordinário. Político que hoje você não vê mais.”
Com o arrendatário, o jornal tornou-se mais dinâmico, com mais informações. Antonio Augusto de Assis chegou no ano seguinte para comandar a redação. Assis tinha experiência no jornalismo e não se envolvia com as finanças, ao contrário do padre André. A venda de propaganda teria que ser intensificada, afinal a era de venda das ações havia terminado.

Com experiência administrativa e em meios de comunicação, Dutra foi buscar profissionais para fazer o jornal progredir. A partir de 1967 passou a contar com Jorge Fregadolli, publicitário bem relacionado na cidade, que conseguiu montar uma boa estrutura no departamento comercial.

Mesmo com a saída da Diocese dos negócios, a Folha continuou a utilizar a estrutura das cidades da região, estrutura formada a partir do trabalho dos padres das paróquias. Quando Dutra assumiu, a Folha tinha uma tiragem diária em torno de 7 mil exemplares e manteve este patamar até encerrar o arrendamento em 1973.
Joaquim Dutra, Gumercindo Carniel, Jorge Fregadolli, dom Jaime e o linotipista Tupã, em frente à Folha, no final dos anos de 1960
(Foto - arquivo pessoal de Gumercindo Carniel)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 19 - A MATEMÁTICA INEXATA

A Folha do Norte foi arrendada dois anos depois da sua fundação. Foi um curto período em que o jornal esteve sob o comando da Diocese, mas dom Jaime continuou exercendo sua influência.

Mesmo não afirmando taxativamente, a explicação do arcebispo para arrendar o jornal foi o fato de ter sido enganado na venda das ações, o que tornou inviável para a Diocese continuar na direção.

Ele lembra que de 1962 a 1965 viajava constantemente para Roma, acompanhando o Conselho Ecumênico Vaticano 2º e deixava a administração com o padre André, que depois passou para o cônego Munício, também pertencente à Diocese.

“Foi neste tempo que houve um maior prejuízo. Muitas despesas porque não dava lucro. Então tivemos que pensar em passar adiante o jornal.”

O arcebispo deixa no ar que foi enganado. Passados mais de 40 anos, evita polemizar, mas dá sinais de como tudo aconteceu. É enfático ao afirmar que a causa da inadimplência foi o sumiço de boa parte do dinheiro das ações:

“Eu me lembro do Antonio Messias Pimenta, que vendia para nós as ações. Que Deus o tenha na glória. Não sei o que aconteceu. Porque, às vezes, as pessoas compravam 100 ações, pagavam 100 ações. Nós recebíamos 30. Ficavam 70 para receber. A gente mandava receber 70 depois. Não, não, já está tudo pago. Então, muito dinheiro desapareceu assim. Aí que veio aquele prejuízo. Assim, de fato, vendendo as ações, viesse o dinheiro todo ou então pagando por parte e cobrar. Então houve assim, esse desgaste grande. O Pimenta que era encarregado da venda das ações. Ele, com o padre André. Padre André depois deixou o ministério e foi embora daqui. Pimenta morreu. Mas, o pessoal que trabalhava dentro sempre tivemos bom relacionamento.”

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 18 – “AS COLUNAS POLÍTICAS E OS VEREADORES”

No ano em que a Folha fechou, em 1979, atuavam na Câmara os vereadores da sétima legislatura, que tinham tomado posse em fevereiro de 1977 e ficariam até 31 de janeiro de 1983.

Em 1979, foram poucos os projetos de relevância aprovados de autoria dos vereadores: o que autorizava o Executivo a implantar o sistema de semáforos de ciclo visual, o primeiro do País, idealizado pelo maringaense Divino Bortolotto em toda a área urbana de Maringá, a obrigatoriedade aos proprietários de prédios de apartamentos de mais de três pavimentos de reservar 10% da área do terreno para locais destinados à recreação infantil e o que instituiu no Município a obrigatoriedade da fiscalização de elevadores.

Ao contrário da década anterior, a imprensa passou a acompanhar mais amiúde o trabalho dos vereadores e dos políticos em geral, e não somente nas questões pontuais ou polêmicas. Maior espaço passou a ser destinado à Câmara. Nos anos de 1970, o jornalismo maringaense passa a focar a classe política muito além dos palanques, tribunas, gabinetes e salas de reuniões.

Hoje se pergunta por que o Legislativo maringaense é diariamente alvo de notas, comentários e reportagens ao contrário de cidades do porte de Maringá. Isto ocorre principalmente porque já se tornou tradição das redações de jornais e tevê, dos programas terceirizados de tevê e rádio e dos donos de tablóides pautar as ações legislativas, uma tradição de décadas; e também porque os próprios vereadores se encarregam de criar pautas para os jornalistas, negativas na maioria das vezes.

Nos estertores da Folha, havia a coluna Caldeirão, assinada por José Antonio Moscardi, mas que tinha a colaboração de toda a redação. Quando determinada reportagem não podia ser publicada por razões diversas, saíam informações fragmentadas nas colunas. Uma praxe que dura até hoje.

Com maior ênfase no início da década de 1970, os colunistas políticos passaram a ser leitura obrigatória para quem quisesse conhecer os meandros do poder. O Jornal de Maringá foi quem inaugurou o colunismo político na cidade. Verdelírio Barbosa, que continua escrevendo sobre política no Jornal do Povo, foi um dos pioneiros, tanto na Folha como no O Jornal, tendo trabalhado ainda no O Diário.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 17 – A FAZENDA ILUMINADA COMEÇA A SAIR DO PRIMITIVISMO

Naquele início da década de 1960 tudo estava por fazer. Maringá saía forte dos anos 50 e havia a necessidade de se modernizar para atender uma população que crescia a cada dia, que se espalhava para a Vila Operária, Vila Nova, Vila Sete, Mandacaru e zonas Dois, Quatro e Cinco.

