terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Nasci Antonio




Nasci Antonio como poderia ser João ou Pedro. O parto aconteceu entre Santo Antonio e São João, entre fogos de artifício e bandeirinhas coloridas. Feliz de quem nasce em junho. Pega carona nas festas juninas e recebe benção tripla. A benção do triunvirato Antonio, João e Pedro.

Parto normal como eram normais todos os partos daquele tempo e daquele lugar. Parto normal com uma exímia parteira. Aliás, dizem que todas as parteiras daquela época, que não é tão distante assim, eram ótimas. Uma prática que foi banida. Até o parto normal ficou fora de moda. Hoje a mamãe quer um rasgo na barriga para colocar o rebento no mundo.

Nasci Antonio como poderia ser João ou Pedro. Ou João Pedro. Ou Antonio João, ou Antonio Pedro. Vice-versa. É por isso que há tantos Antonios, Pedros e Joãos. Falta de criatividade dos pais? Nada disso. Nascer em junho é uma dádiva e por isso vamos pedir que Santo Antonio, São João e São Pedro protejam nossas crianças.

Com o tempo a tradição foi morrendo. Os Antonios, Joãos e Pedros passaram dos 40. Com a morte desta turma, no terceiro milênio vai ser difícil encontrar alguém com um destes nomes. Vai acabar sendo chique achar um cara com o pomposo nome de Antonio João Pedro da Silva.

Hoje, os nomes próprios ficaram americanizados. Poucos dos nossos filhos têm nome de santo. As festas juninas continuam. Não por alguma reverência à tríade santificada. Ninguém lembra disso. É preciso aproveitar a ocasião para faturar. Não demora e até evangélico vai fazer festa junina. Pipoca, cerveja, salgadinho, bingo, quadrilha. E nenhum cartaz do santo casamenteiro, do apóstolo preferido de Cristo, e de Pedro, o líder, o homem de confiança, o primeiro papa.

A imaginação, a inventividade do brasileiro não tem limites. Com o comércio tão próspero em junho, a festa foi esticada. Temos também as festas julinas. Logo, logo pintam as agostinas e as setembrinas. Os eventos para homenagear Antonio, João e Pedro foram totalmente desvirtuados.

Nasci Antonio como poderia ter nascido Sebastião ou Jacinto. Ou Sebastião Jacinto. E você me pergunta o que tem a ver com esta história o Sebastião ou o Jacinto. E eu lhe respondo que por pouco não recebi estas duas pérolas no meu registro.

Lembra que os pais costumavam juntar os nomes dos avôs e sem qualquer consentimento registravam o indefeso naquela de fazer dupla média com o pai e o sogro? Segundo me contaram foi o que quase aconteceu. Salvo pela providencial interferência da mãe deste primogênito, que homenageou um santo e, para não ficar muito carola, tascou um nome pagão na seqüência.

Nasci Antonio entre fogueiras de Santo Antonio e São João. Bandeirinhas perfiladas, sanfonas, saias floridas e quentão. Pipocar de rojões e crianças excitadas correndo de um lado para outro. Sem hospital, maternidade ou homens e mulheres de branco. Só uma casinha de madeira, a parentada e a vizinhança na expectativa, uma mulher iniciando na função de mãe e uma excelente parteira. Nasci em junho, quando o céu é mais brilhante.

(Do livro Da minha janela, publicado em 2003)

Um comentário:

Diniz Neto disse...

Antonio, muito bons os textos.