sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Desventuras de um cliente sem força na conta-corrente



Você chega ao banco pouco antes das 11 horas, horário em que ele será aberto. Já encontra uma fila com trinta pessoas. Quando as portas são abertas, mais de vinte estão atrás de você. Você entra apressado porque sempre tem uns gaiatos que querem cortar a fila.
Gente apressada que está sacrificando o almoço para depositar e, principalmente, pagar contas e cobrir cheques. Pressa, mas é preciso paciência. Ou então, o melhor é chegar às 10 para arrumar um bom lugar na fila. É depois das 10 que muitas pessoas conseguem entrar pelas portas do fundo.
Não adianta reclamar. Você não é cliente personalizado, portanto não tem guichê próprio e nem vai ser atendido antes ou depois do expediente. E sem direito a cafezinho. Fique na sua porque o seu depósito é mensal. Você pega o pagamento, coloca na conta-corrente e em menos de uma semana evaporou.
Se é só pra isso, por que você continua a trabalhar com o banco? Simples: os pré-datados são moeda corrente neste país e não dá para abrir mão. Imaginou ter de encarar a secretária sisuda em um hospital numa emergência às 4 da madrugada sem o pré-datado? Ou quando o tanque está vazio e o pagamento longe? Lá vai outro pré e seja o que Deus quiser.
O histórico de sua conta-corrente é deprimente: um depósito e vinte cheques. O débito sempre superando o crédito. O limite do seu especial – não tão especial assim – supre a diferença. Você já tentou aumentar, mas o gerente, sempre lembrando das ordens da matriz, diz que pela movimentação é impossível.
Quando você vai pegar um talão, fazem uma conferência de Genebra para liberar. Você faz parte da massa que dá um lucro extraordinário aos bancos, mas individualmente... Então você está na fila pensando em todas estas coisas enquanto funcionários uniformizados transitam pelo cenário informatizado.
Coisa de primeiro mundo. À sua frente, as pessoas com ar de enfado já não têm mais para onde olhar. Você observa os documentos que elas levam. Calcula: se cada uma levar dois minutos para ser atendida, vou ficar 20 na espera. No mínimo. São mais de vinte guichês, mas para a fila que lhe destinaram somente dois funcionários estão no trampo.
As outras caixas funcionam apenas como enfeite. Mais atrás, vários bancários se movimentam. Você se pergunta por que eles não vêm para a frente. Paciência, não é o setor deles. Você se conforta ao olhar para trás. Mais de trinta esperam chegar a vez. Você dá até um sorrisinho disfarçado enquanto pensa que eles não vão sair antes do meio-dia. Aplique, não saia mais de casa, cuidado com o cartão, poupe, faça leasing, financiamento...
São tantos apelos nos grandes cartazes que você acha que está no prejuízo por não entrar em nenhum daqueles itens. Chega a sua vez. Os documentos na sua mão estão até um pouco úmidos. Você os entrega para a moça de blusa clara, botões até o pescoço e com penteado já preparado para a festa da noite, que diz: “Desculpe, senhor, mas não podemos receber. Depois do prazo, o pagamento deve ser efetuado apenas na seguradora. E não recebemos conta de luz.”


(Do livro Da minha janela, publicado em 2003)

Um comentário:

Wilame Prado disse...

Parabéns pelas crônicas de Paula. Gosto bastante de literatura.
Se tiver um tempo, dê uma visitada em meu blog A Poltrona:
www.apoltrona.blogspot.com

Abraço!