Projetos nas áreas de saúde, educação, infra-estrutura, segurança e habitação teriam que ser executados com urgência. Inúmeros atos administrativos, para tornar mais ágil o trabalho da prefeitura, teriam que ser assinados. A cidade pedia transformações. Nesse período, grande parte dos projetos aprovados pelos vereadores foi enviada pelo prefeito João Paulino à Câmara.

Hoje, esses projetos básicos para que Maringá pudesse atender à demanda podem parecer simples. Contudo, havia a necessidade de recursos, que no início da década de 1960 eram escassos. O governo do Estado pouco olhava para Maringá, tampouco a União lembrava da existência da Cidade Canção. A arrecadação dos impostos municipais, como o IPTU (Imposto Predial Urbano) era minguada.

Na entrevista concedida para este livro, em 2001, João Paulino lembra que antes de assumir, era comum funcionários do Município receberem do contribuinte para completar seus salários. Na Maringá da década de 1950 prevalecia ainda o estilo paroquiano de administrar.

Com João Paulino, a fazenda iluminada, apelido dado pelos londrinenses, segundo afirmam os pioneiros, começava a sair do primitivismo; começavam os primeiros sinais de enfraquecimento da relação paternal entre o poder Executivo e a população. JP foi a mão de ferro que deu início ao processo.

O termo “fazenda iluminada” não foi dado sem razão. Um exemplo disso foi contado por dom Jaime, que em pelo menos duas oportunidades impediu o prefeito Américo Dias Ferraz, que administrou a cidade de 1956 a 1960, de ir armado de revólver às sessões da Câmara, onde seriam votados projetos do Executivo. A Maringá de dez anos de emancipação política ainda podia contar com figuras como Ferraz, já falecido.

João Paulino era centralizador, mas não podia adotar a mesma postura de Ferraz. Novos tempos estavam surgindo e havia um detalhe muito importante: o novo prefeito era promotor público e, portanto, inconcebível colocar um revólver na cinta para discutir com vereadores ou quem quer que fosse.

Os principais projetos aprovados pela Câmara, de autoria dos vereadores, nos quatro anos de mandato de JP e transformados em lei foram os seguintes: autorizava entendimentos com a Copel, no sentido de se proceder a extensão da linha de energia elétrica da praça Souza Naves até o Aeroporto Gastão Vidigal, criava nos estabelecimentos de ensino primário municipal a merenda escolar, autorizava a criação da sub-prefeitura no distrito de Floriano, instituía o regime jurídico dos funcionários municipais, dispõe sobre a organização da Caixa de Assistência, Pensões e Seguros dos Servidores Municipais de Maringá (Capsema), considerava hino oficial do Município a composição de autoria dos professores Ary de Lima e Aniceto Matti já denominada Hino a Maringá, institui o Museu Municipal, autorizava o Executivo a construir 50 casas populares na Vila Morangueira, a obrigatoriedade da vacinação de crianças nas escolas municipais contra poliomielite, varíola, difteria, tétano, coqueluche e outras, instituía o Ambulatório Médico Municipal e oficializava os símbolos de Maringá: o brasão de armas e a bandeira.

Nos anos subseqüentes, com Luiz Moreira de Carvalho, Adriano Valente, Silvio Barros, já atravessando a década, e João Paulino novamente, a Câmara oscilou na sua relação com o poder Executivo. Em nenhuma legislatura pode-se afirmar que houve a independência, princípio que deveria ser básico entre os poderes. A cada ano os projetos foram se tornando mais específicos à medida que os básicos foram sendo aprovados.

A Folha do Norte acompanhou este processo sem muito empenho. Ao contrário de hoje, em que o trabalho legislativo é acompanhado detidamente pelos órgãos de comunicação, na década de 60, a Folha em especial, divulgava mais as questões políticas envolvendo João Paulino e vereadores contrários às ações da administração municipal.

Maringá: final dos anos de 1950

(Kenji Ueta)

Maringá: meados dos anos de 1960

(Kenji Ueta)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 16 – NA PAZ DE CRISTO

Segundo dados do IBGE, Maringá tinha em 1960 uma população de 104.131 habitantes. Este número possibilitou que a Câmara Municipal aumentasse de nove para 15 vereadores na segunda legislatura (14 de dezembro de 1956 a 14 de dezembro de 1960).

Vigorava ainda na política o pluripartidarismo, entrando o bipartidarismo (MDB e Arena) a partir do regime militar. O Ato Institucional nº 2, de outubro de 1965, promoveu a extinção dos antigos partidos. Com o fim da ditadura houve o retorno dos pluripartidarismo.

Tendo como base os dados populacionais do Município, em 1968, o Legislativo maringaense passou a contar com 17 vereadores. Na sexta legislatura (1973-77), o TRE autoriza que a Câmara tenha 21 vereadores, número que se mantém até hoje.

Em 1960, na terceira legislatura, seis partidos tinham representantes na Câmara de Maringá. Foram eleitos Alceu Hauare (PDC) Arion Ribeiro de Campos (PSC), Bonifácio Martins (PST), Carlos Alberto Borges (FPD), Carlos Eduardo Bueno Neto (UDN), Ermelindo Bolfer (PDC), Joaquim Ferreira Dias (PTB), Jorge Sato (UDN), José Bendo (PSC), Luiz Moreira de Carvalho (FPC), Mário Clapier Urbinatti (PSC), Olídio Augusto Barboza (PSC), Ricardo Plepis (PDC), Kazumi Taguchi (PSC) e Ulisses Bruder (UDN).

