sábado, 3 de novembro de 2007

Escrever é viver

Escrever é tortura e terapia, trabalho e divertimento, sofrimento e comemoração. É a vontade de mostrar a alma e expor as idéias. Escrever é poetar, declarar, orar, protestar e sonhar. Escrever é participar, interferir, informar, comentar, repensar, apontar alternativas, ousar, facilitar e complicar. É vagar, descompromissar-se do estabelecido tendo a vontade como compromisso. É querer ser livre, ordenando as palavras de modo que elas levem a mensagem. Formas e estilos variados de enviá-las. Escrever é marcar posição, é sentir-se inserido, responsável e útil. É tirar pensamentos dispersos e discipliná-los no papel. É fotocopiar frases do coração. O som das teclas é a alma em ebulição despejando letras.

A razão nem sempre está em primeiro lugar. Nem poderia. Desprendimento nem sempre combina com racionalidade. E como é salutar sufocar a razão de vez em quando e deixar a emoção comandar! Escrever é destilar prazer, buscar no âmago a idéia, fazendo a criação a partir da primeira palavra, exteriorizar esta idéia. Tirá-la da prancheta da mente. Um dolorido e feliz parto. Parir o pensamento e entregá-lo ao mundo. Escrever é desligar-se deste mundo para nele se concentrar. É concretizar o abstrato, materialização de influências e experiências. Escrever é arte, profissão, passatempo e desabafo. É a catarse, a devolução da pressão e repressão acumuladas diariamente. É escapismo e engajamento. Tudo ao mesmo tempo.

Quem escreve é egoísta e narcisista, mas também é tímido e solitário. É o companheiro que quer estender o seu raio de ação e entende que a escrita é a melhor maneira de atingir a meta. Escrever é um ato de amor e de coragem. É a divertida tortura que leva ao prazer. É o sofrido trabalho sinônimo de terapia. Escrever é viver.

(Livro Da minha janela - 2003)

Um comentário:

João disse...

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