Dos 17, nove tinham fortes vínculos com a Igreja Católica a começar pelo próprio nome do partido. A terceira letra, a “C”, refere-se a Cristã ou Cristão. Luiz Moreira de Carvalho, da Frente Popular Cristã, foi candidato a prefeito em 1964 e venceu com o apoio da Diocese de Maringá.

Para atestar esta ligação tão estreita entre a Câmara e a Igreja Católica basta lembrar que na segunda legislatura foi aprovado o projeto de lei de autoria do prefeito Américo Dias Ferraz, que autorizava o poder Executivo a destinar verba anual para a Diocese de Maringá como contribuição para a construção da Catedral. Com João Paulino, a verba foi cortada.

Dos vereadores, o único que se opunha efetivamente àquela situação de subserviência do Legislativo ao Executivo era o vereador comunista Bonifácio Martins, que se abrigava no Partido Social Trabalhista porque o PCB era um partido proscrito.

Nas primeiras edições da Folha não existem questionamentos sobre o trabalho dos vereadores. Por fatores diversos: evidentemente porque a grande maioria dos edis era católica, a maior parte dos projetos de lei era de autoria do poder Executivo e as discussões com o prefeito eram raras. Quando ocorriam situações deste tipo, a Folha se aproveitava para estender a polêmica. Como foi o entrevero entre João Paulino e o vereador e funcionário público Joaquim Ferreira Dias.

Primeira reunião da Câmara Municipal em 1964, dia 1º de fevereiro
(Arquivo pessoal de José Aparecido Borges)

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 15 – JOÃO PAULINO E OS CONFLITOS COM A FOLHA DO NORTE E COM DOM JAIME

Com João Paulino Vieira Filho à frente da Prefeitura de Maringá, a Folha do Norte do Paraná foi aberta e fechada. JP, como era conhecido, governou o Município de 1960 a 1964 e de 1977 a 1982. A Folha foi fundada em 1962 e cerrou as portas em 1979. Apenas uma coincidência, afirmou o ex-prefeito, que durante seus 80 anos de vida foi também advogado e promotor público.

Tendo a franqueza como uma de suas principais virtudes, João Paulino foi daquela estirpe de políticos em fase de extinção, que não queria e nem sabia adotar posturas para agradar, abominava eufemismos e dizia o que pensava “na lata”. O tempo não abrandou ou alterou seus conceitos, mantendo por isso, até seus últimos dias, um grande número de admiradores e, como não poderia ser diferente, um séquito, ainda que menor, de adversários.

Com a imprensa, o relacionamento sempre foi dos mais difíceis. JP justifica que nas duas oportunidades em que assumiu a Prefeitura o caixa estava praticamente zerado, tomou medidas, principalmente na segunda gestão, politicamente incorretas ou temerárias sob o ponto de vista promocional.

“Eu também não era assim de soltar dinheiro para a imprensa ou para jornalistas. Eu me lembro que, quando assumi pela segunda vez, dispensei um monte de jornalistas que tinha verba da prefeitura, como também acabei com aluguel pago para delegados, para a Junta de Conciliação e Julgamento, para entidades e autoridades. Fui limpando para fazer a prefeitura ressurgir. Claro, os jornais precisariam de dinheiro para sobreviver e o grande anunciador seria a Prefeitura. Isto criou uns embaraços.”

Se não bastassem as diferenças com jornais e jornalistas, a relação com dom Jaime era conflituosa. Assuntos políticos que extrapolaram as cercanias de Maringá, ganhando contornos estaduais e até nacionais, caso das ligas camponesas e a FAP, provocaram a divisão.
Contudo, ambos mantinham o respeito mútuo, já que sabiam da importância de cada um para a cidade e por isso preferiam não abordar questões que caducaram e já haviam sido por demais comentadas em décadas passadas.

JP preferia ignorar, mas não deixou passar a oportunidade de falar sobre a construção da Catedral. Em nenhuma das três placas comemorativas, na entrada do monumento, entre as dezenas de nomes de autoridades, consta o de João Paulino Vieira Filho. O ex-prefeito confirmou que enquanto chefiou o Executivo, não doou um tostão para a construção da Catedral, esclarecendo que a lei não permitia e que se o fizesse teria que contemplar as outras igrejas.

Ressaltou, porém, que construiu a praça em torno, chegando a demolir três obras próximas para liberar o projeto paisagístico do local.

A briga com a Santa Casa por atraso da Prefeitura no pagamento, briga comprada por dom Jaime, que foi notícia na imprensa, principalmente na Folha do Norte, é outro fato lembrado por João Paulino. O pagamento voltou a ser regularizado, mas o distanciamento foi ampliado. O ex-prefeito negou que a Prefeitura tenha feito repasses aos jornais na sua gestão e, enfaticamente, disse que nunca ligou para nenhum jornalista ou dono de jornal.

E o que fazia quando uma determinada matéria o atingia ou a sua administração?
“Eu ia fazer obras. Eu ia para Curitiba atrás de dinheiro, ia para Brasília. Eu nunca me ative às discussões da Câmara, nunca ouvi e nem sabia direito o que falavam lá. O passado está lá, o presente está aqui, vamos comparar o que foi feito e o que deixou de ser feito. Como é que isto hoje está sendo apreciado. Eu deixei para o tempo julgar, porque o povo não é tolo, não é bobo, né? Então, eu não ouvia, eu cuidava da vida da Prefeitura.”

Logo no início da Folha do Norte, João Paulino passou a ocupar as manchetes. A celeuma com o vereador Helenton Borba Cortes, sobre questão partidária, era acompanhada em capítulos pelo leitor da Folha. A cada dia surgia uma declaração, que teria uma resposta na edição seguinte.

Dois meses e meio antes de falecer, quando concedeu esta entrevista (a última de sua vida, em 7 de setembro de 2001), JP lembrava que as discussões estavam restritas às questões políticas e destacava a honestidade e a credibilidade de seu oponente político.

Por maiores que tenham sido as rusgas com dom Jaime, por mais demoradas e intensas que tenham sido as polêmicas, João Paulino sempre soube fazer o devido registro histórico, colocando o arcebispo como um dos alicerces da imprensa da cidade e para quem o maringaense deve agradecer pelos seus feitos. Para a Folha, ele também destinou elogios, adjetivando-a de equilibrada e ética.

Os elogios não são gratuitos. Ao mesmo tempo em que teceu loas ao jornal do bispo, relembrou um fato ocorrido na sua segunda gestão, contraditório ao seu espírito anti-promocional e de linha dura quando o assunto tratado era verba para a imprensa. O Diário tinha iniciado uma forte campanha contra a administração João Paulino logo após a Prefeitura ter renovado contrato com O Jornal de Maringá, que continuaria sendo o órgão oficial do Município.

“Uma vez eu sofri uma campanha muito grande no O Diário, do Frank. Muito pesada. Porque ele tinha ciúme do O Jornal, que era oficial e eu não queria tirar. E eu mantinha lá no O Jornal uma verba razoável e aí fizemos um acerto no sentido de expor fatos da Prefeitura. Aí, ele parou a campanha.”

O Município passou a ter o seu próprio órgão oficial em 1983, quando Said Ferreira assumiu a prefeitura pela primeira vez. João Paulino foi candidato a vice-governador na chapa de Saul Raiz, em 1982, deixando o cargo para seu vice, Sincler Sambatti, já falecido.

JP voltou a ocupar um cargo público, em 1997, na prefeitura, na gestão de Jairo Gianoto, como presidente da Urbamar, onde ficou menos de um ano. Até o fim de sua vida se manteve na ativa, procurando se inteirar das questões relacionadas à sua fazenda próxima a Paranacity.
Além de prefeito de Maringá, JP também foi deputado federal. Nasceu em Antonina-PR, em 1921, e faleceu em Maringá, dia 20 de novembro de 2001.
1960: o prefeito João Paulino confere obras no estádio Willie Davids
(Reprodução foto - site: www.maringa.com)

João Paulino (2º à esq.) e dom Jaime, em 1963
(Museu Diocesano)

JP: “Dispensei um monte de jornalistas que tinha verba da Prefeitura”
(Antonio Roberto de Paula. Foto de 7 de setembro de 2001 )


Desfile de carros da Prefeitura de Maringá, na avenida Brasil, na primeira gestão de João Paulino - 1960-1964
(Reprodução)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 14 – OS PRIMEIROS ANUNCIANTES

"Atualize seus negócios anunciando na Folha do Norte do Paraná": anúncio da Folha na página de esporte
(Reprodução)

Para uma cidade com uma população de cerca de 105 mil habitantes, como era Maringá, em 1962, o forte do comércio eram as cerealistas de café. Época do ouro verde e das casas de materiais de construção.
Na Maringá de hoje, um vendedor de publicidade tem uma lista de pelo menos 20 mil empresas, dos mais variados segmentos, para visitar. No início da década de 1960, as empresas não somavam 200 e 90% dos proprietários não anunciavam de forma alguma, mesmo os preços sendo módicos.
Não havia a conscientização de hoje sobre a importância de se divulgar produtos e serviços e o dinheiro não entrava com facilidade para a maioria. Havia outras prioridades e a propaganda não estava relacionada entre elas.
Mesmo com todas as dificuldades, a Folha começou a vender logo no início. É preciso ter sempre em mente que o jornal era do bispo, o que representava abertura de portas para quem fosse vender anúncios nas empresas. Já na primeira edição, a Morifarma, que tinha farmácias nas avenidas Brasil e Herval, colocou o seu anúncio. A Cafeeira Mercantil IRSA cumprimentou o jornal pelo lançamento, assim como os Hotéis Ferraretto, do qual o Grande Hotel Maringá fazia parte, a SAEL (Sociedade Elétrica Maringá), a DISMA (Distribuidora Maringaense de Automóveis) e o Frigorífico Luso Brasileiro Central.
A Casa Júpiter, que ocupava um dos maiores prédios da cidade, na avenida Brasil, ao lado da praça Raposo Tavares, tendo fechado as portas no início dos anos de 1970, também fez seu comercial: “Casa Júpiter – ferragens, louças, materiais de construção – avenida Brasil – Centro”.
O Expresso Maringá, que já vislumbrava o alcance que o jornal teria, foi anunciante logo nas primeiras edições. A Viação Garcia, seu maior concorrente, também. Na primeira edição de domingo, a Ford fez propaganda das Batedeiras Vencedora, as máquinas agrícolas de última geração, e a loteadora Codal, de propriedade de Alexandre Rasgulaeff, anunciava lotes de um bairro que estava sendo formado, distante do centro: o Jardim Alvorada.
O publicitário Jorge Fregadolli, que trabalhou 12 anos na Folha, sendo responsável pelo departamento comercial na maior parte deste período, conta que as dificuldades eram realmente enormes para fechar contratos, mas que as empresas consideradas fortes sempre faziam propaganda.
“Nós tínhamos a Somaco, Rodolpho Bernardi, Gonçalves Sé, Dias Martins, Cafeeira do Américo Dias Ferraz, que anunciava pouco, mas anunciava, o Bar Columbia, que era do prefeito Américo Dias Ferraz, o maior bar que o norte do Paraná já teve. Várias máquinas de café anunciavam. Tinha também aquela do Pompeu Jubileu, que era na Vila Operária, casa de comércio tinha a Casa Peralta, a do Arlindo Planas, que era no Maringá Velho. Hotéis, tinha o Hotel Esplanada, mas muito pouco. Era difícil vender propaganda. Você tinha que incutir no dono da empresa que ele tinha de anunciar, abrir as portas para vender mais.”
As propagandas políticas eram outra alternativa. A Folha foi inaugurada a menos de dois meses para as eleições para governo do estado e deputados. Vários candidatos fizeram anúncios, mas somente aqueles com vínculo com a Igreja Católica.
Naquele tempo não havia limite de espaço para que os políticos fizessem suas propagandas nos jornais, por isso era comum ser vendida uma página inteira para apenas um candidato, como foi o caso de Orlando Peraro, que concorria a uma cadeira na Assembléia Legislativa. Na primeira semana de Folha do Norte, Peraro comprou uma página em que aparecia sua foto de alto a baixo e os dizeres exaltando o cristianismo. O também candidato a deputado estadual Elias Karam tinha um pequeno espaço, mas com uma contundente mensagem abaixo da foto: “Nem comunista, nem capitalista: católico praticante.”

ALGUMAS DAS PRIMEIRAS PROPAGANDAS NA FOLHA DO NORTE
(Reprodução)


Livro: “O Jornal do Bispo” – Capítulo 13 – OS SONHOS DO PADRE ANDRÉ

O padre José Torres, ou padre André, como era conhecido, havia chegado ao norte do Paraná em 1950, vindo de Minas Gerais. Dom Jaime tinha tanta confiança nele que o colocou na direção da Folha do Norte. Em 1960, confiou-lhe a organização da venda das ações. Padre André era um dos maiores acionistas. Na assembléia geral extraordinária para deliberar sobre o aumento do capital social em 10 de outubro de 1961, dom Jaime adquiriu 600 cotas e padre André veio em seguida com 100, assim como dois outros padres da Diocese de Maringá.

Na entrevista concedida à revista NP, de Aristeu Brandspein, em setembro de 1962, pouco antes do lançamento da Folha, é possível perceber a ambição do padre André Torres em relação à Folha do Norte. Seguramente, ele não estava em Maringá apenas para cumprir suas obrigações sacerdotais. Também é de se supor que pelo menos parte deste estado de espírito tomava conta dos membros da Diocese.

Para um bispo que tinha a intenção de dividir o Paraná, formando o Estado do Paranapanema, os objetivos eram bem mais abrangentes do que a circulação do jornal. A revista NP, de 3 de setembro, em seu editorial, divulgou os sonhos do padre André, que eram os sonhos da Diocese de Maringá.

“Será lançado em Maringá, como primeiro passo para a estruturação de uma poderosa cadeia regional de órgãos de informação, o matutino “Fôlha do Norte do Paraná”. Trata-se de um investimento da ordem de CR$ 100 milhões, com sede própria provisória, rotativa em fase final de montagem, oito linotipos, tituleira, material completo de clicheria e estereotipia, etc. A iniciativa é comandada pelo Padre André Torres, que não limita seus projetos ao matutino, que está para sair. Os planos do Padre André empreendem: a) transformação da “Fôlha do Norte do Paraná” em jornal do norte do Estado, efetivamente; b) criação de uma cadeia de jornais locais, capitaneados pelo órgão diário regional; c) seis estações de rádio disseminadas por aquêla região paranaense; uma estação de TV em Maringá; d) o lançamento da revista “Paraná em Foco”, rodada com apresentação de jornal, na rotativa da “Fôlha do Norte do Paraná”, que tem mais de 2 mil acionistas participando do empreendimento. E pretende lançar (ainda este mês) com 32 páginas e em duas cores; está contratando pessoal e se propõe a incrementar a posição de Maringá como centro geográfico e de irradiação econômica sôbre a zona do café. A distribuição da “Fôlha” será feita aos municípios mais afastados por avião, que se pagará também no transporte de passageiros. Um detalhe: o Padre André espera rapidamente aumentar sua circulação. “O segrêdo é levar o matutino também à zona rural.” O plano é simples: a distribuição será realizada nas escolas – os professores entregarão, todo o dia, o jornal aos alunos cujos pais sejam assinantes. A “Fôlha do Norte do Paraná” terá ampla cobertura da Igreja no interior do Paraná. “Nosso jornal” – disse a NP o Padre André – “Não será de direita nem de esquerda, mas de centro, no que esta palavra significa em termos de democracia. Faremos um jornal católico, mas não um jornal religioso.”

A maioria destes sonhos não chegou a ser realizado. Em menos de dois anos no comando da Folha, padre André foi defenestrado do cargo antes mesmo de Joaquim Dutra assumir como arrendatário. Padre André perdeu o cargo, deixou a batina e foi embora de Maringá. Ninguém sabe para onde.



Operários da construção civil dão uma pausa no trabalho, na avenida Brasil, no início dos anos de 1960
(Arquivo pessoal de José Aparecido Borges)


Avenida XV de novembro, em 1963; à esquerda o edifício Maria Tereza, em construção
(Arquivo pessoal de José Aparecido Borges)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 12 - A CURIOSIDADE E A PERSEVERANÇA DE GUMERCINDO CARNIEL

Saído da roça, Gumercindo Carniel nunca tinha visto uma máquina como aquela. Arrumara emprego no novo jornal da cidade como faxineiro. Entre uma varrida e outra ficava observando os técnicos da empresa Tejaner, que tinham vindo do Rio de Janeiro especialmente para colocar em funcionamento a máquina duplex e tubular fabricada nos Estados Unidos. Similar a dos grandes jornais da época, essa era rotativa, ao contrário da plana que existia no O Jornal de Maringá. Na plana, se trabalha com folhas cortadas, os chamados papéis resma. Nesta, eram utilizadas bobinas de até 300 quilos.

O jornal contratou Fioravante Mazão para ser o encarregado das oficinas. O axineiro Gumercindo, curioso e humilde, ficou amigo dos técnicos cariocas e passou a receber instruções sobre o funcionamento do maquinário. Em pouco tempo, deixou a vassoura e passou a trabalhar com Mazão. Quando Joaquim Dutra assumiu o comando da Folha, em 1964, Mazão foi para Curitiba, onde recebeu uma boa oferta para trabalhar de impressor, abrindo vaga para Gumercindo ser o responsável.

Hoje, as redações têm horário para entregar as matérias. Nos anos de 1960 e 1970 não havia um horário limite. Era comum os repórteres ficarem até às 3 da manhã redigindo sobre um evento que havia acontecido à noite. Ocorria, então, a reação em cadeia: a matéria não saia da redação, paravam a diagramação, a composição, as máquinas e a distribuição.

No início da Folha surgiam ainda outros motivos para o atraso. O principal era a queda de energia, o que era corriqueiro em Maringá naqueles tempos. Gumercindo chegava às 21 horas e seu primeiro serviço era acender a caldeira para derreter o chumbo. Se acontecesse de acabar a energia, que levava até duas horas para voltar, o chumbo esfriava e todo o processo teria que ser refeito. Outro problema era a própria rotativa. Se alguma peça emperrava, era difícil saber qual. Era necessária uma checagem quase completa, trabalho que demandava muito tempo. Aos poucos, Gumercindo se tornou um técnico no assunto a tal ponto que, pelo barulho emitido pela locomotiva, ele já sabia onde era o defeito.

Gumercindo já não se recorda da maior parte dos companheiros com quem trabalhou no setor. Recorda-se, além de Mazão, de Antonio Belincanta, Eufrázio e do linotipista Tupã. Diz que o salário não era dos melhores, mas, ao contrário dos demais colegas, preferiu ser registrado na Folha. Nos anos de 1960, o trabalhador não estava conscientizado como hoje da importância do registro em carteira e nem sobre seus direitos trabalhistas.

Entre os fatos marcantes da sua vida na Folha do Norte, Gumercindo se recorda das férias coletivas devido às dificuldades financeiras, quando o jornal chegou a ficar um mês sem circular, em 1964. “Depois de dois anos que começou, o jornal estava com muita dificuldade. Ai veio o seu Joaquim Dutra, arrendou e então tudo mudou. Eu assumi lá no serviço de chefe de oficinas.”
Quando Dutra deixou a Folha e foi montar o O Diário, Gumerciando seguiu o patrão. “Já fui junto. Eu falei com ele: “Seu Joaquim, se o senhor me der um lugar, eu vou”. Aí ficou todo mundo animado porque o O Diário ia trabalhar com off-set. Aí eu fui fazer estágio em Florianópolis.”

Da Folha para o O Diário e daí somente para a aposentadoria. Gumercindo tem Dutra em alta conta e também Frank Silva, a quem considera um grande amigo. Paulista de 82 anos, natural de Presidente Bernardes, Gumerciando veio para trabalhar na roça e ficou quase 40 anos envolvido com rotativas. A sua curiosidade e perseverança o levaram a ser um profissional dos mais qualificados. Guarda fotos da época como troféus para exibir com orgulho e dizer que também faz parte da história da imprensa de Maringá.

Gumercindo, o chefe das oficinas, verifica a impressão
(Foto : arquivo pessoal de Gumercindo Carniel)

Gumercindo Carniel trabalhou 11 anos na Folha e depois foi para O Diário. Só saiu para se aposentar
(Foto: Antonio Roberto de Paula)

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 11 - TORTUOSOS CAMINHOS

Com a informatização, várias fases para se fazer um jornal foram extintas. Hoje, as matérias são diagramadas no computador e enviadas para a pré-impressão. Para a montagem do fotolito se gasta menos que cinco minutos para página colorida e um para a preto e branco. O passo seguinte é a revelação, vindo o encaixe das cores ciano (azul), magenta, amarelo e preto. Então, é gravada a chapa e enviada para a impressora. Portanto, um processo rápido e eficiente.

Na Folha do Norte do Paraná, eram tortuosos os caminhos. Do repórter na rua coletando dados até o garoto fazendo a entrega do jornal eram muitas as dificuldades. Redigido texto, entrava em cena o revisor. Revisado, o material era enviado ao linotipista. A linotipo é um aparelho de composição em chumbo de linhas de texto em que a matéria é datilografada. À medida que se datilografa, as matrizes vão deslizando formando as palavras e as linhas. Encerrado este trabalho, é levado a uma caldeira com chumbo derretido em que a linha da matriz é fundida numa só placa.

Cada linha recebia uma carga de chumbo. Se determinada matéria contivesse 30 linhas, por exemplo, seriam 30 placas que deveriam ser alinhadas. Ajustadas todas as linhas, colocava-se um rolo de tinta no papel que estava sobre as placas para tirar o molde e fazer a revisão. É comum encontrar linhas fora de ordem em jornais das décadas de 1960 e 1970 por erro na disposição das placas e por “cochilo” do revisor.

Os títulos das matérias eram feitos no componedor, um aparelho de metal que reúne os tipos (letras). Faz-se o mesmo processo das linhas, fundindo o título numa só placa. Para as fotos, eram utilizados clichês de zinco. Composta toda a página, eram realizados ajustes de forma a completar os 80 centímetros de altura do exemplar. A página é levada até à calandra, uma prensa que produz matrizes, que imprimia nos papelões, os chamados flãs. Nestes flãs saía impressa a página em baixo-relevo.

Da calandra, o flã ia para a guilhotina para ser aparado. Depois, colocado num molde, onde era derramado o chumbo. Transformava-se, então, numa peça de cerca de 35 quilos. Gumercindo Carniel, que trabalhou 11 anos nas oficinas da Folha, seguia todos estes caminhos para chegar enfim à impressora. Um caminho que tinha que ser percorrido de acordo com o número de páginas da edição. Era pelo menos oito vezes numa noite, que na fase de Joaquim Dutra passou a 16 e em datas comemorativas chegou a 50. Mesmo passados décadas daquele trabalho, ele se lembra de todos os detalhes.

Gumercindo é quem conta: “Esta peça de 35 quilos, embora se colocasse na água para esfriar, não podia ficar esperando, então tirava a peça com as mãos protegidas com feltro para não queimar e colocava em cima de uma mesinha que tinha uma capa de aço e daí para o torno. Aí cortava a parte que sobrava, sempre tinha uma sobra de chumbo porque ele tinha que dar peso. Depois ia para a prensa. A prensa ia tirar todas as partes que tinha de sair em branco, que não podia pegar tinta. Tinha que afundar, que eram as partes que ficaram em claro, sem letra, sem nada e não podia pegar tinta. Depois de prensado e tirado tudo com um formão, a gente ia tirar aquelas rebarbas que ficava da prensa. Todas aquelas rebarbas, com formãozinho bem fininho. Daí é que ia para a rotativa, para a impressão.”

A máquina rotativa é uma impressora constituída de cilindros que funciona em movimento conjugado de rotação, desenrolando as bobinas automaticamente, e capaz de atingir alta velocidade. A rotativa da Folha era a tubular, modelo pequeno em relação às rotativas propriamente ditas. Seus cilindros são de diâmetro reduzido e assim são chamadas por serem destinadas a matrizes de forma tubular.

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 10 - A PRIMEIRA EDIÇÃO

Alguns dias antes do lançamento da Folha, que oficialmente ocorreu no dia 25 de setembro de 1962, foi publicada uma edição experimental. Sem a data e o expediente. Com oito colunas, como eram os jornais da época, títulos com caixa alta na primeira letra de cada palavra quando não era colocado todo o título com letras maiúsculas. E a novidade no interior do Estado do Paraná: a cor azul em alguns títulos da capa e da última página, a 8, do esporte.

Espertamente, a direção colocou ao lado da manchete o aviso “fase experimental”, que seria publicado durante quase um mês. Havia uma grande expectativa em torno do lançamento da Folha. Dom Jaime temia que as primeiras edições não correspondessem a estas expectativas e em “fase experimental” os leitores e acionistas, não necessariamente nesta ordem, seriam mais compreensivos. A explicação para a “fase experimental” foi a de que os equipamentos estavam sendo ajustados.

Em termos editoriais, a Folha vinha com uma exaltação ao presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, o que se tornaria comum, tragédias no resto do mundo e João Paulino na berlinda. As notícias do Estado, do País e as internacionais chegavam a Maringá através da Transpress, uma agência de notícias que atuou na cidade só até 1965. As informações da política nacional eram obtidas através do rádio, que também era um grande aliado para Borba Filho, que cobria o esporte.

Na manchete desta edição, a Folha inaugurou a “inimizade cordial” com o prefeito JP, que perduraria por muitos anos, atravessando a década. Era uma manchete que visava reacender a polêmica entre João Paulino e o vereador e funcionário da prefeitura Joaquim Ferreira Dias. A Folha não havia entrevistado o prefeito. A informação fora “chupada” de um jornal de Londrina e “cozinhada”: “João Paulino acusa: Joaquim Ferreira Dias faz chantagem com sua posição de vereador.” Abaixo da manchete, a foto do prefeito. Na outra foto da capa, crítica à administração municipal. Era sobre a Cerro Azul, a principal avenida da Zona Dois, com um texto inicial que tanto poderia ser o título como foto-legenda: “Parou o serviço de asfaltamento: Cerro Azul completamente impedida”.

Da redação, além das matérias sobre João Paulino e da Cerro Azul e as colunas, constavam reportagens do esporte, com grande destaque para o Grêmio Esportivo Maringá, que se preparava para o jogo com o Arapongas, pelo Campeonato Paranaense; sobre o colégio eleitoral, informando que Maringá atingira 38 mil eleitores, sendo o terceiro do Estado; e o pedido da Associação Comercial à Rede Ferroviária para que o pátio da rede fosse asfaltado.
Na coluna Folha Feminina, escrita, mas não assinada, por Irene Mota, uma das poucas mulheres a escrever na Folha e por um curto período, informações sobre a coleção de inverno do estilista italiano Scarabocchio e tipos de óculos. Efetivamente, havia sido dada a largada daquele que deveria ser o maior jornal do interior do Estado.

A edição número 1, de 25 de setembro de 1962, não teve grandes novidades. Na manchete, “Estação Ferroviária não tem condições para funcionar: lama”. Trazia no expediente J. Torres, o padre André, como diretor superintendente, e Hugo Santana como diretor responsável. Para dom Jaime, a primeira edição foi aquela experimental que não tinha data nem expediente. Em 2001, no Museu Diocesano, na Catedral, esta “edição experimental” ocupava lugar de destaque.


A primeira edição, publicada em caráter experimental (Reprodução)

Logo no primeiro número teve início a “inimizade cordial” com João Paulino (Reprodução)

Folha Feminina sem o nome da responsável (Reprodução)

Expediente na primeira edição não constava o nome de dom Jaime. Só o de J. Torres (padre André) e Hugo Santana (Reprodução)

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 9 - OS JORNALISTAS DOM JAIME E ADRIANO VALENTE

Na declaração assinada por dom Jaime em 17 de agosto de 1962, já com o timbre da Folha do Norte do Paraná S/A, ele informou que Emilio Zola Florenzano, Adriano Valente, José Torres, Hugo Mendonça Sant’ana, Massao Shiraishi e Erwin Pröhlic eram funcionários da editora atuando como auxiliares da administração.

No pedido de atestado de boa conduta, a Chefatura de Polícia informou que nada havia que os desabonassem. Nas certidões negativas expedidas pelo Juízo de Direito da Comarca de Maringá, assinadas por Bolivar Dutra de Oliveira e Oscar Gonçalves Severiano, não havia nenhum processo civil ou criminal na comarca contra dom Jaime e os funcionários da Folha.

Em todas as solicitações e respostas, inclusive na declaração de dom Jaime, os membros são citados como jornalistas. O próprio bispo consta como jornalista. Excluindo Sant’ana, que está no expediente das primeiras edições como diretor responsável, e José Torres, o padré André, que dirigia o jornal, não se tem conhecimento de que os demais chegaram a trabalhar na Folha, muito menos como jornalistas.

Várias das pessoas ouvidas, que trabalharam no início da Folha, só se lembram de José Torres. O nome mais conhecido é o do advogado Adriano Valente, que foi prefeito de Maringá de 1968 a 1972. Valente confirmou sua amizade com dom Jaime, mas informou que não chegou a escrever para a Folha do Norte e para nenhum outro jornal.

Do padre André e Hugo Sant’ana não se têm notícias, assim como dos pioneiros Florenzano, Prölich e Shiraishi. Contatos foram mantidos com famílias de sobrenome Shiraishi, mas o nome Massao é desconhecido para elas. Estes nomes não aparecem na lista de acionistas enviada com outros documentos ao Registro de Imóveis, Títulos, Documentos e Pessoas Jurídicas.

Livro: "O Jornal do Bispo" - Capítulo 8 - OS TRÂMITES

No dia 1º de setembro de 1962, dom Jaime deu entrada nos papéis da empresa no Cartório de Registro de Imóveis, Títulos, Documentos e Pessoas Jurídicas – 2ª Circunscrição. Arquivada sob o número 130, pasta número 5, a empresa foi registrada como Editora Folha do Norte do Paraná S/A, sendo matriculada a oficina impressora e o jornal Folha do Norte do Paraná.

Para obter o registro, o bispo teve que seguir o seguinte trâmite: declaração do nome, nacionalidade, idade e residência do redator principal, do proprietário, dos redatores e do gerente; prova de ser o redator principal brasileiro nato; folha corrida do redator principal, dos redatores e do gerente; declaração do título do jornal, sede da redação, administração e oficinas impressoras próprias com designação do respectivo proprietário; prova de ter realizado locação de serviços com seu pessoal e de possuir o seu capital suficiente para garantir o pagamento desses serviços, pelo menos durante um trimestre; e um exemplar dos respectivos estatutos.

O trabalho, realizado em agosto, rendeu 42 páginas devidamente fotocopiadas e registradas no Tabelionato Pimpão, em Maringá, que tinha como tabelião titular Vespertino F. Pimpão e como oficial maior Ernesto von Edihardt; na Escrivania do Cível, Comércio e Anexos (Cartório do 1º Ofício), tendo Diógenes Pinto como escrivão; Cartório do Distribuidor, Contador, Partidor e Depositário Judicial, do titular Bolivar Dutra de Oliveira, que emitia documentos da 1ª e 2ª Vara da Comarca de Maringá; Cartório do 2º Ofício Criminal, do escrivão Paulo Vieira de Camargo; 7º Tabelionato de Curitiba, tendo Renato Volpi como tabelião e Kerlei José Volpe como oficial maior; e Junta Comercial do Estado do Paraná.

Dom Jaime teve que emitir declarações confirmando o vínculo empregatício com a Folha do Norte de seis pessoas, e entrar com pedido de atestado de boa conduta na Chefatura de Polícia e certidões negativas no Juízo de Direito da 1ª e 2ª Vara da Comarca de Maringá, dele e de cinco membros, supostamente funcionários. Ainda foram anexadas à documentação, certidão do Departamento Nacional de Propriedade Industrial e cópia da ata da Assembléia Geral Extraordinária realizada em 27 de janeiro de 1962 com os nomes de todos os acionistas.

Estatuto social da empresa Folha do Norte do Paraná S/A
(Fac-símile)